Capítulo 11

Conhecendo amiguinhos, premiação, loiras são do diabo e operações perigosas

— Meu amor, você quer alguma coisa daqui? Algo para comer? — Lorena perguntou num tom amoroso da cozinha.

A morena estava ansiosa por aquela tarde e principalmente por aquele momento com a esposa. Há dias, tudo estava uma loucura e finalmente, as coisas estavam normalizando.

— Não, meu amor! — A ruiva respondeu, soltando um bocejo gostoso enquanto sorria para a tela do celular ao ver as fotos mais recentes no grupo da família: Catarina, Breno e as crianças na fazenda do Zé Maria, numa sessão de fotos improvisada com o cabrito Alfredo Frajola — Só você mesmo!

A semana da delegada seguia com alguns horários meio malucos e alguns plantões na madrugada, mas ela estava vindo dormir em casa quase todas as noites, era uma mulher de palavra! Mas tudo tinha um preço, ainda mais aos sessenta anos! E agora, num dia de folga, depois de ter feito nada, seguido de nadinha e mais um pouquinho de nada, na companhia da esposa, a ruiva ainda estava cansada.

Lorena vinha falando daquele filme há alguns dias, prometendo mundos e fundos, um grande plot, enquadramento fantástico, fotografia impecável… e mesmo assim, ruiva sentia em todos os poros que iria ser mais um daqueles dramas inteligentes, cult demais e que ela terminaria com cara de tacho, sem entender nada, ao passo que Lorena faria grandes descobertas sobre a vida e sobre a humanidade… Por mim, era Se Eu Fosse Você, mas se é esse que a minha mulher quer ver…

A morena voltou linda da cozinha, com sua vasilhinha cheia de pipocas, é a maior pipoqueira que eu conheço e um potinho com morangos e kiwis cortadinhos, minha esposa precisa comer alguma coisa também!

— Para você, meu amor! — A morena falou estendendo as frutinhas e sorriu ao ver a esposa sorrindo.

— Obrigada, meu amor! Você viu as fotos no grupo? Da Cat e dos meninos lá com o Zé e o Alfredo?

— Amor, eu vi! Você viu como nosso Alfredinho tá gordinho? Coisa mais fofa! — Lorena falou e Eduarda sentiu vontade de apertar as bochechas da esposa na mesma hora!

— Eu ri com a cara da Aninha nas fotos! Ô menina cheia de espetáculos! — Eduarda falou sorrindo, amo muito, não tem como!

— Ela tem a quem puxar! — Lorena falou, encarando a ruiva de canto de olho com um ar divertido — A KitCat falou que talvez faça algum ensaio de fotos por lá, acho que vai ficar lindo! O Tunico quer ser fazendeiro a todo custo agora!

— Morri de amores com a foto do pé bisnaguinha dele na bota! — Eduarda falou procurando a foto de novo e apontando a tela para a esposa.

— Lindo! Você viu o quarto maravilhoso que eles ficaram? O tamanho daquela hidromassage-

— Você lembra que eu sugeri que a gente ficasse em um daqueles quando a gente foi lá, mas você optou por dormir na fumaça e no chão?

Lorena riu com a resposta da esposa.

Eu não consigo ser imune a essa mulher, acho que é patológico o tanto que eu amo!

— Ah, meu amor… Mas foi pela experiência! — A morena falou tentando convencer de alguma forma.

— De quase morte, né? — Eduarda falou sarcástica e ganhou um beijinho, ficou mole na hora — Me prometeram amor lentinho na graminha e eu ganhei foi dengue! — a ruiva falou indignada cruzando os braços e mastigando forte o kiwi e Lorena não se aguentou, como pode ela ser a criatura mais engraçada que já pisou na terra?

— Quando a gente for lá de novo, vamos pegar uma suíte maravilhosa, com janela para aquele campo lindo, nosso filhote berrando bem alto… Vai ser lindo! Aí a gente vai fazer um amor bem gostosinho na cama king e podemos competir pra ver quem geme mais alto e-

— Meu amor! —Eduarda interrompeu, surpresa, soltando uma risada de pura incredulidade com a audácia da esposa.

— Dessa vez, vamos cumprir, hein!

— É verdade! Agora anda, senta aqui pra eu poder me concentrar no filme! — A ruiva pediu e assim que Lorena sentou, ela se aconchegou na morena, se for pra ficar sem entender nada, que seja pelo menos colada na minha mulher!

Deram o play e…

Após uns vinte minutos de filme, com uma trilha sonora exótica, falas monótonas e personagens sem carisma algum, ninguém sabia que a ruiva estava fazendo um esforço hercúleo para manter os dois olhos abertos. Já não sei mais se o problema é a menina ou se é a mãe que morreu, drama demais! Eduarda virou um pouco o rosto, de forma discreta, para não levar um carão por não estar prestando atenção e sentiu um mix de amor e descrença, como que essa mulher casou comigo? Já que Lorena estava totalmente envolvida na trama, nem os olhos piscava.

Que lindo o perfil dela… O nariz lindo, a sobrancelha perfeita, o olho mais lindo que já vi na vida, a bochecha e a covinha que aparece sempre quando ela mastiga uma pipoquinha! Será que ela sabe que é linda? Eu falei hoje umas cinquenta vezes, mas será que é o suficiente? Será que ela já entendeu isso?

— Meu amor, você é linda! — A ruiva falou baixinho e aproveitou para deixar um beijinho na têmpora da esposa, que inclinou a cabeça pedindo mais carinho e claro que Eduarda deu!

— Te amo! — Lorena falou e beijou a mão da esposa — Você quer deitar? — Lorena perguntou já arrumando as almofadas no sofá.

Que sequência de palavras completamente encantadoras, perguntando se santo quer reza! É tudo o que eu mais quero, meu amor!

