Capítulo 8

Acampamento, futebol e mosquito da dengo

Depois da feliz notícia de que seriam avós de uma linda menininha, que ainda por cima receberia o nome das duas, Eduarda pensou que nada poderia estragar sua semana.

Que notícia seria melhor do que aquela? O que seria capaz de abalar a cabeça da ruiva? NADA! Vivendo plenamente sua última semana de férias, Eduarda tinha planos a cumprir: finalizar a novela e terminar seu dorama, acabar as férias sem nenhuma pendência e passar a maior quantidade de tempo grudada, colada à esposa.

Mas claro que a delegada não contava que o inimigo mora em sua própria casa. Lorena, sua amada e querida esposa, tinha desenvolvido um apego pelo mais novo morador da casa Ferette Fragoso: o cabritinho.

Depois da terceira noite consecutiva dormindo mal, Eduarda estava seriamente cogitando ceder às coincidências da vida: aproveitar que era ruiva e realizar seu primeiro ritual de sacrifício animal no quintal.

— Meu amor, não tem condição humana desse bicho continuar aqui! — A ruiva esbravejou no café da manhã, sendo o mais ranzinza possível e o bom humor de quem acumulava três noites desastrosas de sono picotado.

— Meu amor… primeiro de tudo: não fala assim alto, ele pode entender, se sentir rejeitado e ficar deprimido… — Lorena repreendeu, com aquela voz mansa — Segundo, o que é que a gente vai fazer? Jogar ele na rua? — A morena perguntou com aquela cara, a de quem sabia que a esposa jamais faria aquilo.

— Amor, mas ele berra a noite inteira! — Eduarda falou e como se fosse para lhe tirar ainda mais do sério:

— BEEEEÉÉÉÉ! — O cabrito berrou na varanda, num tom estridente que parecia deboche e a ruiva sentiu o olho tremendo de forma involuntária, ELE ESTÁ DEBOCHANDO DE MIM, RINDO DA MINHA CARA!

— É que o seu sono é leve… — Lorena falou pousando a xícara de café na mesa e com cuidado, se levantou, deu a volta na mesa e sentou gostosamente no colo da esposa.

— Ele é o primeiro cabrito com hiperatividade e hábitos noturnos que eu conheço! — Eduarda reclamou, tentando manter a brabeza na voz enquanto as mãos, de forma automática, já seguravam a cintura da esposa para ela não cair.

— Nosso filhotinho é especial! — Lorena falou encarando o par de olhos castanhos.

Por um milésimo de segundo, Eduarda sentiu raiva de si mesma. Não tem condições, nunca vou ganhar nenhuma discussão nessa casa porque ela não me deixa pensar com clareza, fica me tentando. Mulher diabólica, razão da fome do mundo… Como é que eu vou me lembrar de qualquer cois- … Olha essa carinha! Os dentinhos mais imperfeitamente perfeitos da minha vida, o sorriso com as bochechas enormes e as covinhas, se reparar bem, ela tá até falando alguma coisa…

— E eu sei que você não quer que nada de ruim aconteça com ele também — A morena falou por fim, se inclinando para sugar a menor gota de resistência que restava na ruiva com um beijo demorado nos lábios de Eduarda. Sabor café com leite. Uma delícia!

Eduarda seguia perdendo, noite após noite, dia após dia… até que em uma manhã ensolarada e aparentemente tranquila:

— AH NÃO! Nossa… eu não acredito nisso!

Eduarda estava deitada no sofá do escritório e ouviu a esposa falar num tom nada agradável aquelas frases. Claro que como primeiro instinto, cuidou em vasculhar na mente toda e qualquer coisa que possa ter feito de forma errada ou que deixasse a esposa daquele jeito. Não fiz nada.

— Meu amor, tá tudo bem? — A ruiva falou fechando o livro num movimento calculado e se sentando no sofá.

Como não obteve respostas, Eduarda foi atrás da esposa. Nada na sala, nada na cozinha, nada no quarto, nada no banheiro… lá fora.

— Puta que pariu… — A ruiva falou baixinho ao encarar a cena toda.

Lorena estava ajoelhada diante da cena do crime: terra pra todos os lados, um vaso de plástico tombado e o falecimento da horta, que a morena cuidava com tanto amor e zelo.

— Meu amor? — Eduarda chamou doce — O que foi que houve aqui?

Lorena virou a cabeça lentamente, vibe possessão demoníaca de filme de terror e lançou um olhar tão carregado de ódio e destruição para Eduarda que a ruiva automaticamente fez uma oração mental agradecendo por não ser o alvo daquela fúria. Obrigada, meu Deus!

— Ele. — Lorena falou com a voz trêmula de ódio apontando para o fundo do quintal.

O cabrito que ainda mastigava alguma coisa, completamente alheio à revolta, o coitado nem sabe que tá jurado de morte.

Ele foi cutucar a onça com vara curta…

— Puxa vida... Que tragédia sem precedentes, meu bem! — A ruiva falou, já se ajoelhando ao lado da esposa e juntando com as mãos a terra espalhada, fazendo a cara mais cínica do mundo de "quem poderia imaginar?" — Eita, meu amor... Olhe pra isso aqui! Ele comeu até a sua mudinha de coentro! Devorou tudo!

A morena soltou um suspiro pesado.

— Meu amor… eu não queria ter que tomar essa atitude drástica, mas… a gente vai precisar se livrar dele! — Lorena falou com a voz tristonha.

POW POW POW (INAUDÍVEL), HOJE É UM NOVO DIA DE UM NOVO TEMPO QUE COMEÇOU

(ALEGRIA),

UEPA,

DANÇA GATINHO, DANÇA! ALEGRIA PORRA, VENCEMO!

Eduarda tratou de compor instantaneamente sua melhor cara de "Tadinha da Silva", franzindo o cenho, fazendo um biquinho falso de comoção e balançando a cabeça em lamento. ​

​

EU TÔ MUITO TRISTE COM UMA NOTÍCIA DESSAS!

Lorena encarou a ruiva por dois segundos, pegou o teatro no ato e acabou soltando um riso frouxo, balançando a cabeça negativamente.

— Pode parar de fazer essa cara de sonsa! Você tava certa o tempo todo sobre esse embuste de casco! — Lorena falou, dando um tapa leve no ombro da esposa.

— Que isso, meu amor... Longe de mim querer dizer "eu te avisei" sobre esse pequeno terrorista... — A ruiva falou, a modéstia mais falsa da história, dando um sorriso de orelha a orelha — Mas você poderia, por favor, só repetir essa última parte de novo?

