Capítulo 9
Comemorativo: dia dos professores
— Meu amor, eu tô morrendo de saudade de você! Morreeeendo! — Eduarda falou, sorrindo feito boba com o telefone colado na orelha.
— E eu de você, meu amor! Demais! Tô em ponto de cometer algum delito… — Lorena respondeu do outro lado, a voz aveludada transbordando provocação — Algum crime, sei lá… Só pra ficar presa aí nos seus braços!
QUE MULHER É ESSA? GRAÇAS A DEUS QUE É MINHA E TODA MINHA, NÃO TROCO E NÃO SOLTO POR NADA!
— Você sabe que não pode ficar me falando essas coisas, né? — A ruiva falou baixo, num tom que as duas conheciam muito bem — Mas meu amor, vou precisar desligar agora, tá? Tenha um bom dia por aí, te amo! Mais tarde a gente se encontra! Te amo!
— Te amo demais, meu amor! Até mais tarde! Tô contando os minutos pra te ver e te encher de amor!
Eduarda apoiou o telefone no birô com um sorriso enorme nos lábios.
Tudo está saíndo conforme o planejado!
Afinal, a ruiva não ocupava o cargo de delegada à toa! Analisar cenários, investigar detalhes e arquitetar planos mirabolantes e precisos era a especialidade da casa! Há mais de duas semanas, ela vinha estudando meticulosamente cada milímetro da rotina da esposa: os horários exatos de cada turma, a grade de aulas, o itinerário na faculdade e os cantinhos onde mais gostava de tomar café. Perguntava e anotava todos os detalhes. Estava de olho em absolutamente tudo para garantir que a surpresa saísse perfeita!
Hoje era um dia especial para Lorena: Dia dos Professores, e Eduarda, que amava a esposa e sua profissão, sua inteligência, sua vontade de continuar naquela carreira ao longo de tantos anos, seu empenho, queria fazer o que estivesse em seu alcance para que a data fosse marcante e ainda mais especial.
No que depender de mim, minha mulher vai ser mimada e adorada em toda e qualquer data comemorativa possível e existente! Mas posso esperar pela páscoa, para a gente homenagear os coelhos fazendo muito amor!
O dia na delegacia seguia infernal, do jeito que a ruiva AMAVA e quando finalmente teve uma folga, pegou o celular, já esfregando as mãos e sorrindo feito uma vilã de desenho animado prestes a dar o bote.
Lorena: Meu amor
Lorena: Você não existe, sério 💘
Lorena: Assim que cheguei na portaria, o Joel tava me esperando com um sorriso enorme
Lorena: Amei as flores!! Que delicadeza!
Lorena: “Feliz Dia dos Professores, para você que segue me dando aulas na arte de amar”
Lorena: Juro, Eduarda, eu não posso com você!
Lorena: FELIZ DIA DOS PROFESSORES PARA VOCÊ 🤤🤤
Lorena: QUE ME DÁ AULAS DE COMO SENTIR TESÃO DENTRO DE UM CARRO ANTES DAS NOVE DA MANHÃ!
Eduarda: Que bom que você gostou, meu amor!
Eduarda: E quando você descobrir que o estudo de mais tarde vai ser sua língua ☝️
Eduarda: Mas sério, você sabe que eu admiro demais a profissão que você escolheu!
Eduarda: Te amoooo! Você merece o mundo de coisas boas 💝
Lorena: Por isso que meu “mundo” é você 😏
— Doutora, desculpe atrapalhar seu papo com a Dona Lorena, mas tem uma bronca para você resolver! —Macedo falou, enfiando a cabeça pela porta e arrancando a ruiva do transe do celular.
— C-como você sabe que eu tô falando com a Lorena? — Eduarda perguntou incrédula.
— P-pela sua cara de bocó apaixonada… — Macedo gaguejou, dando meio passo para trás por puro instinto de sobrevivência — D-desculpa a sinceridad-
— Tudo bem, Macedo! — A ruiva falou sorrindo saltitante, abrindo um sorriso radiante e dando até um pulinho saltitante na cadeira. Pois que o mundo inteiro saiba mesmo que eu sou uma bocó completamente apaixonada, rendida e cadelinha da minha mulher! Nasci e fui criada única e exclusivamente para te amar, te venerar e te adorar, minha esposa! Coisa linda da minha vida! — Vamos trabalhar! Inclusive, tenho algumas missões especiais para você, hoje!
XXX
Enquanto isso, a quilômetros dali, a missão especial no bloco de Humanas era completamente outra.
Lorena estava exatamente no seu hábitat natural: em pé diante do quadro, com um piloto na mão, os óculos de grau levemente apoiados na ponta do nariz e um entusiasmo contagiante no olhar. Se tinha uma coisa que a morena fazia com maestria, além de deixar a esposa totalmente desequilibrada de amor, era lecionar.