— Te amo! demais!

A morena se deitou no "L" do sofá e acomodou a ruiva perfeitamente colada ao seu corpo, com a cabeça de Eduarda apoiada suavemente em seu peito. Manteve os dedos entrelaçados aos dela, distribuindo beijinhos carinhosos nos nós dos dedos da delegada enquanto a outra mão desenhava círculos lentos e relaxantes nas costas da ruiva. Num movimento corriqueiro, Lorena puxou gentilmente um dos joelhos de Eduarda, posicionando a perna da esposa confortavelmente por cima de si.

Não deu outra: a sala fresquinha, as duas deitadinhas de chameguinho, um filme de qualidade muito duvidosa passando… alguns instantes depois, Lorena sentiu a respiração da ruiva ficando mais lenta e sorriu satisfeita automaticamente.

Finalmente meu plano deu certo! Só pensa em trabalhar, em ir andar, treinar! Tem que dormir, meu amor! Descansar!

E ficaram ali por um bom tempo. Genuinamente, Lorena tentou focar apenas no filme e até deu certo por alguns minutos, mas quando Eduarda se aninhou com o rosto perto do pescoço da morena, ela não resistiu. Hora ou outra distribuía uma sequência de beijinhos lentos e cheirinhos pelo rosto da esposa e se perdia ali.

Como todo filme cult demais, aquele também tinha duração de quase três horas e a ruiva abriu os olhos lentamente, enquanto os créditos subiam, meu Deus, dormi o filme inteirinho. Olhou de relance para a esposa, e viu que Lorena também estava dormindo e sorriu.

XXX

— Meu amor, você gostou do filme? — Eduarda perguntou sonsa quando sentiu Lorena se mexer e alcançar o celular para olhar a hora.

— C-claro, meu amor! É ótimo! — a morena respondeu com A MAIOR cara de pau do mundo.

Amo quando ela fica toda engraçadinha assim, não sabe de nada do filme e querendo dizer que sim, só porque eu devo ter dormido primeiro! Ai, ai, Lorena Ferette Fragoso, você é minha vida inteira mesmo!

— É, né? Interessante demais! Todas as nuances, os detalhes, a profundidade poética, tudo, realmente… Lindo! O final me surpreendeu! — Eduarda falou se virando para encarar os olhos verdes, segurando o riso — Você gostou?

— D-do final… — Lorena deu uma gaguejada sutil — É-é c-claro! Encantador! — A morena respondeu cínica, sustentando o olhar.

— Você achou? Mesmo quando a Bruna esfaqueou o Rafael? — Eduarda falou num tom de puro choque fingido e viu os olhos da morena se arregalarem.

— E-ela fez isso?! — A morena perguntou descrente e curiosa, encarando os olhos castanhos em pura expectativa.

— Eu não faço ideia, meu amor… Apaguei e só acordei quando estavam subindo os créditos! — A ruiva falou sorrindo e Lorena riu também, depois empurrou de leve a esposa.

— Rá-Rá como você é tão engraçadinha! — Lorena falou tentando ficar séria, falhou assim que a ruiva fez a cara mais adorável de todos os tempos.

— Engraçado como você é a mulher mais linda que eu já vi na vida! — A ruiva falou e encurtou a distância, num beijinho casto.

Permaneceram deitadinhas no sofá por mais alguns minutos, com as duas disputando para ver quem cheirava mais o pescoço de quem e Eduarda se deu por vencida quando Lorena mordeu sua orelha e seguiu com uma sequência implacável de beijinhos estalados pelo rosto da ruiva, finalizando com cheirinhos nos olhos e na lateral do nariz.

Assim ela vai ganhar sempre!

Depois do banho e do jantar, a ruiva começou a se dar conta de que talvez, extrapolou no tempo do cochilo à tarde e estava com energia para capinar um lote, derrubar uma parede no soco, correr cinco quilômetros…

— Meu amor… você tá bem? — Lorena perguntou marcando a página que estava com o dedo indicador e sentando no sofá — Acho que contei você indo e voltando umas quinze vezes daqui pro nosso quarto, isso sem falar na fiscalização do perímetro lá fora…

— Ai, meu amor… Eu acho que dormi mais do que deveria, agora tô completamente sem sono. — A ruiva falou se jogando bruscamente no sofá.

— Sem sono, é? — Lorena perguntou com aquele tom.

Eduarda respirou fundo, encarando a esposa, buscando qualquer sinal e tipo de confirmação de que aquilo se transformaria num chamado para o acasalamento e torcendo para que fosse verdade, pois ela estava mais que pronta!

— S-sim, meu amor… Sem nenhum pingo de sono! — Eduarda falou sorrindo, com a saliva escorrendo, já!

— Sabe… — A morena começou fechando o livro — Eu sei de uma forma bem delícia de a gente gastar essa energia acumulada… — Lorena falou bem devagar, saboreando as palavras.

Eduarda seguia ouvindo tudo com atenção, como se a esposa estivesse prestes a entoar um feitiço…

— S-sabe, é? — Eduarda falou já inclinando o tronco para cima da esposa, que estava sentada com aquele sorriso.

Num movimento treinado e com a ajuda das mãos habilidosas de Lorena, em instantes, a ruiva já estava por cima da morena, que deslizava as mãos suavemente pelas costas sardentas e dava leves apertões nos ombros torneados da delegada.

— É claro que sei! — Lorena falou contra os lábios de Eduarda.

AAAAAAAUUUUUUUUUUUUUUU MIM DÊ PAPAAAAAAAI!!! BABY, I’M PREYING ON YOU TONIGHT, HUNT YOU DOWN, EAT YOU ALIVE, JUST LIKE ANIMAAAALS ANIMAAAAALS…

Num movimento quase que coreografado, Lorena apoiou as duas mãos nos ombros da ruiva e a empurrou, surpresa, a mulher ficou sentada no sofá com cara de tacho.

