Capítulo 10
Trabalho, barzinho e garotas de programa
— Meu amor, você vai mesmo voltar para a delegacia de novo? — Lorena perguntou realmente preocupada.
Desde que voltou das férias, Eduarda não teve descanso, a ruiva não era muito adepta ao repouso, mas estava trabalhando demais até para os próprios parâmetros. Nem mesmo uma folguinha sequer, para conseguir assistir suas novelas antigas e seus doramas em paz. Aparentemente, todos os problemas do mundo resolveram cair justamente naquela jurisdição e no birô da ruiva, tudo era muito grave, muito urgente, muito tudo e ela já estava cansada, com olheiras e tudo!
— Vou sim, meu amor… — A ruiva falou baixo, quase que envergonhada enquanto amarrava o cadarço do coturno, sentada na cama.
— Meu Deus do céu… Essa semana a gente dormiu junto, o que? Duas vezes? — Lorena pontuou, cruzando os braços.
— M-meu amor, m-me perdoa! — A ruiva se apressou em dizer — E-eu sei que o meu trabalho-
— Amor, o problema não é o seu trabalho. — Lorena falou gentil — Eu casei com você apesar dele, lembra? Sei que às vezes você passa por esses picos de muitos casos e por mais que eu não goste dessa cama toda só pra mim, entendo que às vezes você precisa virar a noite fora…
Eduarda encarou a esposa e havia tanto amor e compreensão naquele par de olhos verdes que a ruiva quis chorar.
— Só estou preocupada com você… Com a sua saúde! — A morena continuou, se aproximando e segurando as mãos da esposa com carinho, se colocando entre as pernas da mulher e segurando o rosto sardento como se fosse a coisa mais preciosa do mundo — Todo esse estresse não faz bem pro meu bebê!
A ruiva soltou uma risada frouxa, negando com a cabeça, completamente envergonhada e se sentindo a criatura mais adorável do planeta.
Hihihi, eu sou o bebê dela! Sou uma mulher de sessenta anos, que anda armada e prende gente, mas sou dela e sou o BEBÊ dela!
— Sabe de uma coisa, minha paixão? — Eduarda perguntou mudando completamente de humor e subindo as mãos pelos antebraços da esposa — Você vai me dar peito de que horas? — A ruiva perguntou com um sorriso sapeca nos lábios e Lorena gargalhou.
Vai rindo, morena… de risadinha em risadinha você vai baixando a calcinha!
— Para de ficar fazendo gracinha, tô tentando falar sério com você! — Lorena repreendeu sorrindo, sem conseguir disfarçar o encantamento, eu fico besta com a velocidade que esse cérebro ruivo consegue transformar tudo em flertes bobos que me fazem ter vontade de tirar a roupa toda hora.
— Amor, prometo que é só essa semana, vou arrumar tudo e semana que vem eu não saio do seu lado na hora de dormir! — A ruiva falou decidida, a simples perspectiva de agradar Lorena era motivação mais do que suficiente para fazer a delegada mover montanhas e fechar a delegacia.
— Vem aqui. — A morena pediu docemente e pasmem, como um filhotinho domesticado, Eduarda obedeceu.
A ruiva se aproximou e Lorena a puxou devagar pelo queixo.
— Você… vai… trabalhar… com calma hoje! — A morena ditou, pausando a frase para encaixar beijos lentinhos e molhados na boca da ruiva, que foi ficando completamente mole e anestesiada — Não… vai… se estressar muito! Tá me ouvindo bem?
Eduarda seguia estátua, com um sorriso quilométrico nos lábios, os olhos fechados e as sobrancelhas subindo e descendo, completamente entregue e mole.
— Meu amor? — Lorena chamou fingindo seriedade.
— O-oi, paixão… — A ruiva falou voltando à realidade — Eu te prometo, meu amor! — Eduarda falou e que promessas não faria naquele estado?
Lorena fez questão de tornar a saída da ruiva de seu aconchegante ninho de amor uma completa tortura, principalmente depois de deitar por cima dela, com beijos famintos, cheirinhos perigosos e cheirinho nos olhos. Eduarda partiu a contragosto e como Lorena a conhecia bem até demais, decidiu que colocaria seu plano em ação.
XXX
Assim que amanheceu, Lorena decidiu tomar as providências cabíveis para ajudar sua mulher no trabalho.
— Alô? Cacura velha? — Lorena disparou, sem nem dar bom dia.
— Fala, bruxa memé! — Paulinho respondeu do outro lado da linha, no mesmo nível de afeto.
— Preciso da sua ajuda para uma coisa importante!
— Problema único e exclusivamente seu… Late aí que eu tô ouvindo! — O aposentado provocou, gargalhando aos berros do outro lado.
— Latir? Paulinho, você só tá tendo a audácia e a capacidade de falar um negócio desse pra mim porque tá a quilômetros de distância e pelo telefone! Se tivesse aqui do meu lado, eu queria ver se tu tinha peito! — Lorena falou indignada.
— Você se dói muito com as coisas, por isso prefiro a capetinha ruiva, mas anda, manda as ordens! — Paulinho falou mudando o tom.
— A sua amiga está trabalhando muito, só chega em casa cansada e estressada-
— Engraçado você só comentar isso agora… Vai te chocar, mas esse é o normal dela!
— Eu sei, seu estrupício! Mas tá demais e antes, ela tinha você na retaguarda. Agora, ela tá abandonada às traças e ao Macedo, que aparentemente tem planos ocultos de tentar tirar todo e qualquer resquício de paz dela!
— Ainda bem que você sabe!
— Mas falando sério, agora… Você conhece nossa ruiva e sabe que ela é viciada em trabalhar, que vai tentar dar conta de tudo sozinha e que se der, vai carregar tudo nas costas…
— Eu entendi… já sei o que vou fazer, pode ficar tranquila, Lore!
— Paulinho?
— Oi?
— Obrigada! Te amo, hein!
— É, eu também te amo, sua chata! Mas ó, ao invés de ficar só no agradecimento verbal, você bem que podia me dar de presente aquele vinho caro qu-
TU-TU-TU-TU…
Lorena desligou na cara dele sem nenhuma cerimônia e sorriu vitoriosa.
XXX
Duas batidas secas na porta fizeram Eduarda se organizar melhor na cadeira, a ruiva estava tão compenetrada na tela do computador devorando o terceiro inquérito da manhã, que já estava ficando praticamente vesga de cansaço.
— Macedo, você só me entra aqui se for com as coisas que eu te pedi, caso contrário-
— Eu já fui melhor recebido na casa de gente que fui prender, hein! — Paulinho falou chutando a porta de leve para entrar e fechando com o pé, com a maior cara de pau do mundo.
— Paulinho? — Os olhos da ruiva se arregalaram — O que é que você tá fazendo aqui ess-
— Trouxe café, pão de queijo e duas tapiocas. Come e depois a gente conversa. — Paulinho falou deixando as sacolas em cima da mesa dela, puxou a cadeira de visitante com a folga de quem trabalhou a vida naquele mesmo birô e sentando, como se ainda mandasse no pedaço.
Eduarda pegou o copo grande de café, despejou metade na sua caneca surrada com “Lorena” escrito e entregou o restante ao velho parceiro, que sorriu largo, num gesto automático de gratidão. Quantas e quantas madrugadas os dois não tinham dividido exatamente daquele jeito?
A ruiva, então, se virou para sua bolsa, para pegar um item essencial.
— Agora, ó... pega esse biscoito aqui — Eduarda falou, orgulhosa, estendendo o pacote para o amigo — Foi a Lorena quem colocou com todo o amor do mundo na minha lancheira hoje cedo. Você só precisa chuchar ele no café quente e-
— Peraí, peraí... rebobina.
— O que? — Eduarda perguntou parando a mão no ar.
— A Lorena colocou esse biscoito onde? — Paulinho perguntou tentando conter uma gargalhada.
— Na m-minha lancheira... — A ruiva falou com a voz afinando e as bochechas esquentando de vergonha, enquanto Paulinho começava a gargalhar alto. Ninguém leva a sério quando eu falo! Eu não tenho culpa nenhuma se a minha mulher é uma esposa maravilhosa e gosta de me mimar com lancheiras deliciosas! — Eu não tenho culpa se a Gerlu precisa botar a sua comida num comedouro!
Paulinho foi emudecendo, perdendo o ar, ficando todo vermelho e curvando o tronco para frente, rindo sem fôlego.
O homem riu tanto que engasgou com a saliva.
— E eu espero mesmo é que você morra entalado, agora! — Eduarda falou e segundo depois, levantou, enchendo um copo descartável de água para o amigo.
Paulinho bebeu água e conseguiu voltar a respirar normal, enxugando os cantos dos olhos.
— Lancheira é foda… — ele falou recobrando o fôlego — Você é patética, Juquinha!
O barulho da porta batendo de rompante contra a parede fez Eduarda bufar, fechando os olhos por um segundo em busca de uma paz que parecia extinta na presença daquele elemento…
— Doutora… — Macedo entrou afobado.
— Estamos na delegacia, não precisa arrombar… Ele não sabe bater, né? — Paulinho falou.
— Só no meu psicológico. — Eduarda respondeu ao amigo, que riu — Oi, Macedo.
— Chegou um- — Macedo falou e o telefone da sala tocou no mesmo instante.