A turma inteira seguia acompanhando cada palavra em absoluto silêncio. Lorena tinha esse poder magnético: era rígida quando precisava, exigente até o último fio de cabelo, mas carregava um carinho tão genuíno e uma preocupação tão verdadeira pelo aprendizado e pelo futuro de cada um daqueles alunos que era impossível não se apaixonar por ela e pela aula dela.
— Como vocês podem implementar iss-
TOC-TOC.
— Pode entrar. — Lorena falou encarando a porta e aproveitando a oportunidade para beber água, na garrafa térmica verde e familiar de Eduarda que havia levado para o trabalho.
— Licença, professora Lorena? — Um rapaz usando farda de entregador e um boné laranja perguntou, colocando a cabeça para dentro da sala.
— Sou eu! — A morena respondeu, ajeitando as folhas sobre a mesa.
— A senhora pode vir aqui rapidinho?
A morena encarou a turma e decidiu unir o útil ao agradável…
— Pessoal, dois minutinhos de pausa só para irem beber uma água ou banheiro — A morena falou e os rostos foram se iluminando — Lembrem que a ata ainda não foi passada e que eu estou ficando velha e não esquecida, sei quem estava aqui! — Ela disse por fim e alguns alunos sorriam.
— Tá certo, professora!
— Como se a gente fosse perder essa aula!
A morena tentou conter o sorriso de orgulho e se aproximou da porta, fazendo questão de encarar de forma brincalhona e intimidadora alguns alunos que já se esgueiravam na saída.
— A senhora Eduarda Fragoso pediu para lhe entregar isso aqui. — O homem falou puxando uma pequena cesta de palha, envolta por um plástico transparente com um laço roxo delicado e a morena logo reconheceu a logomarca.
Minha tortaria favorita da vida, que delícia! No interior, havia uma garrafinha de vidro com um café gelado com alguns cubos de gelo ainda intactos, uma das minhas bebidas favoritas, alguns biscoitos e uma fatia generosa de banoffee de banana vegana.
Lorena sorria tão largo que o rapaz acabou sorrindo junto.
— Muito obrigada, Marcos! — A morena falou lendo o nome do rapaz na farda — Tenha um bom dia e um bom trabalho!
O rapaz sorriu e acenou com a cabeça, Lorena voltou para a sala segurando o presente e ouviu os cochichos de alguns alunos. A morena deixou a cesta no birô, abriu delicadamente o laço e pegou o pequeno cartão.
“Se você fosse a minha professora na faculdade, eu faria questão de reprovar essa disciplina umas três vezes seguidas só para passar mais tempo olhando para você! Feliz Dia dos Professores, meu amor! Te amo!” escrito com a caligrafia familiar de Eduarda.
Lorena fechou o cartãozinho contra o peito e ficou ali, mordendo o lábio inferior numa tentativa pífia e completamente inútil de camuflar o sorriso continental que teimava em escancarar o quanto ela estava inteiramente caidinha, rendida e atolada de amores pela esposa.
XXX
Eduarda: Macedo, me manda uma atualização aí!
Eduarda: Tô ficando preocupada, já!
Macedo: Doutora…
Macedo: Eu acho que estão tentando roubar a senhora!
Eduarda: Me roubar, Macedo? Como assim?
Eduarda: Eu compro nessa joalheria há anos…
Eduarda: Eles estão com um problema na chave pix, só isso!
Eduarda: Por isso que você levou meu cartão!
Macedo: Então, mas o valor… Deve ter alguma coisa errada!
Eduarda: Como assim, Macedo?
Eduarda: Para com tanto enigma e fala logo qual o problema!
Eduarda: 👺👺👺👺👺👺
Macedo: A senhora pediu pra eu vir pagar pelo par de brincos
Macedo: E pela gargantilha (é esse o nome?)
Macedo: O caba tá me dizendo aqui que essa riatinha fina e os brinco tão dando caro!
Eduarda: Macedo, PAGA LOGO!
Eduarda: PAGA 💸💰
Eduarda: Não tem perigo de não passar!
Macedo: Acho que deu bronca no seu cartão, doutora!
Eduarda: Jóias são caras mesmo!
Eduarda: Bronca no cartão? Que bronca?????
Macedo: 😅😅😅
Macedo: Talvez… talvez eu tenha errado a senha 3x
Eduarda: MACEDO, EU VOU APERTAR O SEU PESCOÇO!
Eduarda: 👿👿👿👿👿👿
Eduarda: EU VOU TE AMTAR!
Eduarda: MATAR!
Eduarda: FIQUO NERFOSA!
Macedo: É que o seu 3 parece com um 5!
Macedo: Mas já tá tudo resolvido!
Macedo: Resolvi!