— M-meu amor?

— Vem, vamos trocar de roupa e vamos fazer uma caminhada ao ar livre! — Lorena falou completamente animada pulando do sofá, sabendo exatamente o que tinha acabado de fazer.

— C-caminhar?

— É. amor! Gastar as energias, vem! — Lorena falou já seguindo para o corredor.

— Achei que a gente ia fazer um cardio na horizontal! — Eduarda murmurou baixo.

XXX

— Vai, meu amor, me apresenta aos seus amiguinhos! — Lorena pediu de forma animada e travessa.

— Meu amor, quando você fala assim, parece que a gente está num recreio da escola e não numa batalha de vida ou morte que depende totalmente de peças aleatórias e de mentes brilhantes! — Eduarda falou séria, segurando a mão da esposa.

Realmente Lorena não brincou quando disse que queria dar uma caminhada ao ar livre. Depois de três voltas pelo quarteirão familiar do condomínio, uma ideia surgiu na mente da morena e Eduarda já tinha andado tanto, que estava se sentindo uma peregrina. As duas seguiram de mãos dadas durante todo o trajeto e quando a ruiva deu por si, já estavam na pracinha.

De longe, já era possível ouvir o falatório animado e amigável dos homens jogando.

— Ô seu CORNO, isso aqui é um jogo em DUPLA!

— E parece que você tá jogando contra a rapariga do seu pai!

Lorena seguia rebocando a ruiva pelo braço, as duas de mãos dadas e a morena queria rir da cara que Eduarda estava fazendo. A morena seguia encantada com toda a estética do lugar: uma praça meio abandonada, uma mesa improvisada com uma tábua de madeira, os caroços de feijão para marcar os pontos e vários Matusalém… Realmente, um oásis!

— Oxe, oooooolha quem resolveu aparecer!

— Nossa cabelinho de fogo!

— Boa noite, pessoal! — Eduarda falou tímida, acenando de leve com a mão livre — Essa é a minha esposa, a Lorena… Tem uma vaguinha pra gente jogar uma partidinha?

— Boa noite! — Os homens responderam em coro.

— Mai, a senhora é a dona das pedras!

— Você quem manda, minha patroa!

— Boa noite, senhores! — Lorena respondeu com um sorriso colossal — Me apresenta os seus amiguinhos, amor! — A morena falou a parte do “amiguinhos” baixo, só para irritar a ruiva.

Eduarda trocou um rabo de olho com a esposa, que travava uma batalha fortíssima para não rir…

— Aquele é o Zé Xiranha, o Nino, seu Bartolomeu, seu Erasmo e Romero! — A ruiva falou e os homens foram dando leves acenos de cabeça, conforme foram mencionados.

Zé Xiranha? Estou encantada! E poxa… Nenhum Enzo! Em 1895 acho que esse nome não era muito popular!

— Juntos, eles são o esquadrão suicida? — Lorena murmurou baixo e Eduarda estava a ponto de chorar com tanta perturbação.

— Cabelinho de fogo, pode se achegar, a gente vai só terminar essa daqui e vocês duas entram!

A ruiva puxou Lorena gentilmente e acomodou a esposa num dos bancos de mármore da pracinha, permanecendo atrás da morena, para que ela conseguisse apoiar as costas e ficar o mais confortável possível.

Lorena, por sua vez, não conseguia sequer diminuir o sorriso e todas as vezes que o mundo das pedras de dominó colidia com a tábua de madeira e um “PÁ” estalado ecoava, além de fechar os olhos por microssegundos, ela olhava para cima e buscava os olhos da esposa, que sorria e mexia as sobrancelhas, como quem diz “Tá vendo? Aqui o sistema é bruto e é coisa séria!”

Logo depois de uma pancada, Lorena olhou para cima e viu a ruiva se aproximando. Com cuidado, Eduarda deu um beijo casto na testa da esposa e…

— Homem-aranha, beijinho igual ao Homem-aranha! — Lorena falou fazendo um biquinho e pôde assistir a esposa piscar os olhos bem devagar e tentar com todas as forças, não rir.

Claro que a ruiva obedeceu e selou os lábios da morena rapidamente, de ponta-cabeça.

Por sorte ou por azar, Romero bateu de carroça e a buchuda acabou terminando mais cedo. Eduarda deu um aperto leve nos ombros da esposa, que a encarava sorrindo e as duas ocuparam seus respectivos bancos

— Cabelinho de fogo disse que a senhora não gosta muito quando ela começa a jogar… — Romero soltou na rodinha como se nada e Eduarda quase caiu pra trás.

É FODA, VAI SER HOJE QUE EU VOU PRECISAR BATER NUM IDOSO NO MEIO DA RUA! QUE VELHO BOCUDO!

— Ô ROMERO! Deixa de ser fuxiqueiro! — Nino interveio, a veia do pescoço saltando, já — Isso é uma qualidade de homem da porra, viu…

— E por acaso eu sou baú? — Romero falou indignado e repetiu essa mesmíssima frase umas vinte vezes por cima da fala do amigo.

Lorena ria tremendo os ombros e perdeu absolutamente tudo, quando encarou Eduarda, fuzilando o senhorzinho com os olhos, sentada à sua frente.

— Ai… — Lorena falou buscando fôlego — É que a minha esposa acaba se empolgando as vezes, sabem? Ela não é muito boa em ter moderação, mas quando soube que era com esse elenco, liberei na mesma hora!

— Viu, ela liberou você de vir jogar, menina! Apareça!

— Eu quero mesmo ver se vai ficar me convidando depois que eu deixar vocês mais rasos que o chão aqui! — A ruiva falou debochada.