— Você… Não vem testar a pouca paciência que me resta hoje não, viu, Eduarda! — A morena falou, brincando com os olhos semicerrados e ajeitando o cabelo.

— Pode ficar tranquila, minha paixão! Eu vou resolver essa situação! — Eduarda falou, ela nem sabe que eu já arquitetei completamente o plano na minha mente!​

XXX

— E aí, ele vai viver por aqui… — Zé Maria falou apontando para o amplo gramado verde. — BÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!

O dia estava um primor de tão lindo. O céu azul, o vento fresco, o ar puro e o par de olhos verdes mais lindos que a ruiva já tinha visto em toda a sua vida.

— Acho que ele vai ser muito feliz aqui! — Lorena falou encarando o horizonte verde, com um sorriso satisfeito e lindo, o favorito de Eduarda, com covinhas e tudo! — O que você acha, meu amor?

— Eu acho que você é a coisa mais linda da minha vida e que nosso cabritinho vai viver bem aqui! — A ruiva falou e viu na hora a esposa ficar tímida.

As duas estavam numa propriedade há alguns quilômetros de casa, na charmosa fazenda Pedacinho do Céu. A ruiva tinha pensado na solução perfeita para a vida do cabrito rifado que ganhou, batizado docemente de Alfredo Frajola, Aninha se inspirou nas cores do bicho para poder escolher o nome!

Eduarda tinha conhecido Zé Maria, o dono da propriedade, numa apreensão de animais silvestres, quando o rapaz achou de bom tom ficar escondido dentro de um buraco, que ele mesmo cavou, com uma espingarda velha do pai, na tentativa de pegar os caçadores.

Claro que a ideia deu errado e quando o homem estava para morrer, a delegada Eduarda Fragoso chegou para resolver a situação. Acabaram virando amigos e sempre que surgia alguma intercorrência, a ruiva era acionada de primeira, mas hoje, o jogo virou.

— Olha ali, amor, ele até já fez um amigo! — Eduarda falou apontando para Alfredo Frajola e outro cabrito branco como a neve.

— Aquele é o Floquinho! — Zé falou sorrindo — Ele é o nosso cabrito gay, vocês acreditam? — O homem perguntou divertido e Lorena e Eduarda trocaram um olhar cúmplice.

Sempre soube que algum dos meus filhos me daria alguma alegria! Eduarda pensou sorrindo.

— Vocês duas deveriam aproveitar e ficar por aqui hoje! — Zé convidou pela milésima vez, enquanto

imagens

belíssimas

dos

quartos

bem

equipados,

confortáveis,

com ar-condicionado e banheiras de hidromassagem invadiam a mente da delegada, imagina eu e a Lorena numa hidro... — Tem quarto de sobra lá na sede e-

— Desculpa interromper, Zé, mas o que é aquilo ali no gramado? — Lorena perguntou, apontando para algumas estruturas coloridas armadas ao longe.

Eduarda olhou para as barracas como se estivesse olhando para um litro de leite abandonado no sol quente… vai azedar já, já…

— Ah, aquela é nossa área de camping, pessoal vem, pra curtir a natureza, dar uma relaxada, essas coisas… — Zé Maria falou gesticulando com as mãos.

— Entendi… — A morena falou sorrindo os olhos brilhando.

— Eu vou só pegar o carrinho pra poder colocar os sacos de ração que vocês trouxeram e levar pro celeiro! — O homem falou ajustando o boné na cabeça — Podem ficar à vontade! Assim que Zé se afastou, Eduarda fingiu instantaneamente que uma mangueira ali perto era a árvore mais fascinante e complexa que a botânica já tinha produzido em toda a história, fugindo descaradamente do olhar da esposa. A ruiva conhecia bem demais o histórico de "Marina Silva, ministra rainha da mãe natureza" de Lorena e, sabendo exatamente onde aquele instinto do "sagrado da natureza" iria dar, tentava desesperadamente escapar do bote.

— Meu amor… — Lorena chamou num tom doce, acompanhado de uma mão que desceu dos quadris até a bunda da ruiva, extremamente suspeito. Golpe baixo!

— Hum? Oi, meu amor. — Eduarda parou de fingir encarar a árvore e encarou a esposa, que já estava com aquele sorriso mais lindo do mundo, com os dentinhos aparecendo e as covinhas ali.

— E… — Lorena falou puxando a esposa pela bunda, não vai ter escapatória! — Se a gente passasse o resto do dia por aqui e… acampasse? — A morena sugeriu e falou a última palavra com muito cuidado, quase cirúrgico.

Sei que minha adorável esposa não é a maior fã das minhas aventuras ao ar livre e também sei que em algumas vezes meti a gente em umas furadas, tipo o dia do enxame de abelhas… mas queria tanto… vou ter que apelar!

— Meu amor… — Eduarda começou num tom baixo, vinte e seis anos de casadas e ela ainda não tinha aprendido a dizer “não” à esposa.

— Meu amor, sabe o que é? — Lorena sussurrou, colando os quadris das duas num encaixe perfeito e subindo uma das mãos pela cintura da ruiva, arranhando levemente a pele sob a camisa — É que eu ia amar passar a noite te beijando sob o céu estrelado, bem assim… — A morena falou e seguiu com uma sequência implacável de beijinhos pelo pescoço sardento.

— É-é? — A ruiva perguntou gaga, quase entrando em combustão instantânea e perdendo três pontos de QI a cada beijinho.

— Sim, meu amor! — A morena falou baixinho ao pé do ouvido da ruiva — E também ia amar se a gente fizesse um amor bem gostosinho na graminha… — Lorena completou, mudando o foco dos ataques para o queixo e os lábios da ruiva, que já sorria de olhos fechados, totalmente entregue e molenga.

— E-ele tem v-vários quartos lindos… E se a gente pegasse um? — Eduarda tentou.

— Vem, vamos falar com ele sobre a alugar a barraca! — Lorena falou sorrindo, já rebocando a ruiva.

XXX

Saíram da lojinha com um pequeno montante de coisas e Lorena com um sorriso lindo. A ruiva quis chorar quando o rapaz avisou que não tinham mais nenhuma unidade de repelente. É ir pra guerra completamente desarmada!

As duas partiram para o almoço e depois de comerem, voltaram para a propriedade.