Num movimento habilidoso, Paulinho se aprumou na cadeira, já com a mão no aparelho e puxou o gancho, enrolando o fio do aparelho no dedo indicador com maestria.
— Gabinete da Delegada Eduarda Fragoso, em que posso ajudar? — Ele falou brincando com o fio do telefone fixo.
Eduarda viu o momento exato em que Macedo ficou espantado com a desenvoltura do homem e a ruiva sentiu como se alguém estivesse colocando o dedo em sua ferida aberta. O Paulinho é muito foda! Como é que eu fico trabalhando com o Patrick Estrela, agora?
— Você está trabalhando como secretária da minha mulher agora?
— Aff, toma, é só a chata da sua esposa! — Paulinho falou, passando o telefone para a ruiva, que sorriu largo.
— Chato é você! — A ruiva falou enquanto segurava o telefone — Oi, meu amor! — Eduarda falou mole, virando de costas para os dois homens na sala, encostando a bunda no birô.
— Oi, minha vida! Você tá bem? Chegou alguma coisa aí para você?
— Tô com tanta saudade de você que isso já tá me causando dor física, então não tô nada bem! — A ruiva falou com uma voz manhosa, arrancando uma risadinha gostosa de Lorena do outro lado — E sobre chegar alguma coisa... além do Paulinho aqui enchendo meu saco, nada. Por quê, amor?
— Ué… P-pensei que já tinham entregado, recebi uma mensagem de que já tinha sido entregue…
— O que, amor?
— Comprei flores e chocolates para alegrar o dia da minha esposa com uma surpresa, mas aparentemente falhei… — Lorena falou meio desapontada e Eduarda já estava balançando o rabinho.
Comprou flores e chocolates pra mim! Ai, ai, ai, como eu amo essa mulher meu Deus do céu!
— Mas só essa ligação, ouvir sua voz já foram um presente lindo, meu amor! — Eduarda falou sorrindo cafajeste e tanto Macedo quanto Paulinho reviraram os olhos atrás dela.
— Você é um caso sério! Te amo taaaanto, Duda! Mas preciso saber do presente!
— Macedo, chegou alguma coisa na portaria pra mim? — Eduarda perguntou e encarou o homem, como se ele fosse um inseto insignificante. — A Lorena acabou de me falar que mandou flores e chocolates…
— C-chegou, t-tá lá na portaria-
— E por que diabos não está aqui? — Paulinho tomou a frente.
— E-eu achei que pudesse ser alguma coisa p-perigosa-
— UM BUQUÊ DE FLORES, QUE A SENHORA LORENA FRAGOSO MANDOU? — Paulinho berrou.
— Me, m-me, me desculpe, doutora…
— Se ela quisesse ouvir esse “mi-mi-mi” todo, comprava um gato gago! — Paulinho falou alto.
— Duda, meu amor... isso no fundo é o Paulinho berrando na delegacia? — Lorena perguntou, rindo da farofa.
— Para a sua informação, nem tinha nada disso escrito no bilhete, só “L.F.” — Macedo falou sem nem se dar conta de que era um boboca.
— AH SIM, COM TODA CERTEZA ISSO É A SIGLA DO COMANDO VERMELHO! — Paulinho debochou.
— Meu amor, vou precisar desligar um minutinho aqui pra tentar acalmar os ânimos e já ligo de volta, tá? Meu amor lindo! — Eduarda falou no tom mais amoroso que conseguiu — Te amo demais!
— Bom trabalho, amor, me liga mesmo depois!
— Meninos… — Eduarda falou assim que repousou o telefone no gancho, mas nem sequer foi ouvida, já que as vozes estavam alteradíssimas.
Meu Deus, olha o Paulinho perdendo a paciência com o Macedo em dois minutos… Eu deveria intervir logo, né? Mas eu também deveria trabalhar menos…
— Ô chupetinha, enquanto você tava mijando nas calças, eu já era policial, rapá! — Paulinho falou e Eduarda gargalhou e aquilo infelizmente atraiu a atenção dos dois homens. HAHAHAHAHAHAAA, O MACEDO PERDEU A LINHA COM O APELIDO! HOJE EU VOU RIR PRA ALGUÉM CHORAR!
— Meninos… — A ruiva pigarreou — Vamos manter a compostura! — Ela falou no tom mais sério que conseguiu, que não foi muito, pois queria se cascar de rir das carrancas dos dois.
— Macedo, por favor, vá buscar o presente que a minha esposa mandou e pegue a pasta daquele caso de ontem, o Detetive Reitz vai me ajudar! — A ruiva falou e viu a surpresa estampada no rosto de ambos: Macedo revoltado por ter sido rebaixado a menino de recado e Paulinho abrindo um sorriso vitorioso por estar oficialmente de volta à ativa do lado da sua parceira.
XXX
Eduarda: LORENA
Eduarda: 🥵🥵🥵🥵🥵
Eduarda: Meu amor, pelo amor de Deus, você vai me matar e eu não estou nem brincando!
Lorena: Meu amor, o que foi?
Eduarda: VOCÊ É MALUCA?!
Eduarda: E eu nasci para bater palma pra maluca!
Eduarda: 🤤🤤🤤🤤🤤🤤🤤
Eduarda: Peguei as flores, ofereci um chocolate ao Macedo e ao Paulinho (que inclusive estão em guerra aqui)
Lorena: Nossa, amor… Triste pelos meninos estarem comendo sua paciência!
Eduarda: Fiquei super emocionada com a cartinha que você escreveu…
Eduarda: Você é muito o amor da minha vida inteira!
Eduarda: Ai estranhei o outro pacotinho, quando abri…
Eduarda: A CALCINHA COM O BILHETE “ESTAREI USANDO UMA IGUAL A ESSA MAIS TARDE”
Eduarda: MEU AMOR?????????
Lorena: 😇😇😇
Lorena: Amor e você não leu o resto do bilhete?
Eduarda: TINHA MAIS????????
Eduarda: FIQUEI TÃO NERFOSA QUE JOGUEI TUDO NA BOLSA
Lorena: O resto era “estarei torcendo para minha esposa linda ruiva amor da minha vida vir dormir em casa e tirar” ✊
Lorena: Preciso te dar motivos pra voltar pra casa, aparentemente, né…
Eduarda: Precisa me dar, ponto final!
Eduarda: Pois saiba, que hoje, quando eu estiver saindo daqui, vou avisar!
Eduarda: Quero você tomada banho e vestida com o presente!
Lorena: Ui, a polícia vai bater aqui em casa, é?
Lorena: 😱
Lorena: Se for, eu vou estar esperando bem rebelde e com vários crimes cometidos
Lorena: Bem malvada 😈
Eduarda: Se você quiser, a polícia pode até bater em você!
Lorena: PROMETA!
Lorena: 🎆🎉🎆🎉🎆🎉
Eduarda: Com carinho, claro! Porque tapa de amor, não dói!
Lorena: Por mim, pode arrancar pedaço!
Eduarda: Eita
Eduarda: Não, meu amor, assim não 🥺🥺
Eduarda: Jamais machucaria você, você é meu mundo todo!
Lorena: Foi brincando, amor!
Eduarda: O máximo que eu quero é arrancar uma casquinha 🤤
Lorena: É o que eu quero também!
— JUQUINHA! — Paulinho berrou — Olha a cara de atabacada dela, para de ficar flertando com a Lorena e vamos trabalhar, porra! — Paulinho falou.
XXX
— É isso, vamos bater perna no centro! — Eduarda falou já pegando a chave da viatura descaracterizada e passando pela porta sem nem olhar para trás.
Os dois patetas vão ter que seguir a abelha rainha!
— M-mas d-doutora… A gente- — Macedo começou a protestar.
A ruiva atravessou a delegacia com os dois marmanjos atrás e do nada:
— Cada mendigo com o seu papelão, por isso, eu vou na frente! — Paulinho falou sorridente e Eduarda pôde assistir Macedo entrar em falência múltipla dos neurônios.
Eduarda não tinha muitos motivos para sair da delegacia e ir “em busca de pistas” no centro, só tinham uma pista e muito fraca, mas ela estava inspirada demais pela presença de Paulinho ali e ficou revigorada depois das mensagens que trocou com a esposa, nada melhor do que gastar energia!
Entraram dentro da viatura e se não fosse a presença física de Macedo e a cara de bunda que ele estava fazendo, era como voltar aos velhos tempos! Ela fez questão de dobrar a primeira à esquerda e viu o jovem querer infartar no banco de trás, o trânsito era CAÓTICO… Mas aquele era o caminho que ela sempre fazia com Paulinho, pra passarem mais tempo zanzando pela rua do que trabalhando na delegacia.
— S-se vocês quiserem, eu posso conectar o meu Spotify Premium e a gente não vai ouvir nenhum anúncio! — Macedo ofereceu.
— Vamos optar pela rádio, obrigado! — Paulinho falou sem paciência e Eduarda aproveitou o trânsito parado para encarar o amigo e um saudosismo tomou conta.
— Sorridente, hein delegada! — Paulinho falou sorrindo também.
— Tô feliz! — A ruiva falou no mesmo instante e o sorriso só aumentou ao ouvirem os primeiros acordes da música que estava tocando no rádio, os dois se olharam no mesmo instante.