— Ela é quentura mesmo!

O jogo finalmente se iniciou e além de contar os pontos, Eduarda se preocupava muito com o bem-estar de sua amada, que estava tão atenta ao jogo que mal olhava para a cara da ruiva.

— Com licença, senhores, essa pedrinha aqui bate? — Lorena perguntou debochada colocando gentilmente a pedra na tábua e sorriu ao ver o rosto da esposa se iluminar.

A cena se repetiu por muitas vezes e Eduarda estava completamente encantada e orgulhosa com aquela versão da esposa.

ESSA DEUSA, LINDA, INTELIGENTE JOGADORA DE DOMINÓ, OPRESSORA DE IDOSOS LOBA DO JOGO É MINHA MULHER, MINHA, MINHA, MINHA, CASOU COMIGO!

— IIIIIHHH, rapaz… A menina não veio para brincar não, viu!

— Tai doido, zói de gato e cabelo de fogo… tem como bater, não!

A morena estava particularmente encantada, ganhei tantas partidas e até mesmo um apelido!

— Homem, tenha fé! Só preciso dar um toque nessa ruiva assim — Zé Xiranha falou e Eduarda bufou ao tocar — E esperar que meu amigo faça o trabalho dele ali.

— Pois eu vou ter que comer o seu chicote!

— Isso não é uma derrota, né? Ô desgraçado-

— E VOCÊ QUER QUE EU TOQUE TENDO PEDRA NA MÃO, É? DIGA, DIGA, DIGA!

— Senhores, sem querer atrapalhar a picuinha, mas… O jogo está fechado! — Lorena falou tentando manter a seriedade, num tom que deixou Eduarda completamente ouriçada.

— Apoi te dana, Zé! Comesse meu dozão! Tem tanto ponto aqui que dá pra suturar uma cirurgia!

— Eu tenho onze! — Eduarda falou com cara de tristeza, mostrando as peças.

— Apois, chorou! Eu só tenho sete! — O homem falou orgulhoso e mostrando as pedras.

— Interessante, mas… Sete é menor que dois? — Lorena falou exibindo a carroça de branco e um pio de branco, a Eduarda não esperava nunca por isso, ó a boca aberta ali!

— ISSO É UMA PORRA!

— É TIRAÇÃO, ESSAS DUAS!

— Meu amor! — A ruiva exclamou animadíssima e orgulhosa! Vamos largar tudo aqui e ir para Las Vegas, viver de cassinos e apostas, QUE MULHER É ESSA, MEUS AMORES? SORTE NO AMOR, SORTE NO JOGO… Ò A CARA DO VELHOTE, VAI TOMANDO, FILHÃO!

As duas encerraram a noite se despedindo dos idosos, que convidaram as duas para voltar o mais breve possível e Eduarda foi o caminho inteiro exaltando a performance impecável de Lorena.

E a bicha era performática mesmo, depois do show no dominó, decidiu dar um show no colchão também.

XXX

Na delegacia, as coisas seguiam tentando tirar a ruiva do eixo! O que não era difícil, já que a paciência dela era muito seletiva e só funcionava bem na presença de uma certa morena de olhos verdes…

Eduarda precisava imprimir apenas duas páginas do inquérito restantes, mas a impressora fez questão de engasgar, justamente ali e se tinha uma coisa que tirava completamente a paciência da ruiva, eram impressoras… Máquinas traidoras! Se alimentam da tristeza e do desespero humano!

Depois de apertar todos os botões, dar dois tapinhas carinhosos, desligar e ligar da tomada, ameaçar jogar ela no lixo e assistir a um tutorial no youtube feito por uma criança de uns doze anos, ensinando como solucionar o problema, a ruiva finalmente viu e ouviu a impressora trabalhando.

— Página cento e trinta e sete, cento e trinta e oito, cento e trinta e nov… ARGH! Que porra é isso aqui… EU VOU ESTOURAR ESSA DESGRAÇA! — Eduarda falou entredentes.

PrezadaSenhoraEduardaFeretteFragosogostariamosdeparabenizá-lapel- O QUE????????

Eduarda piscou os olhos uma, duas, três vezes, tentando decifrar aquele amontoado de letras e, à medida que a mensagem fazia sentido no seu cérebro, a veia da sua testa saltava num nível perigoso. Busquem um balde pois vou ter um derrame.

— Eu não acredito... Macedo… MACEDO! — Eduarda berrou, fumegante, o eco fazendo os vidros da sala tremerem.

VAI SER HOJE QUE EU VOU ESGANAR ESSE DESGRAÇADO, ESSE CARA QUER ME DESTRUIR! ME FAZER INFARTAR! ISSO SÓ PODE SER KARMA DE VIDA PASSADA, DEVO TER DADO A TESOURA PARA DALILA CORTAR OS CABELOS DE SANSÃO… NÃO É POSSÍVEL! E que fique claro que pelas mulheres, eu faria isso!

— O-oi… Oi, doutora! — O homem falou espantado botando a cabeça na porta.

— Você pode me explicar isso daqui? — A ruiva falou entredentes e apontando uma folha de papel ofício na direção do homem, mas ela tremia tanto de ódio que ela mesma duvidava que ele estivesse conseguindo ler alguma coisa.

— A senhora tá tremendo, doutora… — Ele falou espantado — Será que é Parkinson? Eu já li que mulheres que vivem sob muito estresse tem um-

— MACEDO… — Ela falou alto e foi baixando o tom gradativamente — Não testa minha paciência! — Ela falou em tom de ameaça e ele engoliu seco.