Lorena insistiu para que as duas fizessem um passeio à cavalo e Eduarda não era muito fã daqueles animais, eles são enormes, meia tonelada e a gente só usa essas cordinhas aqui pra controlar? Aham! Confia… Mas jamais perderia a oportunidade de cavalgar com a esposa, ainda mais, quando foi a mesma quem sugeriu que as duas fossem em um cavalo só.

— Você tem bastante habilidade, Lorena. — Zé Maria falou admirado enquanto os dois selavam o animal.

— Eu costumava montar muito quando mais nova, no sítio dos meus avós no interior… — A morena falou com um sorriso orgulhoso nos lábios enquanto ajustava a cela.

Eduarda seguia assistindo tudo com um mix de admiração e amor, minha mulher é uma coisa inexplicável mesmo, né? Inteligente, linda, estudiosa pra caramba, maravilhosa e ainda sabe fazer todas essas coisas, doma um bicho desses e não vai me domar?

Num movimento habilidoso, a morena passou a perna no bicho e a visão era paradisíaca: os cabelos ondulados do vento, o corpo balançando conforme o bicho dava a passada, que tesão absurdo!

— Vem, meu amor, uma voltinha só! — Lorena falou fazendo a curva com o animal — Umazinha só, pra você ver como é e pra não sobrecarregar o Tempestade!

— Ele é manso demais, pode ficar tranquila! — Zé falou — Pode se apoiar na cerca, Delegada.

— Quem diria que eu ia me apaixonar ainda mais pela princesa no cavalo branco? — A ruiva falou quando Lorena estacionou com o bicho.

Depois do trabalho para montar no animal, até que a situação da ruiva não era nada ruim. O balançadinho que faz quando ele anda é até gostoso e a coluna fica bem soltinha… Agora, a vaqueira que tá comandando tudo, ai meu Deus… Fico fraca! Cavalgou aí, molhou aqui! Lorena seguia atrás da ruiva, o tronco firme e a postura impecável, com as mãos apoiadas nas coxas da ruiva, segurando firmemente os arreios e Eduarda queria derreter quando olhava de lado e a esposa estava sorrindo.

Depois de duas voltas, a morena parou com o animal e Zé ajudou Eduarda a descer. A delegada e o jovem fazendeiro seguiram numa conversa sobre banalidades da rotina ali, mas a ruiva não tirava os olhos da esposa, que sorria e cavalgava lindamente.

No final da tarde, Zé Maria já tinha deixado a pequena barraca devidamente montada e organizada para as duas. Eduarda odiou tudo, inclusive e principalmente, os dois sacos de dormir. Além de dormir nesse muquifo, ainda vou ter que dormir longe da minha mulher? A ruiva estava sentada na grama, ainda de jeans e descalça, com os fios ruivos balançando ao vento. Num movimento habilidoso, Lorena sentou entre as pernas da esposa, encostando as costas no peito da ruiva, que lhe envolveu num abraço caloroso no mesmo instante.

Permaneceram bons minutos ali na sombra do gramado, com o vento açoitando, as copas das árvores balançando, o barulho de alguns bichos por perto… Lorena sorria com o carinho que Eduarda fazia e seu braço e devolvia na mesma moeda um carinho suave na lateral da coxa da esposa.

Claro que Eduarda não se conteve e começou a deslizar a ponta do nariz pelos cabelos cheirosos de Lorena, que virou ainda mais a cabeça se aproximando e enterrando os dedos no cangote ruivo.

— Eu amo você demais! — Lorena falou baixinho e depositou um beijo terno no pulso de Eduarda.

— E eu amo você de volta! — A ruiva falou no mesmo tom, beijando o topo da cabeça da morena.

Com um reflexo aguçado, Eduarda girou o tronco, deitando por cima de Lorena.

— O que-

— Oi, tias… Desculpa! — Uma menininha ruivinha de uns dez anos apareceu do nada, com as bochechas vermelhas de tanto correr atrás de uma bola.

— Eu nem vi de onde essa surgiu, só notei o vulto pela visão periférica! — Eduarda sussurrou, recompondo a postura num pulo — Oi, mocinha! — A ruiva falou sorrindo.

Lorena estava completamente encantada com a ação ágil de Eduarda. Que sabor, ela toda protetora se jogando na frente de sabe-se lá o que para me proteger!

— Nossa, a gente é igualzinha, tia! — A menina falou apontando para o próprio cabelo ruivo e sorrindo largo. Eduarda retribuiu o sorriso na hora, babando a garotinha. Meu Deus, lembra tanto a Catarina quando era mais nova, toda sorridente, falante e sapeca!

— Estou me sentindo muito sortuda! Duas ruivas de uma vez! Qual o seu nome? — Lorena perguntou simpática.

— É Maju… Digo, Maria Júlia! — A menina falou sorrindo.

— Eu sou a Eduarda e essa é a Lorena. Muito prazer, Maju! — Eduarda falou — A sua bola rolou pra ali, ó!

— Brigada, tia! — A menina respondeu e as três olharam na mesma direção.

— Maju? — Uma voz feminina e aveludada chamou ao longe — Filha! Que demora pra voltar com essa bola!

— Desculpa, mãe… Tava conversando com as minhas amigas. — A menina falou apontando para Lorena e Eduarda, amei essa criancinha!

— Amigas? — A mulher perguntou se aproximando e no mesmo instante, Eduarda encarou os próprios pés, com um interesse genuíno — Boa tarde, meninas!

A mulher tinha cabelos perfeitos e ondulados que batiam na bunda, e que bunda! Uma tatuagem enorme na coxa, um colar de pedras no pescoço e uma vibe puramente alternativa, deusa da mãe natureza.

Lorena se sentou ereta na mesma hora, as anteninhas do radar de ciúme apitando no volume máximo! Encarou a esposa, que limpava obstinada um grão de alguma coisa completamente inexistente na barra da calça e depois cravou os olhos de águia na mulher diante de ambas.

MERMÃO, QUEM ESSA… ESSA… MULHER, PENSA QUE É? QUE ROUPA… QUE BIQUÍNI DO ESTOPÔ CALANGO É ESSE? MAIS UM POUCO E EU IA VER OS LÁBIOS, TIPO ASSIM, NA FRENTE DE UMA CRIANÇA E DE UM CASAL DE MULHERES?

— Boa tarde! — Lorena respondeu forçando um sorriso e apertando o joelho de Eduarda.

— B-boa tarde… — A ruiva respondeu, soltando um sorriso de meio segundo e desviando o olhar imediatamente para o horizonte, lindos campos floridos, amo a natureza.