— Doutora, acho melhor a gente-
— Quando eu digo que deixei de te amar, é porque eu te amo! Quando eu digo que não quero mais voooocê, é porque eu te queeeeroooo! — Eduarda e Paulinho berravam dentro do carro num coro sofrido, o tom existindo e eles completamente por fora.
— C-como eu ia d-dizen-
Paulinho simplesmente botou o som da viatura no máximo.
Eduarda pode ver pelo espelho Macedo se sentando perto da porta, acanhado e vez ou outra cobrindo as orelhas com as mãos.
E ela e o amigo seguiram berrando até a música acabar, de olhos fechados, a plenos pulmões e com os dedinhos pra cima.
— E NESSA LOUCURA, DE DIZER QUE NÃO TE QUERO, VOU NEGANDO AS APARÊNCIAS, DISFARÇANDO AS EVIDÊNCIAAAAAAS, MAS PRA QUE VIVER FINGINDO? SE EU NÃO POSSO ENGANAAAR MEU CORAÇÃAAAAAOOO, EU SEI QUE TE AMOOOOO — Os dois filhos de Matusalém berravam no carro e Macedo seguia completamente incrédulo.
XXX
— Pega o exemplo, Guilherme! — Uma mulher aleatória falou na rua ao lado de um rapaz e os três policiais conseguiram ouvir — O neto passeando com os avós!
— Ouviu, Macedo? — Paulinho falou dando duas batidinhas nos ombros do rapaz, que ficou encabulado.
Só se eu tivesse cometido um crime muito grande na vida passada pro meu neto vir esse tonho, imagina ser avó da praga do Egito que Moisés não conseguiu soltar?
Claramente, não deu outra: em poucos minutos, os três estavam tomando um café numa barraquinha aleatória na rua e Macedo se aventurou com Paulinho a comer a comida dali, que parecia ter vindo diretamente de Mumbai.
— Como eu tentei avisar no carro, nós não temos nem uma pista boa para estamos aqui. — Macedo falou querendo ser a voz da razão.
— Engraçado, tô velho, mas não tenho problema de memória… Não lembro de ter perguntado nada. — Paulinho soltou, encostando o dedo indicador de forma figurativa no queixo com a cara mais cínica do mundo e Eduarda quase cuspiu o café.
— Crianças, respirem e-
— LADRÃO! ELE LEVOU MEU CELULAR! — Alguém berrou no fundo do corredor de camelôs.
Eduarda nem entendeu direito de onde o grito veio, mas seu corpo já estava correndo. E como corria! Era como uma Ferrari! Vermelha e tudo!
— DUDA, PORRA… PERAÍ — Paulinho berrou enquanto tentava engolir um pedaço do pastel.
— DOUTORA — Macedo gritou alguns passos à frente de Paulinho, mas logo ficando para trás.
A cabeça de Eduarda era somente um vazio de pensamentos, tudo e todas as sua energias estavam focadas na criatura a alguns passos à sua frente e nos obstáculos da feira de rua, que ela seguia saltando e desviando tal qual Subway Surf!
Você não vai escapar… NÃO VAI!
O homem deveria ter uns vinte e poucos anos, era esguio e ágil. A ruiva tinha certeza de que já estavam no terceiro quarteirão, quando ele começou a diminuir a velocidade, o povo em volta olhava curioso.
A ruiva viu o momento em que ele começou a procurar alguma saída, mas Eduarda seguia implacável, correndo como se sua vida dependesse disso e ao mesmo tempo, absolutamente confortável. Dia sim, dia não, são cinco quilômetros de manhã ou a noite e depois um dominó na pracinha!
Iiihhh, ele olhou pra trás… Não vai aguentar muito mais!
Alguns passos a frente:
— DONA... E-EU... EU DEVOLVO! PELA AMOR DE DEUS, PARA DE CORRER! — Ele berrou, completamente desesperado.
— Só vou parar de correr quando você parar! — Eduarda falou firme.
Mais alguns passos e o homem jogou alguma coisa no chão. A ruiva nem se deu ao trabalho de parar para ver o que era, seguiu e apertou o passo.
Menos de um minuto depois, avançou em cima do rapaz e como numa cena de filme, os dois voaram para o chão. A ruiva usou todo seu treinamento para cair da melhor forma possível e só fez rolar, em segundos, estava de pé novamente, avançando em cima do homem.
— PAREI, PAREI! PELO AMOR DE DEUS, EU TÔ PARADO! — O homem sufocava, a testa colada no paralelepípedo, derretendo em suor e com o peito subindo e descendo freneticamente.
— Polícia civil de São Paulo, o senhor está detido! — A ruiva bradou vitoriosa, sacando as algemas do cinto e prendendo os pulsos do elemento.
Fez-se um grande círculo ao redor da cena, com Eduarda ainda agarrada ao homem, que nessas alturas estava imobilizado e grunhindo no chão, câmeras apontavam para todo canto.
— Dona… Me solta… — O homem pediu baixo — E-eu devolvo o celular…
— Nada de soltar ninguém! — A ruiva falou.
— Mas é só a porcaria de um celular! — O homem reclamou, choramingando. — E o modelo nem é tão bom assim!
Agora fudeu mesmo, o cara rouba e ainda quer que seja do modelo que ele quer!
Naquele instante, a ruiva se lembrou de um de seus filmes favoritos, As Branquelas e pôde usar a célebre frase:
— Não é só um celular, é uma Prada! — Ela falou sorrindo e o homem permaneceu sem entender nada.
Alguns instantes mais tarde, Eduarda avistou de longe Macedo surgindo no meio da multidão, empunhando o distintivo para abrir caminho, com o rosto vermelho feito um pimentão e completamente esbaforido. Logo atrás, vinha Paulinho, arrastando os pés e parecendo que estava à beira de uma parada cardiorrespiratória.
Se ele morrer comigo, a Gerlu não vai ficar nada feliz…
— Detetive Rolha de Poço e Detetive Cachorro Morto, que adorável surpresa! — A ruiva falou encarando Paulinho chegando ofegante e Macedo com dois palmos de língua pra fora.
— Eduarda… porra… — Paulinho falou, a voz quase não saindo, com as duas mãos apoiadas nos joelhos enquanto tentava não desmaiar — Você… você quer… me matar, caralho!
— Doutora, acabei de acionar a viatura-
— P-pois… você está… atrasado, Macedo! — Paulinho falou ofegante, erguendo seu próprio celular e Eduarda riu quando Macedo bufou.
XXX
Nenhum dos três soube muito bem a razão, mas havia uma equipe de filmagens pela feira, que registrou o momento inteiro e alguns instantes depois, jornalista e cinegrafista apareceram querendo uma coletiva improvisada. Claro que Eduarda assumiu seu modo Delegada Fragoso no mesmo segundo ajeitou a postura, ajustou o distintivo no peito, cruzou os braços com imponência e assumiu o enquadramento perfeito da câmera, com ela soberana na frente e Paulinho e Macedo compondo a escolta de fundo.
Do outro lado da cidade, o movimento era outro.
Lorena estava tranquila na cafeteria perto do prédio de Humanas da Universidade, esperando pacientemente seu lanche enquanto repassava mentalmente a aula e corrigia alguns pontos do slide no Ipad. Em um momento de distração, olhou para a televisão suspensa no canto do estabelecimento e por pouco não caiu para trás com quem viu na tela.
— Eita porra… Também, que azar danado, o cara vai roubar uma senhorinha e tem uma delegada na feira! — Um rapaz que estava no meio de um grupo de estudantes comentou, rindo.
— E então! Vê mesmo, vê que carreira da fébe o caba deu… — Um outro jovem respondeu, ajeitando os óculos — E ela é bonitona, viu! Puta merda! — O homem completou, no exato segundo em que o enquadramento deu um close-up na cara de Eduarda falando com firmeza.
Lorena travou. A ruiva estava uma coisa de louco naquela tela: os fios ruivos levemente bagunçados pelo vento, o olhar intimidador de autoridade e aquela postura de quem manda em tudo e em todos. Minha mulher é uma deusa... Meu Deus do Céu, que espetáculo de mulher!, Lorena pensou, o peito enchendo de orgulho e uma onda instantânea de tesão e admiração derretendo sua espinha.
Mas o momento babação durou três segundos!
— Rapaz, uma mulher dessas e uma cesta básica, eu passava o mês todinho em casa! — Uma moça falou sorrindo e saboreando Eduarda pela televisão.
— E na hora que ela deu o bote pra algemar o cara, que ela praticamente voou em cima dele! — Uma outra menina falou, com uma expressão absolutamente diabólica no rosto. — Queria que ela voasse do mesmo jeito em cima de mim!
Lorena sentiu o sangue esquentar e respirou fundo. É só respirar, puxa o ar pelo nariz e solta pela boca… Você é professora, é casada com a ruiva que todos querem… TODOS! ARGH!
— Nossa, eu ia amar ser a novinha que ela chega em casa procurando no quarto depois de um dia estressante desses! — A terceira menina soltou, suspirando.
— PELO AMOR DE DEUS, VOCÊS NÃO RESPEITAM NINGUÉM? ELA TEM FAMÍLIA!— Lorena berrou num ímpeto descontrolado de ciúmes, levantando da cadeira e encarando o grupo.