O homem pegou a folha de papel como se estivesse segurando uma pedra radioativa de Césio 137, mas na verdade, o conteúdo do ofício era apenas uma parabenização. Eduarda iria receber o prêmio “Mais por elas”, entregue pela promotoria de justiça do estado à profissionais que têm atuações relevantes e significativas com políticas públicas de atenção às mulheres. Desde que assumiu a delegacia, a ruiva fez daquilo uma missão: iria ajudar o máximo de mulheres que conseguisse e conseguiu!

— A-ah, d-doutora… Não sabia que is-isso ia vir para cá! — Ele falou com um sorriso amarelo — P-pensei que ia para a impressora lá de fora, m-mas antes que a s-senhora fique brava, t-todo mundo da delegacia votou a favor de lhe inscrever nesse prêmio! — Ele falou como se aquilo fosse justificativa forte o suficiente.

— Ah, foi? — Eduarda perguntou quase cuspindo as palavras — E EU QUERO UMA LISTA DO NOME DESSES TRAIDORES! QUERO O NOME DE TODOS! — A ruiva desferiu uma pancada na mesa de madeira do birô que fez o porta-canetas pular.

— T-traidores? C-como assim, doutora? — O homem perguntou e Eduarda apenas massageava as têmporas — A gente inscreveu a delegacia para participar da premiação só porque a senhora é uma mulher e é completamente competente! Tanto, que ganhou o prêmio!

— Você não entendeu, Macedo… — A ruiva falou quase chorando — Não entendeu nadinha… Lê, lê, leia quem assinou o documento!

— Tatiana Elena Cristina Aguilar, promotora de justiça… — O homem falou com uma interrogação enorme na cara — O-o que é que tem?

— Leia as iniciais de cada nome!

— “T”... “E”... “C”... “A”... TECA! — Ele falou quase como um “bazinga” de Sheldon Cooper.

— Essa mulher é minha ex, Macedo! Minha ex! Fez um inferno sem tamanho na minha vida no passado… A Lorena vai me matar! XXX

Lorena seguia sentada na cafeteria do centro, amava ir ali com Eduarda, gostava do cheiro do lugar e achava os janelas laterais ótimos para leitura, às vezes ia ali e perdia a noção do tempo. A morena não sabia ao certo há quanto tempo estava ali e já tinha perdido as contas de quantas vezes tinha dissociado, mas com o rumo que aquela conversa estava tomando, nem café superfaturado ajudaria.

— Lore?

— O-oi, amiga, tava com a cabeça longe!

— O que você acha?

— S-sobre o que?

Maggye revirou os olhos na mesma hora, indignada com a desatenção, e Lorena aproveitou o gancho para beber mais um gole do seu café.

— Sobre a gente se reunir sexta-feira para uma '’noite das garotas’' e… eu finalmente dar o troco no Júnior! — Maggye falou, abrindo um sorriso triunfante, enquanto Lorena a encarava em absoluto silêncio, apenas piscando os olhos bem devagar.

— Mag…

— Amiga, vai ser ótimo! A gente vai, vou chamar as meninas do hot yoga também! — a morena falou animada — Vai ser quase como nos velhos tempos!

A cada palavra qua morena ia dando, o plano ia ficando ainda menos atrativo para Lorena… Só fiz uma aula, mal conheço as meninas e se a Eduarda estiver de plantão, aí é que não vou mesmo!

— Mag, você sabe que eu sou sua amiga, não sabe? — Lorena perguntou com a voz mais doce e calma do mundo, estendendo a mão por cima da mesa, encontrando os dedos da amiga — Acho a ideia da noite das garotas bem legal, mas com esse intuito de fazer ciúme e “dar o troco”… Só se a gente tivesse 25 anos de novo! — Lorena falou séria e gentil.

Lorena fez uma pausa, avaliando mentalmente se valia a pena tocar naquelas pautas novamente, mas era seu dever como uma boa amiga, não era? Orientar e falar!

— Amiga, o Júnior é um homem adulto e você é uma mulher incrível e madura. Os dois são bem bem grandinhos, não tem o menor sentido ficar se desgastando nesses joguinhos. Se ele gosta de ir jogar o futebol dele de fim de semana e depois tomar umas cervejas com os amigos, deixa o homem ir! Ou então, se você faz tanta questão da companhia dele, pede para ir junto uma vez ou outra e—

— Ir junto? Deus me livre! Odeio futebol! — Mag falou e fez uma careta, que fez Lorena sorrir na mesma hora.

— Também não sou a maior fã, mas fiz questão de ir com a Eduarda esses dias… — Lorena relembrou, o olhar suavizando e um sorriso apaixonado nascendo nos lábios ao pensar na ruiva, ela com aquele uniforme… ui — Casamento é sobre isso, às vezes: ficar feliz com a felicidade do outro. Demonstrar interesse em querer ver o outro bem.

— E-eu sei, m-mas…

— Só acho que esse cabo de guerra de vocês não tá fazendo bem para nenhum dos dois! É só analisar como vocês estão… — Lorena falou e a amiga respirou fundo — Mas nós vamos sim, na sexta! Vou convidar minha mulher para ir também! — Lorena colocou logo o nome de Eduarda na conversa, mas sabia que a ruiva trocaria mil vezes o rolê por elas de denguinho em casa.

XXX

TOC-TOC!

Eduarda olhou cansada para a porta. Se for mais alguma urgência, vou largar de mão! Chega de desarmar bombas, por hoje! Estava cansada e além disso, com a consciência levemente pesada.

Acho que pesei a mão com o Macedo… O cara só queria me homenagear, não tinha como saber que o demônio vinha entregar o prêmio, né?

— Pode entrar!

A ruiva sorriu automaticamente ao ver a esposa apenas com a cabeça para o lado de dentro da sala e depois de dar o sorriso mais lindo do mundo.