Meu Deus, como é possível que o cão esteja rondando em todos os lugares mesmo? Bem que dizem que mente vazia é oficina do diabo, fazia uns trinta minutos que eu não pensava em nada e nem tinha problema nenhum… Do nada, essa mulher.

— Nós estamos com um pessoal nas primeiras barracas, caso vocês queiram aparecer por lá mais tarde, acho que vai ter música ao vivo, fogueira, essas coisas…

— Muito obrigada! — Lorena falou simpática, mas Eduarda sabia que era tudo uma farsa.

— Tchau, Maju! — A ruiva falou acenando para a criança.

O proprietário tinha avisado sobre os banheiros e sobre como tudo funcionava por lá, o banho frio foi uma verdadeira prova de resistência.

As duas jantaram com o restante dos habitantes do acampamento e a ruiva já calculava mentalmente a distância que precisaria percorrer caso acordasse de madrugada para fazer xixi.

— Consegui pegar água quente com o pessoal do apoio e fiz um pouquinho de chá pra gente! — Lorena falou sorrindo e a ruiva sorriu também, grata pela bebida.

Haviam comprado roupas iguais e Lorena estava achando tudo muito divertido, principalmente as caras e bocas que a ruiva fazia.

— O que foi? — Lorena perguntou divertida.

— Essa roupa… Parece que a gente tá na penitenciária! — A ruiva falou rindo e Lorena riu também.

Ficaram por ali.

A noite, no breu, não havia muito o que fazer, as duas embarcaram em longas conversas sobre a rotina, sobre o dia e Eduarda logo soube que iria pagar por crimes cometidos na vida passada, com correção de juros e inflação.

Dali, era possível ouvir o som alto do pessoal das primeiras barracas, bem como era possível sentir o cheiro de fumaça e depois das dez da noite, a ruiva começou a sentir o cheiro familiar de maconha.

— Meu amor, acho melhor a gente abrir a barraca… — Lorena falou, já abrindo — Ou a gente vai morrer de tanto calor.

A promessa de um amor lentinho na graminha ficou apenas no pensamento de ambas e para acabar de completar, Lorena dormiu primeiro e claro que Eduarda ficou de sentinela, tentando ao máximo proteger a morena dos mosquitos, pelo tempo em que a luz à bateria durou.

Eduarda sabia que aquilo era um ataque pessoal contra ela, principalmente quando os mosquitos passavam zunindo em seu ouvido e com isso, surgiram as tentativas falhas de acertar algum, mas ela só se estapeava mesmo.

A ruiva não sabia ao certo quanto tempo tinha dormido, mas sabia que tinha sido pouco e já acordou com vontade de começar uma briga. Quando a Lorena acordar, ela vai ver só uma coisa! Nunca mais, eu disse NUNCA MAIS, ela vai inventar outra pataquada dessas! Tô com as costas queimando, parece que dormi em cima de uma lombada e a minha coluna tá parecendo um berimbau aqui! Ela vai ver só!

A morena seguia dormindo o sono dos justos e despreocupados no saco de dormir, enquanto a ruiva ensaiava seu discurso acalorado e como se Deus quisesse pregar uma peça, minutos depois ela despertou.

— Bom dia, meu amor! — Lorena falou sorrindo, o sorriso favorito de Eduarda e em seguida, se espreguiçou, passando um dos braços por cima do saco de dormir da esposa

— Meu amor… preciso te falar uma coisa…

— Ah, que ótimo! Que coincidência, porque eu também preciso te falar uma coisa! — Eduarda falou, a voz carregada de sarcasmo puro.

— Eu só queria dizer que não gostei muito desse acampamento… Horrível a experiência de dormir nesse saco, sem sentir você de verdade, dormir no meio do mato até vai, agora dormir sem minha mulher… — Lorena falou se aproximando do corpo da esposa da forma mais manhosa que conseguiu.

Eduarda seguia em silêncio, tentando arreganhar menos os dentes enquanto Lorena disparava uma sequência de beijinhos pelo pescoço sardento.

Ainda bem que ela assumiu os erros… Mas que fique claro que da próxima vez, eu terei reclamações sérias a fazer!

— A gente precisa tomar um banho! — Lorena falou sorrindo — Estamos fedendo a fumaça!

XXX

— Amor? — Eduarda falou mais alto do quarto para conseguir ser ouvida — Chegou?

— Oi, meu bem… Cheguei sim! Nossa, que dia exaustivo! — Lorena falou arrancando os saltos dos pés e mexendo os dedos, finalmente livres de tanta opressão.

— Porque não me ligou pra ir te levar lá na Mag? — A ruiva perguntou do closet, num tom levemente ressentido e manhoso demais,.

— Meu amor, ela insistiu tanto pra gente ir tomar um café hoje e você tá na sua última semana de férias, não quis te dar trabalho! — Lorena falou tranquilizando a esposa.

— “Me dar trabalho?” Pelo amor de Deus, Lorena, não fala isso! Trabalho é prender assaltante no centro, te buscar é presente divino e prazer da minha vida!

— Cadê você, hein? — Lorena perguntou desabotoando a camisa.

— Tô procurando uma coisa aqui e preciso te perguntar uma coisa… Duas, na verdade! Lorena aproveitou a pausa, tirou o celular de dentro da bolsa e seu livro, os planos para aquela noite era finalizar o capítulo e seguiu para o quarto. Encontrou a esposa ajoelhada fuçando uma caixa organizadora no closet.

— O que foi, meu amor? — Lorena perguntou e se abaixou, para beijar os lábios da esposa.

— Meu amor, eu… e-eu queria saber SE você acha que eu quero ir jogar bola com o pessoal hoje e se for o caso, SE você q-quer ir junto…

Em resposta, Lorena fez a única coisa que conseguiu fazer naquele momento: gargalhou. Eu amo demais minha esposa, não tem como! Sessenta anos me perguntando se eu acho que ela quer sair ou não.

— M-mas tudo bem se você não quiser ir — Eduarda falou enquanto separava a roupa para ir tomar banho — Sei que você trabalhou e chegou agora pouco em casa e que também não é a maior fã de futebol…

— Meu amor, você acabou de me perguntar se eu acho que você quer ir jogar bola? — Lorena questionou rindo.

— É que você é minha dona, né? — A ruiva falou levantando do chão — Você quem manda e desmanda em mim…

SEQUÊNCIA DE PALAVRAS INSANA E ENCANTADORA!