Quando os estudantes se viraram chocados e curiosos para olhar quem era a maluca surtando, a única reação que o cérebro de Lorena conseguiu formular foi colar o celular na orelha e fingir que estava num esporro telefônico seríssimo com alguém:
— ISSO MESMO QUE VOCÊ OUVIU, CLÁUDIA! NINGUÉM RESPEITA MAIS NADA NESTE PAÍS! — A morena disfarçou com a cara mais lavada do mundo, virando de costas e andando rápido até o balcão pra pegar seu café, com as bochechas queimando.
Assim que colocaram o homem na viatura e conseguiram devolver o celular à mulher que tinha sido furtada, Eduarda chamou os dois parceiros para almoçar e deixou Paulinho ir dirigindo, o que irritou ainda mais Macedo.
— Eu vou só no banheiro, rapidinho! — Macedo falou e assim que ele se afastou e Paulinho também, Eduarda foi para sua prestação de contas.
Lorena: Meu amor, que danado foi isso que aconteceu no centro hoje?
Lorena: Você passou na televisão!
Lorena: TÔ MORRENDO DE ÓDIO AQUI, QUE POVO SEM NOÇÃO DO CARALHO 👿
Lorena: Ninguém respeita mais ninguém mesmo, bando de sem noção!
Lorena: Povo babando em você NA MINHA FRENTE!
Lorena: DIANTE DOS MEUS OLHOS!
Lorena: Fiquei morrendo de preocupação!
Lorena: Apareceram algumas imagens das câmeras de segurança e você se jogou no cara!
Lorena: ▶️ vídeo
Lorena: ▶️ vídeo
Lorena: Quando puder, aparece aqui, por favor 🙏🙏🙏
Eduarda: Meu amor, que lindo dia primaveril 😍
Eduara: Eca, baba de desconhecidos
Eduarda: Corrija e diga “os olhos mais lindos do mundo”
Lorena: Amor, que aflição! Tanto que eu peço pra você ter cuidado e do nada…
Lorena: Você voando no cara 🤡
Eduarda: Me perdoa, amor, você me perdoa?
Eduarda: Foi do nada, a gente saiu da delegacia pra seguir uma pista
Eduarda: Só ouvi alguém gritando sobre o furto e quando dei por mim, tava correndo
Lorena: Nossa, eu vi no vídeo
Lorena: Você correndo, se jogando em cima dele...
Lorena: E na hora que você imobiliza ele no chão, com o distintivo balançando no peito…
Lorena: 🔥🤤🔥🤤🔥🤤🔥🤤
Lorena: Realmente é como dizem: distintivo na mão, calcinha no chão!
Lorena: Fui a prova viva de que não dá pra morrer de tanto tesão!
Eduarda: Meu amor, PARA de falar essas coisas quando eu tô longe 💔
Eduarda: Você me complica muito!
Eduarda: Os meninos voltaram do banheiro, acho que já vamos
Lorena: Eu te amo! Cuidado!
Lorena: E nada de se jogar em canto nenhum além da nossa cama, por hoje, já deu!
Lorena: 😤😤😤😤
Eduarda: “Por hoje, já deu”
Eduarda: Sendo que eu vou dar quando chegar em casa!
Eduarda: ☺️🥳
Eduarda: TEAMO!
— Às vezes eu fico assim, uns dez minutos calado esperando ela terminar de falar com a esposa! — Macedo falou apontando com o queixo para Eduarda.
— Fiquei a vida toda esperando! — Paulinho falou e os dois riram — Piora quando a Eduarda aparece na televisão e a Lorena assiste. Primeiro ela liga morrendo de preocupação e a Eduarda fica com essa cara de besta apaixonada, depois vai afunilando ao ponto de as duas estarem falando sobre criarem um CPF novo e por aí vai… — Ele disse por fim e tudo o que a ruiva conseguiu fazer foi mostrar o dedo do meio, enquanto tentava não sorrir boba com tantas verdades!
O clima na volta para a delegacia estava mais ameno… Exceto pelo trânsito, que estressava MUITO Paulinho, mas naquele dia, aquilo significava música para os ouvidos da ruiva.
— Meu Deus, que engarrafamento dos infernos! — Macedo falou cansado de tanto esperar.
— Eu vou acabar me atrasando pro jantar! — Paulinho falou coçando a barba.
— Macedo, quer apostar… — Eduarda falou encarando o relógio no pulso — Que daqui quinze minutos, a Gerluce vai ligar pra ele?
— E ele anda com coleira, é? — Macedo alfinetou e só a olhada que Paulinho deu para o policial mais jovem foi capaz de arrancar uma gargalhada sincera da ruiva.
— Você ainda não sabe o que é ter dona!
— Não tem sensação melhor, Macedo! — Eduarda falou sorrindo rendida ao lembrar da esposa.
Pontualmente, às seis horas, o telefone de Paulinho tocou e ele bufou, passando a mão nos cabelos antes de atender. Eduarda ria tanto que sentia a barriga doendo.
— Oi, minha rainha! — Paulinho falou e Eduarda sorriu, como pode essas coisas não mudam nunca? — S-se eu p-perdi o caminho de c-casa? N-não, meu amor… Passei o dia com a Juquinha na delegacia, hoje, s-só isso… Você viu? Ela deve ter incorporado alguma coisa pra conseguir correr atrás dele daquele jeito…
— Deve ser horrível ter mais de sessenta anos e continuar invejoso! — Eduarda falou e o amigo riu olhando de lado.
— A gente não tem hora pra voltar, estamos presos na marginal… Quando eu voltar pra delegacia, te falo e posso até passar pra te pegar! Aaah, a Jojo vai te levar? Tudo bem… Também te amo! Se cuida!
— Eu já tô ficando com fome de novo! — Macedo falou.
— A gente poderia ir no Tô Aki No Trabalho! — Eduarda falou do nada, com uma empolgação juvenil que há dias não se via naquele rosto cansado.
Paulinho virou o pescoço de sopetão, olhando para a amiga com os olhos arregalados de puro espanto. Desde o falecimento do lendário Delegado Jairo, nenhum dos dois tinha coragem de colocar os pés no antigo ponto de encontro da turma. A ruiva achava melhor nem passar na porta, já que começava a chorar feito uma criança antes mesmo de estacionar e Paulinho acompanhava chorando que uivava no banco do carona.
— E o final do expediente? Eu tenho que ir pra cas- — Macedo falou e Paulinho nunca sentiu tanta vontade de dar uma cacetada na cabeça de alguém.
— Pois iremos TODOS! — Paulinho falou sorridente e viu o brilho nos olhos da amiga — Vou ligar pra Gerluce avisando que não vou-
— VAMOS LEVAR NOSSAS PRIMEIRAS-DAMAS JUNTO! — Eduarda interrompeu num sobressalto de pura animação, dando um tapa no volante.
— Juca…
— Paulinho, vai ser lindo! Finalmente, as duas conhecendo o lugar que a gente passava horas rindo, a Lorena vai topar, com certeza!
— Naquele lugar? — Paulinho perguntou incrédulo e ressabiado — Acho bom perguntar se a antitetânica dela está em dia, você sabe o estado das cadeiras lá…
— Larga mão de ser besta! — Eduarda falou animada — Quer ver só? Vou ligar!
A ruiva aproveitou que o celular estava conectado no carro, era bem mais fácil e seguro atender chamadas só apertando no volante.
— Meu amor-
— Boa noite, delegada! — Lorena disparou do outro lado da linha, com aquele tom aveludado, provocante e extremamente devasso — Você já está chegando? Já posso me preparar? Vai entrar arrombando-
— N-não, m-meu amor, e-esper- — A ruiva tentou intervir, mas sem sucesso.
— Acha melhor eu já ficar sem a calcinha te esperando ou prefere com, pra você tirar com os dentes, óbvio! Tô morrendo de saudade e de vontade de você- — Lorena falou num tom extremamente devasso e putífero, se aquilo tivesse sido dito enquanto Eduarda estivesse sozinha ou no quarto com a esposa, era papo de morrer de tesão, mas ali…
— PELO AMOR DE DEUS, QUE VISÃO DO INFERNO! — Paulinho berrou e simulou um barulho de vômito e Macedo tapou os ouvidos na mesma hora.
— Isso... isso foi o Paulinho? — Lorena perguntou do outro lado, saíndo de tesão para consternação.
— A-amor, n-nós estamos no carro ainda e está no viva voz. — Eduarda falou num tom completamente envergonhado e de desculpas.
— MEU DEUS! Meu amor-
— Tá tudo bem, minha vida! Já passou, fica tranquila! — A ruiva tentou amenizar o desastre.
— PASSOU? EU VOU TER PESADELO, PORRA!
— LALALALA! — Eduarda falou alto tentando camuflar a voz do amigo — Mas meu bem, sei que tínhamos um c-combinado especial para hoje a n-noite… — A ruiva falou apressada
— Estava aqui no carro com o Paulinho e com o Macedo…
— Meu Deus... o Macedo também ouviu tudo? O MACEDO? — Lorena falou e quis morrer, virar cinzas e ser arremessada no mar.
— Opa.. B-boa noite, dona Lorena... — Macedo murmurou, a voz falhando de puro constrangimento, sem conseguir olhar para a cara de Eduarda.