Eduarda: 🤨🤨🤨🤨🤨🤨
Eduarda: Não chegou nada no meu aplicativo, aqui…
Macedo: Eu paguei! XXX
Lorena saiu de sua última aula sentindo um cansaço gostoso, amava o que fazia, passou pela sala dos professores esbanjando um sorriso continental e se despediu dos colegas que olhavam curiosos para o verdadeiro combo de mimos, recolheu o resto de suas coisas e seguiu para o estacionamento, carregando o buquê de flores, que havia acompanhado ela durante o dia inteiro, bem como a cesta com alguns biscoitos, uma geleia e com a garrafa de vidro, achei linda demais para botar no lixo!
A morena franziu a testa numa leve estranheza assim que se aproximou do seu carro e deu de cara com a viatura descaracterizada da Polícia Civil estacionada bem na vaga ao lado. Mas, para sua surpresa, nada de ruiva à vista: quem estava lá era o investigador Macedo, de pé e encostado na porta.
Ué… Será que aconteceu alguma coisa? Meu Deus-
— Boa tarde, dona Lorena! — O jovem falou abrindo um sorriso largo e solícito.
— Boa tarde, Macedo! Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa com a Eduarda? — Lorena perguntou preocupada, parando o passo no mesmo instante.
— N-não, de jeito nenhum! A Doutora tá perfeitamente bem, tá lá na delegacia atolada de inquérito. Ela só pediu para eu vir lhe entregar uma coisa — Macedo respondeu sorrindo e abrindo o banco de trás do carro, retirando uma sacola de grife pomposa e relativamente grande — Ela disse que assim que a senhora abrir tudo, vai entender o que é para fazer depois. — O homem falou com um sorriso discreto.
— Ai, meu Deus! — Lorena falou sorrindo descrente, o que é que eu faço com a Eduarda, hein? Pelo amor de Deus! — Deixa só eu guardar essas coisas aqui no carro que já pego essa sacola.
A morena abriu o banco do carona e colocou as flores e a cestinha, depois pegou a sacola e colocou com cuidado no banco de trás do carro.
— Muito obrigada, Macedo! — Lorena falou sorrindo gentil e o rapaz retribuiu.
— Por nada! Agora, vou indo… Minha chefe me dá bronca se eu atrasar! — Macedo falou sorrindo..
— A sua chefe é um caso sério! Acho que caso de polícia e tudo! — Lorena falou sorrindo e o rapaz sorriu de volta, entrando na viatura.
Lorena finalmente entrou no carro, ligou o ar-condicionado e se sentia como uma criança serelepe, extremamente animada e empolgada, a ponto de se bater palminhas e sentir vontade de soltar gritinhos.
Com habilidade, pegou a sacola do banco traseiro e sorriu incrédula ao ver um pequeno envelope dentro. Retirou um pequeno QR code recortado e cuidou em apontar a câmera no mesmo instante. Foi teletransportada diretamente para seu próprio Spotify e Tim Bernardes invadiu o sistema de som do carro.
Tudo em volta tem me confirmado, bebê
Que eu e você somos coisa de alma
O universo tem deixado claro, bebê
Só quem não quer ver não enxerga
— Acho que o plano da Eduarda hoje é me matar de tanto amor, só pode! — A morena murmurou baixinho, com o coração acelerado.
Namora comigo, eu namoro com você
Garupa de moto amarela
É meu feriado favorito você
Quem eu quero ser tem que estar do seu lado
Com cuidado, abriu uma pequena caixa e se deparou com dois pares de brincos belíssimos e uma gargantilha delicada. Sorriu largo na mesma hora, amei, amei, ameeeeei! Logo depois, puxou a caixa maior e quadrada do fundo da sacola. Ao desdobrar o papel de seda, ficou completamente boquiaberta ao se deparar com um vestido preto espetacular, de tecido nobre, caimento impecável e com aquele decote nas costas que Eduarda era inteiramente obcecada.
Lorena passou a mão pelo tecido, a imaginação voando longe, para cenários completamente despidos, um arrepio gostoso subindo pela espinha e o sorriso virando uma malícia pura.
— Ah, Eduarda Fragoso... Se você pensa que vai me deixar assim sem pagar um preço alto, tá muito enganada! Já sei que a recompensa que eu vou te dar mais tarde naquele colchão vai ser astronômica! Não vai sobrar uma junta no lugar!
Já me apaixonei ficando cego, bebê
Com você eu sonho de olho aberto, bebê
Quero amar e sempre ver de perto você
A morena finalmente voltou para o envelope e tirou um bilhete com “Graças a Deus que valorizar a minha mulher também é valorizar a educação deste país! Te busco em casa às oito em ponto, lindíssima com esse vestido, e depois do jantar eu te pego a noite inteira! Feliz Dia dos Professores, meu amor! Te amo DEMAIS!”
Lorena soltou uma gargalhada gostosa no carro, apertou o bilhete contra o peito e já engatou a marcha. A mente da professora já não estava mais na aula, nem nos alunos, nem no trânsito e nem no jantar…
Estava todinha focada nas oito da noite e principalmente em ser jantada!
Comentários
- Seja a primeira pessoa a comentar!