— Ah, é? Eduarda Fragoso, Eduarda Fragoso! — Lorena falou, tentando segurar a risada.

— É, meu amor! — A ruiva falou sorrindo, com a cara mais lavada do mundo.

O jogo de encontro anual com o pessoal da delegacia seria um dos últimos atos das férias de Eduarda.

— Meu amor, eu nem tô tão cansada e vai ser ótimo passar um tempinho a mais te vendo fazer algo que você sempre amou tanto! — Lorena falou sorrindo e fechando seu livro na mesma hora, também jamais deixaria minha mulher ir para as peladas da delegacia sozinha! Orem por mim, sinto muito ciúme!

— Então vem, vamos tomar um banho! — Eduarda falou puxando Lorena delicadamente pela mão.

— Peraí… Você tá bem mesmo, amor? — A morena perguntou, encostando a mão na testa da esposa. — Tô te achando meio quente,

— É que eu fico em chamas por você! — A ruiva respondeu sorrindo cafajeste e Lorena revirou os olhos, mas beijou a esposa em seguida.

Partiram para o chuveiro, com a ruiva super empolgada, num nível quase infantil, por ir encontrar com Paulinho e o pessoal da velha guarda da delegacia.

— Meu bem, já que você vai, vou correr e preparar um cooler pra gente levar! — Eduarda falou assim que acabou de se vestir — Sei que você ama um lanchinho!

Lorena não conseguia tirar o sorrisinho de canto, totalmente devasso, dos lábios. Já tinha feito e refeito o caminho dos pés a cabeça da ruiva umas vinte vezes. É que ela de uniforme de futebol é um pecado! Vejo e já fico pensando em coisas pecaminosas e com pouca roupa.

— O que foi? — A ruiva perguntou divertida ao encarar o rosto sapeca da esposa.

— Ah, meu amor… É que você… E-eu…

— Ué? Tá nervosa? — A ruiva perguntou se aproximando, segurando as duas mãos de Lorena e entrelaçando os dedos — Que foi, meu bem?

Lorena aproveitou a proximidade, puxou a esposa e encaixou as mãos nos quadris de Eduarda, com uma das mãos repousando na curva da bunda.

— Deixa eu ver como é que eu posso explicar isso de um jeito civilizado… — Lorena falou mordendo o lábio inferior.

— Explicar o que, meu amor? — Eduarda perguntou curiosa.

— É-é q-que você assim… — Lorena falou e encarou o top esportivo preto, a barriga de fora, a bermudinha preta de futebol levemente apertada nas coxas, o meião… — Tô morrendo de tesão! — Lorena falou com cara de Tadinha.

Eduarda deu um passo para trás, sorrindo totalmente incrédula e chocada.

— C-com essa bermudinha de pano fino aqui? A d-do futebol?! — A ruiva falou, puxando o tecido perto da coxa, como se fosse a peça de roupa mais anti-erótica da história da humanidade.

— Para de ficar me atiçando! — Lorena falou enterrando a cabeça no pescoço sardento.

— M-mas meu amor, e-eu não fiz nada! — Eduarda falou sorrindo largo.

— Que horas é esse jogo, hein? — Lorena perguntou em meio a uma sequência devoradora de beijos na clavícula de sua esposa, que estava imprensada contra a parede do quarto, completamente mole.

— H-hora? M-meu amor, isso é só um conceito abstrato! — A delegada disse por fim, invertendo as posições e colocando Lorena contra a parede.

— Abstrato, é? — Lorena perguntou sorrindo maliciosa e deslizando as mãos para dentro do elástico do short de futebol da ruiva.

— O que importa agora, é saber se você sabe a diferença entre clima e tempo! — Eduarda falou com uma voz mansa e um sorrisinho de canto canalha!

O cérebro de Lorena travou.

— C-como assim, meu amor? — Lorena falou parando com os beijos e encarando a esposa com uma grande interrogação na testa — V-você tá falando das variáveis metereológicas? É difícil querer jogar uma cantada numa mulher muito inteligente, a bicha já tá se preparando pra me responder com uma monografia sobre o tema…

— Meu amor, meu amor, ei… — A ruiva chamou atenção, encarando o par de olhos verdes, que antes estavam escuros de tesão e agora estavam confusos — Clima é o que tá rolando aqui e tempo é o que a gente tá perdendo!

A ruiva assistiu em primeira mão, a expressão facial da esposa mudar completamente, indo de estranheza e confusão para muito amor e tesão.

XXX

— Nada é mesmo como era antes! — Paulinho falou assim que Lorena e Eduarda se aproximaram com o cooler — Antigamente, você quem puxava o aquecimento!

Às vezes, chupar e dedar a esposa enquanto balança as perninhas também é aquecimento!

— Eu sei que você estava morrendo de medo de a artilheira não vir jogar, mas pode voltar a respirar, cheguei! — Eduarda falou abraçando o amigo, que estava claramente num aquecimento culposo, quando não há intenção de aquecer.

— Vai dizer que atrasou por causa do carro que quebrou ou o cachorro comeu sua chave?

— Paulinho perguntou enquanto a ruiva amarrava a chuteira.

— Engraçado… Você veio pra jogar ou pra me interrogar, hein? — Eduarda perguntou debochada e riu quando viu a careta que o amigo estava fazendo.

Os dois policiais permaneceram de implicância enquanto Lorena e Gerluce se abraçavam.

— Gerlu, meu amor, a Duda trouxe ovinho de codorna e amendoim pra gente comer! — Lorena falou animadíssima — E loiras geladas pra gente beber, claro!

— Aaaah, que delícia! — Gerluce falou sorrindo — Eu trouxe mandioquinha com queijo pra gente!

Era engraçado acompanhar o jogo, principalmente quando ninguém ali tinha menos de cinquenta anos. A corrida, às divididas, eram mais cautelosas e eles trabalhavam bem mais a língua, com inúmeros xingamentos, que os dribles.

— Amiga, acho melhor você dar uma segurada na emoção aí! — Gerluce falou cutucando o ombro de Lorena.

— O-o que? — Lorena perguntou segurando o gargalo da garrafa de cerveja.

— Você tá encarando a Duda como se ela fosse um, sei lá… pratão de salada desse tamanho. — Gerluce falou gesticulando com as mãos — Pensa aí numa folhona de alface, um tomate enorme, sei lá… — A amiga falou e Lorena gargalhou alto.