— Amor, foco aqui, por favor! — Eduarda falou gentil, tentando aniquilar o desconforto da esposa — Lembra que vez ou outra, depois dos plantões eu sempre ia num bar com o delegado e com o Paulinho? — A ruiva perguntou e todos ouviram Lorena bufar do outro lado.
— “Vez ou outra”, toda semana eu tinha que rezar para que o delegado tivesse uma dor de barriga e decidisse ir direto pra casa depois do expediente! — Lorena falou com resquícios de brabeza.
— Meu Deus do céu, então o quebrante e a fraqueza que me pegavam de surpresa de vez em quando eram praga que você tava jogando? — Paulinho perguntou ultrajado.
— Enfim, minha paixão… — Eduarda falou, tomando as rédeas da chamada de volta — Se você quiser ir lá hoje pra conhecer ou se você achar que eu quero ir lá com os meninos… a gente podia ir todo mundo hoje! Eu passo aí pra te pegar, meu amor! — A ruiva falou sorrindo e viu o olhar de desaprovação de Paulinho.
— Meu amor, claro que eu quero ir conhecer o prostíbul- ambiente familiar que vocês frequentavam! — Lorena falou com resquícios de raiva, a morena era difícil de deixar ir… principalmente depois que ouviu uma história da amante do delegado sobre o lugar…
— Vamos tentar convencer a Gerlu também! — Eduarda falou animada, vai ser quase como nos velhos tempos! — Amor, aproveita e come alguma coisinha ou prepara um lanchinho pra viagem… As opções veganas lá, são… limitadas.
— Tudo bem, amor! Você liga avisando quando estiver vindo?
— Vou pedir pra Joélly ir buscar a Lorena com a Gerluce! — Paulinho falou e Eduarda assentiu.
— Ótimo, assim já posso ir conversando com a minha amiga!
— Beijo, meu amor lindo! Te amo demais, até jaja! — A ruiva falou sorrindo largo.
Assim que a chamada encerrou, a ruiva se virou no banco do carro, movimento suave e semelhante aos realizados por capetas em filmes de exorcismo.
— Macedo... — Eduarda falou com a voz mais sombria que conseguiu — Se você OUSAR abrir essa sua boca de caçapa pra contar pra um ser humano qualquer palavra do que a minha mulher disse aqui dentro... Eu mato você pessoalmente. Com as minhas próprias mãos. Entendeu?
— C-claro, d-doutora… M-minha boca é um túmulo! — Ele falou, visivelmente nervoso.
— Ótimo, se não, quem vai pro túmulo é você! — A ruiva falou com a cara fechada, mas durou 2 segundos. Adoro perturbar a mente fraca desse tonho, olha os olhos arregalados, juro…
— Duda, lembra de passar no banco pra poder sacar dinheiro!
— Sim! Puts, tinha esquecido que no Jurassic Bar não aceita pix! — A ruiva falou.
XXX
— É aqui? — Gerluce perguntou com a testa franzida e uma leve descrença.
O bar ficava localizado numa região bem menos habitada, cercado por algumas oficinas e, inacreditavelmente, tinha uma igreja na frente a “Assembléia de Deus do Pastor Raposo - Fé e Harmonia.”
— Bom, de acordo com o endereço que o Paulinho me enviou, sim… — Joélly falou divertida e preocupada ao mesmo tempo — “Tô aki no trabalho”, que nome mais criativo! Ali, do lado de fora, já dava para ouvir uma música, que Lorena nunca tinha sequer ouvido tocando num volume considerável, a ponto de fazer a calçada tremer.
— Tô ligando pra Duda e ela não está atendendo… Vou tentar o Macedo! — Lorena falou incrédula e completamente em choque.
— Criativo? — Gerluce perguntou indignada, a veia do pescoço saltando na hora — Eu quase matei o Paulinho uma vez, quando a Eduarda me falou que isso era o nome do bar!
— O ódio fumegava no olhar da Gracinha — “Tô aqui no trabalho com o delegado”, OS DOIS AQUI, QUE ÓDIO!
— Macedo? O que? Fala mais alto! — Lorena pediu sem entender nada, a cacofonia enorme do lado de dentro — Olha o WhatsApp! Olha o Whats! — A morena falou e enviou logo uma foto da frente do lugar.
— E aí? — Joélly perguntou de dentro do veículo — Se vocês quiserem, a gente pode voltar-
Do lado de fora, o bar se assemelhava muito com os lugares habitados por personagens em filmes de pós-fim de mundo ou presos em cativeiros clandestinos. Mal tinha iluminação, as paredes eram descascadas e desbotadas…
— O Macedo respondeu! É aqui mesmo… — Lorena falou tranquilizando a mais nova — Eu não sabia que eles vinham beber num chiqueiro!
Instantes depois, Macedo surgiu na porta com um sorriso amarelo, num estado bem menos exemplar do que o costumeiro, com alguns botões da camisa já abertos e manchas de suor na blusa.
— Boa noite, meninas! — Ele falou meio envergonhado encarando as duas mulheres que estavam de pé, do lado de fora do carro — Vocês duas p-podem entrar, a doutora e o Paulinho estão lá dentro esperando, é só seguir reto no corredor… — Ele falou apontando com o dedo — Vou só acompanhar a Joélly até a entrada da rodovia e já volto. — Ele falou balançando as chaves da viatura.
Lorena e Gerluce trocaram um olhar.
— Vamos? — Lorena perguntou divertida e Gerluce retribuiu o sorriso. As duas entraram lado a lado.
XXX
Se do lado de fora já era precário… Do lado de dentro…
O corredor de cimento queimado levava direto ao salão central, com as paredes pintadas em amarelo gema, onde algumas mesas e cadeiras de ferro ficavam, estavam ali desde o surgimento do ferro, feita pelos alquimistas e primeiros ferreiros da história do mundo e em algum momento, elas já tiveram cores, mas agora, eram um mix de tétano e manchas velhas de restos de tinta.
As lâmpadas amarelas davam um charme aconchegante e dois ventiladores de teto eram os responsáveis pelo resfriamento do ambiente, que misturado ao odor de suor, cerveja quente, fritura e coisa velha, transformaram o lugar numa potencial câmara de gás.
O local também contava com duas mesas de sinuca, mas só uma dava para jogar, a outra era somente uma mesa estilizada, contava com uma radiola de ficha, item raro e para arrematar na decoração: uma prateleira com mais de cinquenta garrafas de Pitú envelhecidas. O balcão, bom, na parte em que os cupins não tinham devorado toda a madeira, era levemente furadinho, com relevo e tudo. Era muito comum os copos caírem cheios.
Era um lugar de tanta tecnologia, que com toda certeza, os cientistas poderiam usar a cozinha como um laboratório, dependendo do dia, tinha até como ter os ratos voluntários para usarem nos experimentos.
A música era ainda mais alta:
Eu vou tirar você desse lugar, eu vou levar você pra ficar comigo e não me interessa o que os outros vão pensar… Tocava num volume considerável ali.
Alguns casais animados se espremiam num balé completamente envolvente.
— Isso é uma canção! — Alguém berrava.
— Demais! Poesia!
— Para com a conversa e manda logo a boa! — Eduarda falou alto, tentando vencer o barulho para ser ouvida.
— PADRE! — Paulinho berrou — CADÊ A MINHA TRIPINHA? TÁ DE ROSCA?
— Rosca do teu cu! — O homem berrou de dentro da pequena cozinha.
— Vai, Paulinho, para de enrolar e joga logo! — Eduarda berrou, ansiosa para acabar logo com aquela pataquada.
PÁ!
A ruiva virou com força o terno de pio em cima da pequena mesa de ferro, checando a resistência do ferro e fazendo ecoar um barulho que parecia um tiro.
— Jogar contra você não tem graça! — Paulinho falou arriando as peças na mesa, completamente desestimulado.
— Ferrugem é pressão! — Um senhor falou nitidamente impressionado com as habilidades da delegada.
Moveram as peças novamente, misturando as pedras e passaram bons minutos ocupados naquilo, mas o barulho externo foi crescendo, crescendo, crescendo…
— O QUE AS BELAS MENINAS QUISEREM COMER E BEBER, PODE BOTAR NA MINHA CONTA, PADRE! — Alguém berrou.
Uma salva de assobios estalados, risadinhas safadas e palminhas animadas ecoou pelo belíssimo lugar.
— Rapaz, as profissionais de hoje… Parabéns viu!
— Ô lá em casa!
— Que danad-
Eduarda começou a falar mas perdeu a fala e o queixo despencou.
— Sua vez, Juca... — Paulinho falou sem prestar atenção, encarando o rosto paralisado da amiga. Quando virou para ver o que diabos estava chocando a delegada, entendeu o alvoroço na hora:
— FIU-FIU! — Um bêbado no canto assobiou.
Eduarda abandonou completamente o jogo, levantou da cadeira e parecia aqueles bonecos de jogo que ficam enfeitiçados, completamente atordoada: não conseguia mais ouvir nada ao redor, também não enxergava nada, não queria andar em outra direção que não fosse ao encontro daquela mulher.
Lorena, que já estava completamente indignada com toda a atenção DE HOMENS, RATOS DA SOCIEDADE, finalmente encarou o par de olhos castanhos familiares e sorriu na mesma hora, esquecendo todo o entorno, gesto que fez Eduarda querer rasgar a própria roupa e se transformar numa loba ou num veadinho saltitante de alegria.