Era sempre um renovo quando ela se reencontravam, independente do contexto ou do lugar. As duas compartilhavam da mesmíssima sensação de alívio e bem-querer… O teu amor é gostoso demais, teu cheiro me dá prazer, quando estou com você, estou nos braços da paz…

— Meu amor? — A ruiva falou sorrindo largo e genuinamente feliz — Que surpresa deliciosa! — Eduarda emendou já se levantando da cadeira com um sorriso quilométrico, num pulo, abrindo a porta por completo e babando ao se deparar com aquele monumento — Tá tudo bem? Você nem me avisou que vinha, pensei que estava com a Mag-

— Não tinha como fazer uma surpresa se eu te avisasse, né! — Lorena falou sorrindo, entrando na sala e revelando uma sacola de papel pardo — Trouxe um lanchinho da cafeteria pra gente comemorar!

— Comemorar, é? Realmente, receber uma deusa na delegacia carece de comemoração mesmo! — Eduarda falou segurando o rosto da esposa suavemente e selando os lábios de forma carinhosa, saboreando ao máximo aquele momento e já se aproveitando para deslizar o nariz pelo pescoço cheiroso da morena. Como pode ela ser a mulher mais cheirosa do planeta terra?

— Você é muito besta! — A morena falou tentando soar séria, mas era impossível quando se estava mole daquele jeito — Tô falando da premiação!

Eduarda travou e se fosse desenho animado, teria caído dura no chão ou até mesmo, esbarrado numa parede.

ESPERA AÍ, PERAÍ, PERAÊ…

— C-como? — Eduarda perguntou só para confirmar o que tinha ouvido, Deus, que eu esteja alucinando, amém.

Socorro, Deus… SOCORRO DEEEEEEEEUSSS.

— Comemorar o prêmio, amor! O que você vai receber… Eu ainda não sei o nome ou os detalhes, mas já estou muito orgulhosa! — A morena falou enlaçando a cintura fina da ruiva, que quase tocou o queixo no chão em completo choque.

DEUS MAIS UMA VEZ SEGURA MINHA MÃO! MINHA ALMA AFLITA PEDE TUA ATENÇÃOOOO, CHEGUEI NO NÍVEL MAIS DIFÍCIL ATÉ AQUI…

— Que foi? — A morena perguntou, achando graça da reação estática — Não precisa ficar me encarando com essa cara de susto, boba! O Macedo me ligou hoje cedinho, avisando que tinha dado tudo certo com a inscrição!

— O-o Macedo? — A ruiva falou num fio de voz, vou ter um teto-preto aqui.

E EU PREOCUPADA QUE TINHA PESADO A MÃO! MEU ERRO FOI NÃO TER PESADO A MÃO NA CARA DELE! É DE FUDER MESMO! NA MINHA VEZ, ATÉ GAMBÁ QUER USAR PERFUME! MAS TAMBÉM, PODEM ANOTAR AÍ E ME COBRAR DEPOIS, QUANDO EU PEGAR ESSE DESTRUIDOR DE LARES ELE VAI VER SÓ UMA COISA! PUTA QUE PARIU QUE HOMEM DIABÓLICO!

— Sim, meu amor! Você acha que quem forneceu os seus dados? — Lorena perguntou semicerrando os olhos e balançando as sobrancelhas, se achando! — Eu também sou da inteligência e você foi espionada, delegada! — A morena falou sorrindo e beijando a bochecha da ruiva de leve.

SE O CAPETA TÁ AQUI, QUEM TÁ TOMANDO CONTA DO INFERNO, PORRA? TUDO BEM QUE NENHUM HOMEM PRESTA, MAS EU TÔ LIDANDO COM O PIOR DE TODOS!

— E-ele já avisou do p-prêmio, é? — A ruiva falou e engoliu seco.

— Avisou, meu amor… A gente pode reunir o pessoal e sair pra jantar! Seu pai, a KitCat, as crianças, nossos amigos… — A morena falou empolgada, já animada com a ideia de reunir todo mundo para celebrar a esposa — O que foi, que cara é essa?

— N-nada, nadica… E-e o que ele c-contou exatamente? — A ruiva perguntou quase miando, meu Deus até minha voz tá me abandonando agora!

— Ah, meu amor… Que era alguma coisa do Ministério Público, se não me engano, mas não sei muito bem dos detalhes técnicos, porque? Você tá com uma cara engraçada!

— M-meu amor… Preciso te contar um detalhezinho, só… — a ruiva falou com os dedos indicador e polegar muito próximos — C-coisa pouca s-sobre o prêmio… M-mas preciso que você seja mente aberta!

XXX

Eduarda estava petrificada, olhou para trás e se deu mal, virou uma estátua de sal. Completamente chick-chack-chock com a cena diante dos seus olhos:

Lorena Ferette Fragoso, a sua Lorena, sentada em seu birô, elegantemente com as pernas cruzadas e uma folha de ofício nas mãos: o bendito papel da premiação.

A ruiva observava cada microexpressão da esposa com atenção, cada respiração, sentindo o peito acelerado e a boca completamente seca, completamente dividida entre o absoluto horror e o completo tesão.

Pelo amor de Deus, olha essa mulher sentada na minha mesa, imagina: Delegada Lorena, SANGUE DE CRISTO TENHA PODER! Coisa de maluco, ia cometer delito todos os dias, rezando pra ela ser bem carrasca… Tô toda me tremendo com o que ela vai dizer, não quero brigar por nada e muito menos por causa da Teca, na verdade, quero cancelar o prêmio se isso for deixar ela chateada! Não tem prêmio que valha ela triste… Mas, porra, tô até salivando! Linda e elegante desse jeito, as mãos segurando o ofício, as pernas cruzadas na calça de alfaiataria, o cabelo impecável, os lábios desenhados lendo as palavras... Lindo, tudo lindo! Que mulher é essa, meus amores!