— É que ela é bonitinha correndo, né? — Lorena falou, é pecado eu sentir tesão na minha mulher toda hora? Pelo amor de Deus, ela limpando o suor da testa com a barra da camisa, a barriga toda de fora, ela nessa pose de jogadora…

— Ela é sim, mas você tá babando! — Gerluce falou rindo e Lorena riu também.

Lorena seguia monitorando os passos da esposa e não tinha dúvidas de que ela era a melhor em campo, ela era a melhor em tudo o que se propunha a fazer! A ruiva realmente tinha habilidade e condicionamento físico, era impossível não ficar babando nas coxas grossas, no movimento ritmado dos quadris, nos xingamentos que ela bradava.

— Vai, meu amor! — Lorena berrou da arquibancada.

— Bora, Paulinho! — Gerluce gritou também e recebeu um olhar cansado — Ele tá bem melhor fisicamente depois do pilates, tenho que agradecer a Eduarda depois!

— Ela tava comentando que agora ele tá bem mais flexível e com menos dores, mais disposto também! — Lorena falou sorrindo ao ver o amigo se preparando para cobrar um escanteio.

Todo mundo estava na área do gol, Eduarda fez um sinal para Paulinho, jogada antiga e ensaiada dos dois, o policial aposentado chutou a bola e milagrosamente, ela veio na direção de Eduarda, que saltou no momento exato, cabeceando com maestria. A bola rolou, passando pelas mãos habilidosas do perito, agora goleiro, Juvenal e entrou no cantinho. GOL!

A ruiva saiu correndo mordendo a língua e em seguida, deu um sorrisinho safado de quem sabe que é a mais bucetuda de todos os tempos.

— AE, PORRA! NOSSA DELEGADA CARALHO! — Paulinho berrou levantando Eduarda num abraço.

A ruiva sorria satisfeita com o próprio desempenho e comemorou com alguns colegas em campo, mas instantes depois, ergueu um “L” com os dedos indicador e polegar, assim que encontrou o olhar da esposa, sorriu e mandou um beijo no ar.

PUUUUUUUUUTA QUE PARIUUUUUU, QUE MULHER SABOROSAAAAAAA!

— Ela é performática, né! — Gerluce falou sorrindo e Lorena sorriu de volta, não conseguia fazer outra coisa, tudo o que queria falar ou fazer estava impregnado de tanto tesão, que a morena achou melhor ficar em silêncio.

Ai, minha amiga… vou ficar em silêncio pois tudo o que eu quero verbalizar está no idioma TESÃO ABSOLUTO, não sei nem se você conseguiria entender…

Instantes depois, uma chuva fina começou a cair, mas aquilo não pareceu abalar o desempenho dos jogadores, que seguiram trocando passos.

— Meu amor, vem aqui! — Lorena berrou completamente deliciada com a camisa colada no corpo e o short colado nas pernas, o tamanho da bunda dela!

Algum tempo depois, Eduarda veio num trote charmoso para perto da rede.

— Oi, meu amor. — A ruiva falou com os cabelos completamente encharcados e aceitou de bom tom a garrafa de água que Lorena lhe entregou.

— Você vai continuar jogando nessa chuva?

— Climinha europeu, mo! — Eduarda falou e Lorena riu revirando os olhos — Só vou fazer mais um gol para você e a gente vai pra casa! — A ruiva falou sorrindo e deu uma piscadela para a esposa.

XXX

Lorena acordou com o despertador, desligou a gritaria, passou a mão pela cama e estranhou o outro lado vazio. Ué?

— Meu amor? — Lorena chamou baixinho.

Silêncio total, exceto pelo barulho de chuva lá fora.

A morena então levantou, escovou os dentes e não precisou andar muito para ouvir a esposa.

— GUEEEEC!

— Amor? — Lorena chamou preocupada.

— A-amor, não vem aqui, tá bom! — Eduarda falou e claro que Lorena já estava na porta do banheiro do corredor, chegou bem a tempo de ver a ruiva limpando a boca com as costas da mão.

Se deparou com a esposa ajoelhada diante do vaso sanitário, muito mais pálida que o de costume, os fios ruivos pregados na testa suada e olheiras profundas.

— Meu amor, o que é que tá acontecendo? — Lorena perguntou se aproximando, mas não obteve resposta, já que a ruiva virou o rosto para vomitar na mesma hora.

— N-não é n-nada, meu amor… Acho que tô um pouquinho doente, só… V-vai pra lá, pra você não pegar também! — A ruiva falou e Lorena já estava sentada no chão do banheiro ao lado da esposa teimosa.

— Quantas vezes você já vomitou? — Lorena perguntou preocupada — E por que não me chamou? Tá queimando de febre! — A morena falou com a mão na testa quente da ruiva.

— E-eu vomitei algumas vezes — Ela admitiu relutante — E não quis acordar você…

Naquele instante, Lorena quis berrar.

— Vem, vou ligar avisando que nós não vamos para o pilates e vou passar uma atividade remota para os meus alunos. — Lorena falou levantando e já ajudando Eduarda.

A ruiva foi meio cambaleante para o quarto delas e sentia a cabeça pesada. Deitou de qualquer jeito na cama e conseguia ouvir Lorena falando alguma coisa, mas não conseguia distinguir muito bem as palavras. Algum tempo depois, a morena voltou para o quarto com uma bandeja de café da manhã.

— Meu amor… — Lorena chamou baixinho, com a mão gentilmente no ombro da esposa. Eduarda lutou muito para abrir os olhos, a cabeça estava vinte vezes mais pesada que antes.

— Você tá queimando de febre… vem, senta aqui e toma logo o remédio. — A morena falou pegando o copo com água.

A ruiva sentou e o mundo rodou no mesmo instante.

XXX

Lorena arrastou Eduarda para o banheiro, meio que a contragosto e sem nenhuma cerimônia, despiu a esposa e se despiu.

— Meu amor… o que foi isso aqui? — Lorena perguntou franzindo o cenho e encarando o braço de Eduarda sob a luz do banheiro.

— Eu não faço ideia, meu amor… mas você tá linda demais.

— Você tá toda cheia de pintinhas vermelhas… Amor, acho que você tá com dengue! — Lorena falou desligando a água do chuveiro.

— Eita, amor…

Habilmente, a morena secou a ruiva, penteou os cabelos curtos com carinho e as duas partiram pro closet. Lorena começou a ficar preocupada quando a ruiva implorou para ir logo pra cama, mas para dormir.