A ruiva assistiu de pé, incrédula, em choque e com a boca escancarada sua esposa desfilando por aquele lugar inóspito, como se estivesse na passarela do Victoria's Secrets, mas a ruiva sabia que só no céu era possível existir um anjo tão bonito. A delegada cuidou de passar a mão pelos fios ruivos, tentou ajeitar a postura, mas nada mudaria a cara de bocó apaixonada e enciumada que ela estava fazendo.
— Boa noite, delegada Eduarda Fragoso! — Lorena falou assim que se aproximou, com as covinhas estampadas, mas os braços na frente do corpo, ela tá tímida!
— Meu amor… Não… Não… Meu Deus do céu, não faz isso comigo… — A ruiva murmurava, passando as duas mãos pelos cabelos ruivos num tique nervoso.
— O que foi? — Lorena perguntou se aproximando ainda mais, de forma que agora, estava com as mãos na cintura da ruiva, completamente divertida com a reação da esposa.
A ruiva suspirou tentando camuflar um sorriso.
— Você… Meu Deus do céu, você tá linda demais! — Eduarda falou com os olhos fazendo uma varredura completa pela esposa.
Os cabelos lisos caíam com perfeição pelos ombros, os olhos verdes com uma maquiagem leve, a boca carnuda com um batom vermelho-sangue, a boca dela tá parecendo uma maçã do amor e eu tô doida pra morder… A morena trajava um vestido curto, um palmo acima do joelho, num tom prateado com alças finas, um salto alto, Eduarda lembrava perfeitamente do dia que viu a esposa usando pela primeira vez e lembrava também do decote nas costas.
Mulher profana, diabólica, razão da minha vida! A Lorena veio pra me matar hoje!
— Você gostou? — Lorena perguntou e deu uma leve rodadinha, mantendo contato visual pelo máximo de tempo possível.
Eduarda assistiu a cena toda como se fosse um cachorro esfomeado sentado na frente da máquina de galetos, se babando inteira.
— Amor… Eu amei! — Eduarda falou com um sorriso bobo e canibal nos lábios… — Você tá… uff… linda, exuberante, garbosa, charmosa, deusa… — A ruiva seguia falando e Lorena riu, logo se aproximando para deixar um beijo leve na bochecha da esposa.
— Garbosa? — Lorena perguntou divertida há centímetros da boca da esposa.
— Biquinho, biquinho! — A ruiva falou baixo fazendo um bico e Lorena depositou um beijinho ali.
— Eita, meu amor! — Lorena falou fingindo uma falsa inocência. Depois do inferno que passei hoje de manhã, todo mundo precisa saber que essa daqui tem mulher! Uma aliança não é o suficiente! — Esse batom é o que deixa marcado!
— Se você quiser, pode me marcar todinha, não lig-
— EDUARDA! — Paulinho berrou e a ruiva saiu do transe.
— O-oi — A ruiva falou e só então, se deu conta da confusão — O que é que tá acontecendo aqui? — Ela perguntou segurando a mão da esposa e a colocando para trás, virando um escudo humano vinte centímetros mais baixa que a outra, mas quem liga?
— Foi só um mal entendido… — Gerluce tratou de apaziguar, já empurrando Paulinho pelos ombros.
— MAL ENTENDIDO É O CACETE! ESTÃO ACHANDO QUE AS NOSSAS ESPOSAS SÃO GAROTAS DE PROGRAMA! — Paulinho falou ultrajado e o sangue de Eduarda ferveu.
— Tão o que? — a ruiva perguntou sentindo o sangue esquentar e a veia da testa pulsar, brava e com estatura física muito similar a de um Pinscher — POIS ESCUTEM AQUI, ESSAS DUAS BELAS MULHERES ESTÃO COMIGO E EU EXIJO RESPEITO! — A ruiva falou apontando pro próprio peito.
Lorena, Gerluce e Paulinho encararam a ruiva e Lorena gargalhou sozinha. Do jeito que ela falou, parece que somos um trisal de belas mulheres, hahay, esse é o Brasil que eu quero! Mentira, diga sim a monogamia! A morena militou em sua própria mente.
— Por isso não sobra nada pra gente na noite... Aquele cabelo de fogo ali tá logo com as duas de uma vez! — Um bêbado no balcão murmurou para o amigo.
— Meu amor, vamos manter a calma, está bem? — Lorena falou apertando gentilmente a mão da esposa.
A ruiva olhou em volta e viu pelo menos dez urubus de botequim encarando sua belíssima esposa e sentiu vontade de morrer e se rasgar na mesma hora. PAREM DE OLHAR, SEUS PORRAS! TIREM O OLHO! Poderia facilmente imitar a imagem do homem sentado na mesa do bar sofrendo, sentia vontade de se rasgar de ciúmes, arrancar os próprios olhos e comer os próprios punhos.
— E VOCÊ AÍ DA PONTA, SEU MARRECO! TÁ OLHANDO PRAS PERNAS DA MINHA MULHER POR QUÊ? TÁ PENSANDO QUE BALA NO PEITO É MEDALHA? — A ruiva berrou, dando um passo inflamado para a frente. Lorena rapidamente segurou a esposa pelo cós da calça, encarando com feição de bronca.
— EI, QUE ARRUAÇA DA PORRA É ESSA AQUI? — Um senhorzinho muito simpático surgiu BERRANDO da cozinha com um boné do MST na cabeça e um prato na mão.
— Padre, perdão… — A delegada começou — Nós já estávamos de saída, traga nossa conta, por fav-
— DE SAÍDA? POIS PODEM SENTAR! — O homem falou num tom autoritário — Onde já se viu! Quem incomodar meus convidados hoje, vai me apanhar! — O homem falou bravo, dando dois tapões na mesa de ferro, atitude que quase causou o fim da mesa.
Eduarda olhou para o velho homem assustada, assentiu rápido, pegou a bolsinha do ombro de Lorena e obedeceu. A ruiva tratou logo de fazer uma breve análise sobre qual cadeira estava num estado de vida útil menos pior e puxou para a esposa sentar. Mas para garantir, colocou a própria jaqueta de couro em cima da superfície.
— “Padre”? — Lorena perguntou espantada e curiosa ao mesmo tempo.
— É que ele ouve muitas confissões, amor… É dono desse império há mais de cinquenta anos! — A ruiva falou baixinho.
A cabeça da morena fez uma grande busca sobre o significado da palavra “império” e decidiu apenas aceitar as circunstâncias
— Cadê o cardápio? — Gerluce perguntou limpando a mão na barra do vestido e Paulinho riu jogando a cabeça para trás — É QR Code?
— É mais fácil ele trazer numa tábua, igual aos dez mandamentos! — Paulinho respondeu e Lorena gargalhou batendo palma — Pedi tripinha, sei que cê gosta, daqui a pouco chega! A ruiva seguia completamente fascinada com a esposa e não conseguia parar de encarar a morena com adoração.
— O que foi, meu amor? — Lorena perguntou se aproximando mais do ouvido da esposa e deixando um beijinho ali, no pescoço de Eduarda.
— Ah, meu amor… — Eduarda falou baixinho — Você tá tão linda, mas tem essa comitiva enorme de urubus te encarando… — A ruiva falou desolada, passando as mãos pelos fios ruivos — Tô dando tiro de olhar de todo tamanho aqui!
— Amor, não fica assim! — Lorena falou tentando conter o sorriso — É que você falou que era um barzinho à noite… Pensei em algo… diferente. — A morena emendou por fim, vou usar “diferente” mas queria saber se eles estão bem aqui em Chernobyl.
— Eu pensava que era um lugar de gente, pelo menos! — Gerluce falou carrancuda — Me adoece pensar que vocês três vinham pra cá — ela falou dando uma olhada ao redor — Quando poderiam estar no conforto de casa…
— Mas a Eduarda sempre voltava quando eu ligava. — Lorena falou inocente e Gerluce bufou, Paulinho demorava um pouquinho mais para voltar.
— Você quer alguma coisa? — Eduarda perguntou com a mão no joelho da esposa, fazendo um leve carinho ali.
— Por enquanto, não, amor! — Lorena respondeu sorrindo e se aproximando para um beijo rápido.
Algum tempo depois, o tal Padre apareceu e Lorena ficou genuinamente encantada com o tanto de histórias que ele conhecia da ruiva, Paulinho e o Delegado. Realmente, os três se divertiram muito ali e também trabalharam muito no bar. Eduarda contou que uma vez, tinha muita gente e ela acabou indo passar a noite no caixa, em troca de duas cervejas. Paulinho deixou bem claro que a única coisa que não fez ali dentro foi cozinhar, mas de resto…
— Meu amor, tava pensando num negócio aqui… Se eu fosse… — Lorena começou a falar, deslizando a ponta das unhas pela coxa da ruiva com aquele sorrisinho de canto, e Eduarda sentiu um calafrio percorrer a espinha de ponta a ponta.
Nada, absolutamente NADA de bom na história da humanidade começa com esse tipo de frase! Nada! Ainda mais quando é dita com esse tom de brincadeira! No final, quem leva a facada sou eu!
— Se você fosse o que meu amor? — A ruiva perguntou respirando fundo.