— Bom… — Lorena finalmente quebrou o silêncio, o tom de voz calmo e controlado arrancando Eduarda do transe — Eu jamais imaginaria que ela se tornaria promotora de justiça… Naquela época não tinha inteligência nem para entender que a minha mulher é minha, mas que bom que as coisas mudaram!

— Meu amor… — Eduarda falou com a cabeça meio baixa e ficou com vontade de rir da própria desgraça: A morena sentada na cadeira de delegada, ela na cadeira da frente, como se fosse suspeita de algo, se amar demais for um crime pode me prender delegada Lorena! — Se você estiver se sentindo mal ou desconfortável, eu peço pro Macedo ligar pra lá e cancelar essa pataquada toda-

— Meu amor, pelo amor de Deus… Que mané cancelar nada! Tô explodindo de tanto orgulho de você! Vem cá! — Lorena chamou, dando duas batidinhas na própria coxa.

CHEGA! ELA BATENDO NA COXA… CALMA PERERECA!

A ruiva levantou, como um cachorrinho que leva uma bronca sem ter culpa e sentou no colo da esposa.

— Eu jamais deixaria passar a possibilidade de você ter seu devido reconhecimento! Eduarda, você trabalha tanto, se doa tanto e acho que às vezes nem se dá conta do tamanho de tudo isso… Do impacto que a sua atuação tem na vida das pessoas! — A morena falou segurando a ruiva pela cintura — Você faz a diferença na vida das pessoas, meu amor e eu não poderia estar mais feliz! — A morena falou sorrindo largo, o que fez Eduarda sorrir na mesma hora.

— Eu sei, meu amor… — Eduarda falou passando os braços pelo pescoço da morena — Sou imensamente feliz e realizada com o meu trabalho… Mas nada disso vale, se você não estiver feliz, não adianta, não quero! — A ruiva falou baixinho com os olhos brilhando — Sei que a Teca foi um terror e tô falando por mim, não gosto nem de lembrar o inferno que ela fe-

— Meu amor, isso são águas passadas! — Lorena interrompeu, a voz serena e impecavelmente madura, deslizando a ponta do dedo indicador pelo nariz da ruiva, gesto antigo que sempre trazia paz — Nós não somos mais as mesmas e evoluímos tanto desde aquele término! Não vamos deixar uma coisa do passado atrapalhar um momento lindo, agora!

Eduarda encarou os olhos verdes familiares, completamente hipnotizada pela maturidade da esposa.

— Quem é a minha esposa?

— Eu! — A ruiva respondeu animada, como uma criança no parque, levantando um braço, o que fez Lorena rir.

— Vai comemorar esse prêmio com quem? — Lorena perguntou.

— Com você! — A ruiva respondeu mais baixo, encarando os olhos verdes e lindos, completamente, absolutamente rendida!

— Eu estou com você, meu amor! Te amo demais e só quero que todo mundo saiba o quão incrível você é! Não quero nem saber quem vai estar do lado de lá! — A morena falou sorrindo largo e puxando a esposa gentilmente pelo distintivo, para um beijo.

Como sempre, as coisas escalaram rápido demais.

Lorena aproveitou a oportunidade e deslizou a mão pelo quadril da esposa, dando uma apalpada de leve e como resposta, Eduarda a puxou para ainda mais perto, inclinando a cabeça para aprofundar o beijo e enfiando os dedos nos cabelos da morena, que gemeu baixinho em resposta.

Porra… Estar numa delegacia, beijando a Delegada Fragoso, que está sentada no meu colo e ainda sentir o distintivo roçando em mim… QUE TESÃO!

Um barulho do lado de fora fez Eduarda se afastar alguns centímetros, colando a testa na testa da esposa, com um sorriso incrédulo nos lábios, rezando silenciosamente pedindo sanidade mental para não fazer uma besteira deliciosa ali mesmo.

— M-meu amor — Lorena falou atordoada, com a respiração levemente ofegante — Você me deixa maluca!

— Você é muito perigosa, Lorena, muito! — Eduarda falou colocando uma mecha de cabelos atrás da orelha da esposa.

— V-vamos lanchar? — Lorena falou após algum tempo em silêncio tentando clarear as ideias, que só pensavam em peripécias sapecagens no birô da delegacia, encostada na parede de persiana, perto da estante com arquivos…

— É que você sempre me deixa com muita vontade de pular logo para a sobremesa! — A ruiva falou tentando buscar resquícios de noção e bom senso.

Engraçado como a Lorena consegue voltar rápido para a realidade, tô tentando controlar meus batimentos para não ter um derrame de tesão aqui e ela falando em lanchar! Nem lembrava mais do lanche!

A ruiva levantou passando as mãos pelos cabelos ruivos, tentando camuflar o sorriso toda hora. Lorena seguia maravilhada analisando o birô da esposa: os post-its colados nas bordas da tela do computador com a caligrafia familiar, a caneca velha como “Lorena” escrito e um dedinho de café…

— Ah, meu amor… Antes que eu esqueça! — A morena falou — A Maggye nos convidou para uma noite das garotas na sexta à noite.

— De novo? — Eduarda perguntou enquanto tirava os lanches da sacola.

— Bom… aparentemente, ela prefere sair de casa do que ter uma conversa séria e madura com Júnior!

— Meu Deus… As vezes amar é deixar ir, né? — A ruiva falou brincando.

— Eu concordo! — A morena falou — Mas no nosso caso, jamais deixaria que isso acontecesse!

XXX

A noite de sono pareceu ter passado muito rápido e Eduarda acordou mais quebrada que arroz de terceira… Porém, toda aquela preguiça e as dores no corpo evaporaram no exato milissegundo em que Lorena a puxou pela cintura, colando o peito quente nas costas da ruiva. A morena começou a distribuir uma sequência deliciosa e preguiçosa de beijinhos pelo ombro de Eduarda, travando uma briga silenciosa e charmosa contra a gola da camisa de algodão só para ter ainda mais acesso àquela pele macia.