— Duda, anda, bebe água! — A morena falou algum tempo depois, quando foi acordar Eduarda para conferir seu estado.

— Meu amor, eu tô bem… não precisa se preocupar! — Eduarda falou e esboçou um sorriso, mesmo depois de sentir o termômetro gelado.

— Você ainda tá com febre… se não passar a gente vai pro hospital! — Lorena falou irredutível e decidida. Eduarda até queria argumentar, mas só conseguia sorrir boba.

Lorena encarou a ruiva encolhidinha na cama, com os olhinhos fechados, o cobertor até o queixo e aquele sorrisinho bobo apaixonado no rosto. A mulher tá simplesmente ardendo em febre e tá me olhando com essa cara de paçoca? Ela é linda demais, meu Deus do céu...

— O que foi? — A morena perguntou com um arzinho de riso.

— Nada, meu amor.

— Desembucha!

— Você aí, falando em me levar pro hospital, sendo que a minha médica particular cuida de mim usando só calcinha e moletom! Até parece que eu vou sair daqui pra ir ver plantonista!

— A ruiva falou sorrindo e Lorena não conteve uma risada gostosa.

Lorena seguia como um cão vigilante.

Passou o resto do dia dividida entre as obrigações do trabalho e sua esposa. Odiava quando Eduarda ficava doente e silenciosamente pedia a Deus que aquilo não fosse nada grave e que passasse rápido.

Depois de uma madrugada acordada, vendo a esposa arder em febre, Lorena ligou para Joélly, que foi atender a ruiva em casa e não havia muito a ser feito.

— Realmente, agora que a senhora falou, acho que o mosquito deve ter picado a tia Duda quando vocês estavam no acampamento! O tempo da doença bate certinho! — A jovem médica falou e riu da careta que a ruiva fez ao ouvir “acampamento”.

— A única coisa boa desse acampamento foi a presença da minha esposa! — Eduarda falou baixinho, com a voz fraca. É morrendo de febre, mal respirando, mas amando a Lorena em toda e qualquer oportunidade!

— E tem alguma coisa que eu possa fazer para ajudar ela? — Lorena falou e Eduarda odiou ouvir o tom preocupado da esposa.

— Tia… é dengue — Joélly falou dando de ombros — Manter ela hidratada, alimentada e em repouso, principalmente! — A médica falou dando duas batidinhas no ombro da ruiva, que bufou.

Graças a Deus não é COVID, é só dengue hemorrágica, Lorena riu lembrando do meme. Naquela mesma noite, depois do jantar, Eduarda insistiu em ir ajudar Lorena na cozinha.

— Você é muito teimosa!

— Meu amor, eu só vou secar dois pratos! — Eduarda falou.

— Tá quase na hora do seu remédio e da sua água de coco, ande! — Lorena alertou, apontando o dedo pra direção do quarto.

Ela quer que eu exploda, só pode. Toda hora é um suco de alguma coisa, um copo d'água e uma fruta.

Alguns minutos depois, Lorena apareceu no quarto e Eduarda estava deitada na cama tal qual uma estrela do mar, encarando o teto fixamente.

— Meu amor… Acho que estou indo embora! — A ruiva falou num tom pausado, quase etéreo.

— Embora pra onde, amor? — Lorena perguntou sem entender nada.

— Eu… E-eu estou vendo a luz e tudo…

— É que você tá olhando diretamente pra ela, meu amor — Lorena falou rindo, meu Deus, o drama dessa mulher!

A morena avisou que precisaria se concentrar na correção de um trabalho acadêmico e deixou a ruiva devidamente deitada cheia de travesseiros, da forma mais confortável que conseguiu, depois distribuiu uma sequência de beijos estalados pelo rosto da mulher e Eduarda começou a pensar que se vendessem aqueles beijinhos nas farmácias, a população se livraria da maioria das dores.

— Me chama qualquer coisa, tá? Por favor! — Lorena falou e beijou os lábios da esposa com cuidado — Eu te amo demais!

— Te amo tanto, meu amor... Se eu não acordar amanhã, saiba que parti te amando... — A ruiva dramaticamente desmaiou a cabeça no travesseiro e Lorena apenas revirou os olhos. A morena entrou no escritório, ligou uma música baixa e iniciou sua correção, completamente compenetrada naquilo. Vez ou outra, levantava e ia na porta do quarto conferir como Eduarda estava, graças a Deus ela dormiu. Olhou no relógio algum tempo depois e viu que já estava ali há tempo demais, mas pelo menos consegui adiantar bastante coisa, vou só finalizar a discussã-

ZZZZZ! ZZZZZ!

O celular vibrou em cima da mesa.

Catarina.

— O-oi, filhota! B-boa, sua mãe fez o que? — A morena perguntou incrédula.

Lorena saiu do escritório pronta para tudo, até mesmo para agressão física!

Como é que a Eduarda faz uma coisa dessas? Ligar para nossa filha querendo se despedir, falando que “está nas últimas”… Pelo amor de Deus! Eu vou pegar naqueles cabelos de sabugo dela e ela vai ver só uma coisa!

— Eduarda-

A morena congelou na mesma hora ao ouvir o fungado da esposa, que estava deitadinha encolhida na cama.

— M-meu amor? — Lorena chamou gentil, toda ira indo por água abaixo — A Cat me ligou…

— Ai, meu amor… T-tô m-muito triste! — Eduarda falou ainda chorando.

Lorena passou a mão pelos cabelos e deitou na cama, puxando a esposa para cima de seu peito, um hábito antigo delas.

A princípio, a morena não falou nada, apenas acolheu a esposa ali, deslizando os dedos suavemente pelos cabelos ruivos agrisalhados, enquanto o outro braço seguia firme nas costas e aos poucos, o choro foi cessando. Lorena seguia em silêncio, beijando a testa da esposa ocasionalmente e cheirando o topo da cabeça da ruiva.

— Agora que você já se acalmou, pode me falar o que é que está te perturbando? Hum? — Lorena pediu baixinho, quase num sussurro carinhoso.

— Ah, meu amor… de repente eu me lembrei que já tenho sessenta anos e que posso ir embora desse mundo a qualquer momento! — A ruiva falou, fungando alto. Lorena até se sensibilizou com a crise existencial, deve ser coisa da idade, mas nada, absolutamente nada no planeta a preparou para o que veio a seguir: — Meu amor… se eu morrer… nossa, você ia casar de novo tão rapidinho! O tanto de urubu que ia aparecer te querendo aqui na cidade, meu Deus… só de imaginar… isso me adoece mais do que a febre! — A ruiva falou, a voz transbordando revolta e ciúmes.