— Bom… se eu fosse uma garota de programa… você me contrataria? — Lorena perguntou baixinho, com a voz aveludada e os olhos verdes brilhando de puro divertimento e provocação.
— Jamais! Eu sou uma mulher casada e temente a Deus! Completamente a favor da família tradicional! — Eduarda respondeu na hora, estufando o peito com pose de cidadã exemplar e apontando com orgulho para a aliança de ouro reluzindo no dedo anelar.
— Dããã, sua boba! Se você não fosse casada comigo, né! Em um universo paralelo onde a gente não se conhecesse e você me visse, sei lá… num bar! — Lorena insistiu, dando um tapinha fraco no ombro da esposa.
Eduarda inspecionou o rosto da esposa por alguns instantes, procurando a pegadinha ali…
— Ah, meu amor… Se fosse assim, eu contrataria o pacote completo com hora extra e tudo, pagava o dobro do preço e no final da primeira vez, eu te bancava todinha e te tiraria dessa vida na mesma hora! — Eduarda falou, abrindo um sorriso cheio de si.
Lorena gargalhou alto com o galanteio, puxou a ruiva pelo pescoço e tascou um beijo estalado e gostoso nos lábios dela, que ficaram vermelhinhos, delícia!
— Nossa, que mulher salvadora, meu Deus! — Lorena debochou entre beijos, roçando o nariz no pescoço da esposa, que ia derretendo — E me diga uma coisa, Delegada… Como é que você ia me convencer a largar a profissão logo na primeira noite?
— Ah… — Eduarda sussurrou, a voz caindo ficando perigosamente mansa enquanto suas mãos encontravam a cintura de Lorena — Eu ia usar meus melhores argumentos e o meu treinamento… Te prendia na cama com as minhas algemas, depois uma surra de amor de três horas sem direito a descanso e duvido você querer qualquer outra vida que não fosse ser minha pelo pro resto da eternidade!
— Hmmmm… assim você me deixa tentada a pedir demissão agora mesmo, sabia? — Lorena provocou, mordiscando o lábio inferior da ruiva e fazendo o cérebro da delegada entrar em curto-circuito instantâneo — E bom… Quanto a essa “surra de amor”, a gente pode colocar em prática mais tarde! — A morena falou ao pé do ouvido da ruiva.
Seguiram numa conversa breve sobre o dia de hoje e a pauta foi a perseguição correndo que a ruiva realizou mais cedo. Lorena riu a ponto de quase chorar com Paulinho falando que estava com os joelhos doendo. Alguns instantes mais tarde, Macedo apareceu e Eduarda viu a esposa encolher.
— O que foi? — A ruiva perguntou baixinho, inclinando a cabeça para se aproximar ainda mais.
— Tô morrendo de vergonha do que ele ouviu mais cedo no carro! — Lorena sussurrou, enterrando o rosto no pescoço de Eduarda para se esconder.
O jovem policial se aproximou sorrindo da mesa e sentou na cadeira vaga ao lado de Eduarda.
— Voltei!
— Do Macedo? — Eduarda perguntou alto demais — Amor, não tem pra que se preocu-
— Oi, Doutora? — O homem respondeu, pensando que ela tinha falado com ele.
Eduarda encarou o companheiro de trabalho com um rabo de olho tão grande que atraiu até a atenção de Paulinho, que seguia numa conversa com Gerluce sobre a procedência da tripa que estavam comendo.
A ruiva sabia que somente uma fala seria capaz de deixar a morena mais tranquila.
— Você… Você acredita que a Lorena está envergonhada por causa do ocorrido de mais cedo? — Eduarda perguntou com um sorriso completamente sociopata nos lábios, o rapaz ficou pessoalmente assustado — Meu amor, pode ficar tranquila, ele é gay! — Eduarda falou convicta.
— É? — Lorena perguntou completamente incrédula, levantando a cabeça na mesma hora. Meu Deus, o meu gaydar está falhando conforme estou ficando mais velha… Ou os gays de hoje estão cada vez mais estranhos…
Macedo arregalou tanto os olhos que Paulinho temeu precisar se abaixar se abaixar no chão imundo para procurar as duas orbes caídas.
— M-mas d-doutora, e-eu n-nã-
A ruiva deu dois tapões no ombro do funcionário, quase deslocando a clavícula do rapaz.
— Macedo, tá tudo bem ser gay! Olha pra gente! — Ela falou num tom convincente — Somos felizes e você está num lugar seguro.
O rapaz engoliu em seco e pela primeira vez na vida, entendeu o que a ruiva quis dizer só com o olhar. Eduarda percebeu e soube que o futuro poderia ser melhor! Paulinho seguia vermelho de tanto rir e Gerluce seguia indignada, achando que ele estava rindo dela.
— C-claro! — Ele falou — Ai, amigas… — Macedo falou forçando uma voz diferente, Maya Massafera ficaria com inveja — Estou tão feliz por estar sendo aceito! P-pode ficar tranquila, d-dona Lorena, q-quer dizer racha! — Ele falou, encerrando seu belíssimo discurso com o gesto de mãos “ei, tu é?”, flexionando os pulsos de forma teatral.
— Aaaaah, Macedo! Sei que pode parecer meio aterrorizante, mas aos poucos, você vai se aceitar melhor! — Lorena falou num tom amoroso — E você está cem por cento seguro conosco! — A morena falou estendendo as mãos e agarrando as do jovem que mantinha um sorriso forçado de foto três por quatro.
— Exatamente, Macedo! Seja livre, borboleta! — Paulinho debochou, dando uma piscadela.
— Nossa, isso até me animou! — Lorena falou sorrindo radiante — Meu amor, vem, vamos dançar que essa música é boa! — A morena falou tomando a ruiva pela mão.
Só você sabe me fazer mulher, só você faz tudo o que eu quiser, só você entende o meu coração, enche meu corpo de tesão…
Lorena guiou as duas para onde os outros casais estavam dançando e num movimento habilidoso e entrosado, Eduarda a girou, já se aproximando.
Ontem sonhei com você, estava no quarto, tão só, estava tão linda vestida naquele baby doll…
A ruiva ainda precisou fuzilar umas duas ou três pessoas com os olhos e a cara feia, ESTÃO COBIÇANDO MINHA MULHER DIANTE DOS MEUS OLHOS, SENHOR NÃO ME ABANDONE!
Melei minha boca de mel, pensando só em você, amor, eu te quero, preciso desse teu prazer…
— Amor, você lembra que a gente dançava essa lá no Cafundó, atrás da faculdade? — Lorena perguntou sorrindo largo, encarando a ruiva de cima.
E quando você toca em mim, ah, ah, ah, ah, eu fico toda molhada, te juro, fico logo a fim, ah, ah, ah, ah, eu fico arrepiada…
— Meu amor, claro que sim! Como esquecer do maior hino lésbico do forró heavy metal? Babydoll poderia ser nossa música! — Eduarda falou enquanto conduzia a esposa no forró, já com a perna entre as pernas de Lorena.
— A calcinha preta eu já estou usando! — Lorena falou contra os lábios de Eduarda, que arregalou os olhos e sorriu de forma maliciosa.
— Seu plano é me matar! — A ruiva falou sorrindo.
As duas seguiram dançando, era um costume antigo de ambas. Antes de Eduarda se tornar delegada, quase todas as sextas as duas iam para o bar atrás da faculdade de Lorena, o Cafundó, e se esbaldavam.
Depois de umas cinco músicas, Lorena achou melhor tirar os saltos e Eduarda aproveitou que Macedo estava passando:
— Macedo, coloca eles lá perto da mesa, por favor! — A ruiva falou entregando os saltos ao policial.
— Que saltos belíssimos! Um arraso! — Ele falou entrando no personagem e Eduarda riu incrédula.
Assim que o homem se afastou, Lorena chamou atenção da ruiva.
— Meu amor, você não deveria ficar rindo… Vai ver isso é um sonho que ele ainda não realizou! — A morena falou desacelerando um pouco nos passos e Eduarda prendeu a gargalhada com tanta força que sentiu os olhos enchendo d'água.
— É c-claro, meu amor! Perdão! — A ruiva falou fingindo se comportar.
— Depois pergunta quanto ele calça… Vamos dar um salto a ele! — Lorena falou animada.
— C-claro, meu amor! — Eduarda falou e habilmente girou a esposa, com o único intuito de conseguir gargalhar sem ser vista.
XXX
A noite seguiu tranquila e aos poucos, todo mundo estava mais relaxado. Eduarda já estava com os pés doendo de tanto dançar com Lorena, Gerluce, Paulinho e Macedo, que estava completamente envolvido com o grupo.
Eduarda já tinha perdido as contas de quantas cervejas geladas tinha bebido, estava relaxada como Lorena não via há tempos, realmente a presença de Paulinho relaxa e acalma minha mulher, os dois passaram a noite inteira de implicância.
— Você deveria levar a Lorena para ver a parede de fotografias! — Paulinho falou depois de algum tempo, nitidamente já enfadado.
— Aaah, vou querer ver sim! — Lorena falou animada — O que foi, Gerlu?
— Tô ficando com vontade de fazer xixi… — A amiga respondeu e Lorena logo entendeu tudo.
— Ave-Maria, do jeito que é tudo por aqui, é melhor prender e ficar com infecção urinária! — Lorena murmurou baixo.
— Ó o Macedo no maior forrozão ali! — Paulinho falou apontando para o policial, que dançava com uma mulher desconhecida.
— Ele é todo malemolente, né! — Gerluce falou encantada.
Num movimento habilidoso, Macedo puxou a mulher pela cintura e em segundos, os dois estavam num beijo de tirar o fôlego, literalmente… Eduarda olhou de lado e Lorena assistia a tudo com a boca aberta, com o semblante surpreso.
— A-amor… O-o Macedo não era gay?
— Ele deve ser flex, paixão! — Eduarda falou rindo de se acabar — Nosso menino buzina, nosso bi-bi-bi-bi!
XXX
Ali, a música seguia tocando, abafada pelas paredes.
Lorena percebeu o exato momento em que Eduarda desmoronou.
Num outro corredor, perto dos banheiros, havia uma “parede de memórias”, com várias personalidades importantes que já frequentaram o bar e definitivamente, Lorena não conhecia ninguém, além do rosto familiar na foto da terceira fileira.
Eduarda começou com um choro baixinho e Lorena logo cuidou em segurar a mão da esposa.
— “Delegado Jairo Barroso (in memoriam) - o recordista das doses de alcatrão e de causos envolvendo o coração.” — Lorena leu o que tinha escrito abaixo da foto do homem, que sorria de canto a canto e ao lado dele, um porta retrato com “vontade de trabalhar segunda-feira - in memoriam.”
— Sinto tanta falta dele. — A ruiva falou passando as mãos pelas bochechas, tentando afastar as lágrimas.
— Duda, voc- — Paulinho começou a falar e parou ao ver Lorena consolando a amiga e instantaneamente, começou a chorar também.
Lorena fez o que tinha que ser feito, puxou Paulinho para um abraço triplo com Eduarda e em seguida, deixou os dois amigos ali, um chorando no ombro do outro.
A morena não conseguiu segurar a emoção também e chorava baixinho, ele foi padrinho do nosso casamento!
— V-você l-lembra... — Paulinho tentou falar em meio às lágrimas, soluçando feito uma criança. — Do d-dia dessa f-foto?
— E-ele falando que... que era um polvo, com muitos corações pra amar todo mundo... — Os dois amigos falaram exatamente em coro, rindo fraco no meio das lágrimas e se abraçando mais forte.
— A-amor, t-tem mais fotos dobrando ali… — Eduarda falou e limpou o nariz com as costas da mão — Se quiser ir olhar… Tem o dia que eu passei na prova e a gente veio comemorar aqui!
A morena sorriu doce ao ver o casal de amigos tentando se recompor e para Eduarda, aquela era uma das únicas negativas de envelhecer. A ruiva teve a sorte de amar muito ao longo da vida e qualquer baixa, era grande e difícil demais de suportar.
— Se ele tivesse aqui, já tinha dado um jeito de ir dançar com a Gerluce e com a Lorena! — Paulinho falou sorrindo no choro.
Lorena seguiu encarando as fotos e ao dobrar o corredor, duas fotos lhe chamaram atenção: na primeira, Eduarda estava montada nas costas de Paulinho, enquanto o delegado erguia uma garrafa de cerveja como se fosse um troféu e na segunda, a ruiva, uma mulher morena de franja, o delegado e Paulinho.
Quem é essa demônia com a mão na cintura da minha mulher? Sepultando o clima emotivo em questão de meio segundo.
A música seguia tocando.
Perguntaram pra mim, se ainda gosto dele, respondi: tenho ódio e morro de amor por ele…
— Eduarda! — Lorena já viu o corredor chamando, ignorando completamente o clima saudoso entre a ruiva e o amigo.
Hoje estamos juntinhos, amanhã nem te vejo, separando e voltando, a gente segue amando entre tapas e beijos…
— O-oi, meu amor? — A ruiva piscou, a voz ainda rouca do choro, encarando a esposa que vinha marchando na sua direção, como se fosse o último cavaleiro do apocalipse.
— Quem é aquela mulher com a mão na sua cintura? — Lorena perguntou apontando para trás — Você me trás num bar que tem uma foto sua com outra mulher?
Entre tapas e beijos, é ódio é desejo, é sonho, é ternura…
— M-meu amor… Isso, essa foto, tem tanto tempo… — A ruiva gaguejou, o choro evaporando instantaneamente enquanto encarava o quadro com o mais puro fascínio nos olhos.
Sapatona louca, Senhor! Eu amo demais, não dá!
XXX
— Macedo! — Eduarda chamou com a voz embolada — MuITo OoBriGADa! — Ela falou de uma vez.
— Foi um prazer, doutora! — Ele disse ainda dentro da viatura descaracterizada, parada em frente à casa delas — Obrigado pelo dia de hoje e pelo convite para ir lá com a senhora e com o Paulinho, foi muito importante para mim. — O rapaz falou sorridente, o que acertou em cheio o peito da ruiva.
— Brigada, Macedo! — Lorena falou sorrindo gentil, segurando os saltos com uma mão e dando apoio a esposa com a outra — Agora vai, já tá bem tarde e essa senhora aqui tem a capacidade de falar pelos cotovelos quando está nesse estágio.
— Que estágio? — Eduarda perguntou com a voz lenta — Eu tô ótima! Vou fazer o quatro aqui, olha aqui pra vocês verem! — A ruiva falou e ergueu quatro dedos da mão esquerda
— Sem o mindinho, igual o Lula, ó!
Nem Lorena nem Macedo se aguentaram e caíram na risada.
— Pode deixar, dona Lorena! — O rapaz falou — Qualquer coisa, estou à disposição! — Ele falou e acenou, mas só deu partida no carro quando Lorena estava fechando a porta de casa.
A morena encarava a esposa com um brilho divertido nos olhos, a Eduarda é completamente maluca! E eu sou completamente maluca por ela…
— Meu amor, você quer que eu prepare um cházinho? — A ruiva perguntou logo depois de tropeçar no batente da entrada — O-ou alguma coisinha pra você comer?
Lorena riu descrente, observando a esposa andando num zigue-zague causado pela embriaguez.
— Quero você bem longe do fogão, mocinha! — Lorena falou sorrindo.
— Eu mesma vou propor mudanças no cardápio de lá! — A ruiva falou com uma indignação bêbada — Como é que pode as opções veganas serem o alface da salada e a cebola?
— Amor, eu quero que você beba um pouquinho de água e a gente vai tomar um banho bem delícia. — A morena falou num tom bem sugestivo, mas que era apenas uma tática infalível para levar a ruiva rápido para o banheiro.
Segundos depois, Lorena encurralou a ruiva debaixo do chuveiro, com a água gelada e riu da cara de coitada que a ruiva fez.
— O que é que você tá contando tanto nos dedos, hein? — Lorena perguntou rindo da situação toda.
— Tô tentando lembrar quantas cervejas eu bebi, amor…
— Então use os dedos dos pés também! — A morena falou sorrindo enquanto desembaraçava os fios ruivos.
— Acho que tô ficando fraca pra bebida e tô odiando isso! — Eduarda resmungou com a cabeça inclinada para trás, para facilitar que a esposa fizesse seu trabalho.
— Ué, como assim, meu amor? — Lorena perguntou rindo, se beber mais um pouquinho vai ser a primeira ruiva do mundo a se transformar num alambique!
— É que bebo e já fico com fome de mulher! — Eduarda falou e se virou, surpreendendo a esposa com um beijão.
As duas saíram do banheiro e Lorena seguia se divertindo com a ruiva completamente bêbada tentando fazer as coisas, os olhos miúdinhos de sono e levemente avermelhados.
— Meu amor! — Ela falou espantada, com a boca cheia de pasta de dente.
— Oi.
— Acabei esquecendo da sua calcinha preta! Será que a gente pode-
— Não, meu amor, a gente não tá podendo mais nada hoje! — Lorena falou tentando soar séria e autoritária.
As duas se encararam por três segundos e riram juntas.
— Meu amor… — Eduarda chamou sussurrando — Você está dormindo?
— Não, amor! — Lorena falou rindo, meu Deus do céu, onde é que desliga essa ruiva, pelo amor de Deus!
— Preciso te dizer uma coisa…
— Diga! — Lorena falou e riu cobrindo o rosto com as mãos quando sentiu a esposa sentando na cama.
— Lorena, você tava muito linda hoje, meu amor… Muito mesmo! E eu tô falando isso… Para de rir! Tô falando sério!
— Duda, você é muito especial!
— Não, amor, presta atenção aqui! Tenho que falar logo, a cama tá rodando demais…
— Fale!
— Você é o amor da minha vida, viu! E eu não tô falando isso porque tô bêbada, tô falando porque é a maior verdade de todos os tempos e acabei… acabei de comprovar que amo você sob efeito de álcool e outras drogas!
Lorena sorriu tímida e deu um beijo terno na testa da esposa, que se aconchegou ainda mais. Quando a morena pensou que a ruiva finalmente tinha apagado:
— Meu amor… — Eduarda falou grogue.
— Hum?
— Posso fingir que estou ligando para você? — Eduarda falou e Lorena gargalhou alto — Acho que te liguei bêbada pouquíssimas vezes, mas queria que soubesse que te ligaria mais se eu-
A ruiva foi calada com um beijo.
Vai ser uma madrugada longa…
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