— Espera… Você tava aqui no quarto, se acabando de chorar pensando que eu iria casar de novo caso você morresse? Uma coisa completamente hipotética?

— Sim, m-mas…

Lorena deu um tapa moderado no ombro da esposa.

— AU! — A ruiva falou se virando na cama, esfregando a mão onde levou a tapa — Eu estou enferma, não posso apanhar!

— Primeiro de tudo, Eduarda Fragoso, me ouve com bastante atenção, tá? — Lorena falou num tom de ameaça tão genuíno que a ruiva só conseguiu assentir com a cabeça, assustada — Para com essa loucura! A gente casou. É eu e você. Sempre. Pra sempre. Tá me ouvindo bem? — Ela perguntou e Eduarda concordou balançando a cabeça freneticamente, tal qual uma lagartixa — Ótimo! Segundo: Eu não quero e nunca vou querer mais ninguém nessa vida! Se você morrer agora E eu acho bom você NÃO fazer isso! Se você for embora desse plano tão cedo assim, eu vou atrás de você no outro mundo e eu mesma te mato de novo! Vou lá e aperto o seu pescoço com as minhas próprias mãos! Entendeu?

A ruiva engoliu em seco, apenas balançando a cabeça afirmativamente.

Se aconchegaram de novo e permaneceram abraçadas por mais alguns minutos, num silêncio confortável, ouvindo a respiração uma da outra. Até que…

— Mas… você ia apertar meu pescoço mesmo? No sentido violento ou naquele nosso outro sentido? — A ruiva perguntou, abrindo um sorriso largo e totalmente canalha no meio da febre.

XXX

Tal qual Jesus, a ruiva ressuscitou triunfante no terceiro dia, mas sabia que ainda não estava cem por cento.

Por hábito, acordou primeiro que Lorena, saltou da cama na pontinha dos pés e ligou direto para a floricultura, depois fez um pedido no Ifood na padaria favorita da esposa.

Antes do horário habitual, já estava de banho tomado, com um buquê e um café da manhã digno de novela, com tudo o que a esposa mais gostava de comer. Com habilidade, a ruiva escreveu um bilhetinho, colocou perto das flores e optou por esperar a esposa acordar, ela já passou duas noites das arábias, nada mais justo que deixá-la dormir o quanto quiser.

Tinham esquecido de fechar as cortinas na noite anterior, era função da ruiva, e o quarto estava mais claro que o de costume, a ruiva seguiu apenas contemplando a esposa: o movimento sutil da caixa torácica, a boca carnuda entreaberta, os cílios longos, as mãos esguias e delicadas, o pescoço branco, os cabelos formando um leque na fronha… e sentia tanto amor, mas tanto, que tinha vontade de chorar.

Como se sentisse toda aquela observação, Lorena abriu os olhos devagar, piscando com a claridade e Eduarda sentiu todas as borboletas se agitando em seu estômago.

— Você tá melhor? — A morena perguntou preocupada — Tá sentindo alguma coisa?

— Tô sentindo sim-

— Meu Deus, amor, então cuida! Vamos pro hospital agora mesmo! — Lorena falou, já fazendo menção de se sentar em pânico, mas a ruiva não deixou: segurou a esposa com firmeza e carinho pelos pulsos e a puxou de volta para o aconchego macio do seu peito

— Tô sentindo muito amor pela minha esposa linda, é isso que eu tiê sentindo. — A ruiva falou e Lorena negou com a cabeça — Mas tô bem, meu amor, me sentindo bem de verdade!

— Você tá tão cheirosa! — Lorena falou respirando no pescoço sardento, enviando arrepios por todo o corpo da ruiva.

— Acho inclusive que já consigo ir para a academi-

— Para de graça, Eduarda! — Lorena falou sorrindo e Eduarda puxou a morena pelo queixo, selando os lábios das duas, uma, duas, três vezes.

Seguiram naquele chamego por sabe-se lá quanto tempo e Lorena acabou dormindo novamente. Eduarda seguiu deslizando os dedos suavemente pela nuca e pelas costas da esposa, totalmente boba.

— Você quer dormir mais um pouco? — A ruiva perguntou quando notou a esposa sentando devagar.

— Acho que agora, tô revigorada! — Lorena falou sorrindo com a cara amassada, o que fez a ruiva derreter automaticamente — Que horas são?

— Quase nove horas! — Eduarda falou encarando o relógio do celular e permaneceu deitada com os braços atrás da cabeça.

— A gente precisa levantar, tomar banho, comer…

— Vamos começar pelo banho! — Eduarda falou sorrindo — Ver você pelada aumenta muito minha imunidade!

Lorena estava genuinamente feliz e aliviada pela esposa ter acordado melhor, ela tá noventa por cento! Passou a mão na minha bunda duas vezes enquanto a gente andava para o banheiro.

— Tô com uma fome de leão, você quer cappuccino, meu amor? — Lorena perguntou indo na frente no corredor.

A morena parou sorrindo ao encarar a mesa digna de novela diante de si e principalmente, os girassóis com as margaridas, claro que ela foi lá cheirar. Eduarda seguia deliciada em ver a esposa sorrindo enquanto avaliava as delícias dispostas pela mesa, nossa, eu amo esse alfajor vegano!

— “Graças a Deus, a dengue já passou… Mas quanto ao dengo, só você pode me ajudar! Obrigada por cuidar de mim tão bem, acho que vou ficar doente mais vezes, te amo! Com amor, sua Duda.” — Lorena leu sorrindo de orelha a orelha — Você nem invente de ficar doente de novo! — A morena falou encurtando a distância entre elas e enterrando o rosto no pescoço de Eduarda, deixando vários beijinhos na região.

— Te amo demais, demais, demais! Sou a mulher mais sortuda do mundo! — A ruiva falou, abraçando a cintura de Lorena e sorrindo largo.

— Já que você tá falando que tá tão boa e recuperada assim... eu vi esses dias no Instagram uma propaganda de um acampamento rústico na beira da cachoeira que parecia tã-

— Amor, acredita que a minha febre acabou de voltar do nada? Tô até delirando aqui! — Eduarda falou na hora, fechando os olhos e fazendo cara de dor.

Lorena gargalhou alto, abraçando a esposa ainda mais forte e balançando a cabeça diante de tamanha picaretagem.

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