A ruiva se afastou três centímetros e com um movimento habilidoso, arrancou a própria camisa, jogando a peça sabe-se lá onde e Lorena seguia com os beijinhos e um sorriso satisfeito enorme. A morena se apoiou em um cotovelo e encarou a esposa na penumbra, Eduarda estava completamente mole na cama, mas ainda operante!

— Se isso for um sonho, por favor, me deixe dormindo! — Eduarda falou manhosa com os olhos fechados, enquanto puxava a mão de Lorena para beijar devagarinho, um por um, os nós dos seus dedos.

— Se eu te falar que é real, te assusta ou te conforta? —Lorena sussurrou baixinho, a voz aveludada roçando a ponta da orelha da ruiva e enviando um arrepio gostoso por toda a sua espinha.

— Conforta, é sinal de que eu estou exatamente onde gostaria de estar! — A ruiva falou se virando na cama, encarando a esposa — Chega a ser injusto o jeito que você acorda linda e perfeita desse jeito!

— Ah, é? — Lorena perguntou beijando o queixo da ruiva — Acho injusto você tentar me levar na conversa ao invés de estar me beijando assim, ó!

A morena avançou num ritmo torturantemente lento, não tem para que ter pressa aqui, ninguém tá foragido! Os lábios se tocando com delicadeza, a respiração de uma se misturando à da outra. Quando o beijo começou a ganhar intensidade, com as mãos de Eduarda subindo firmes pelas costas de Lorena e a pele quente se roçando com desejo e carinho… Uma mecha rebelde do cabelo ondulado e cheiroso de Lorena voou diretamente para a boca de Eduarda.

A ruiva se afastou brevemente, sorrindo e as duas caíram na gargalhada juntas, ainda de testas coladas, os corpos tremendo de rir sob o lençol.

— Hum, delicioso! Cabelo cheiroso no café da manhã! — Eduarda brincou, tirando os fios da boca com cuidado e aproveitando para puxar Lorena pelo nuca, selando um beijo ainda mais profundo.

XXX

O clima na delegacia estava meio tenso, era sempre assim em dias de operação. A ruiva já tinha repassado o planos umas quarenta vezes na própria cabeça, repassou também as ordens aos envolvidos e não conseguia parar de sorrir nos intervalos em que ficava sozinha com os próprios pensamentos e o motivo era a própria esposa.

Lorena: Meu amor, você esqueceu o carregador no carro! Lorena: Quer que eu volte pra levar? Acho que vou ter um horário livre!

Eduarda: Não precisa, paixão! Eduarda: Acho que ainda estou com a cabeça nas nuvens 🤤🤤

Lorena: Nas nuvens, é? Lorena: E o que foi que houve?

Eduarda: Uma anja que eu tenho em casa Eduarda: A mulher me leva pro céu toda hora, me faz ver estrelas! Eduarda: Você! Eduarda: Graças a Deus que você existe e que é minha. Eduarda: Brigada meu Deus 🙏🙌

Lorena: Só para deixar registrado: já estou com saudade Lorena: A gente poderia repetir com mais tempo e calma, mais tarde 😋

Eduarda: POIS PODE CONTAR COMIGO PARA TUDO, MEU AMOR! Eduarda: MALPOSSOESPERARPRACHEGAREMCASA

Lorena: Eita… Lorena: Hoje é sexta! Lorena: Dia da noite das garotas! Lorena: 😖

Eduarda: MEU DEUS Eduarda: AS LÉSBICAS SEGUEM GANHANDO, SOMOS GAROTAS 🌈🌈🌈 Eduarda: 👏👏👏👏👏👏👏

Lorena: Com a Maggye, sua boba! Lorena: 😆

Eduarda: 😭 Eduarda: Eu já tinha esquecido… Eduarda: Mas não tem problema, eu espero! Eduarda: Ninguém ganha de uma mulher paciente!

Eduarda: E quem tem pressa pra comer, não degusta como deveria 😋

Lorena: Eu vou me lembrar disso mais tarde…

Lorena: Meu amor, vou precisar ir dar aula Lorena: Mas saiba que você tá na minha cabeça o tempo todo Lorena: Eu te amo demais! Lorena: Bom trabalho por aí e PELO AMOR DE DEUS, CUIDADO!!!!!

Eduarda: Bom trabalho, meu amor!! Lembre de beber água direitinho! Eduarda: Se der, vou te lembrar! Eduarda: Eu também vou precisar ir, tô só esperando o Macedo.

Lorena: Lembre que se você voltar inteira e sem nenhum arranhão… Lorena: Vou pensar em te dar uma recompensa! Lorena: ❤️‍🔥

Eduarda: Pode deixar! Eduarda: Confia: mais tarde você vai me dar! Eduarda: 🤤

Lorena: Besta! Lorena: 🙄🙄🙄🙄🙄 Lorena: Vou sim! QUE MULHER INSANA É ESSA? PUTA QUE PARIU, TÔ ME BABANDO PRA CHEGAR EM CASA! MEU AMOR, PODE CONFIAR QUE EU VOU CHEGAR INTEIRA: VOU USAR O MACEDO DE ESCUDO EM TODA E QUALQUER OPORTUNIDADE!

Como se fosse combinado, segundos depois o rapaz apareceu na porta.

— Bom dia, doutora! — Macedo falou animado ao ver a cara boa da chefe.

— Bom dia, Macedo! — A ruiva falou levantando e pegando os óculos escuros — Hoje é dia de rua!

— Tá toda felizinha hoje… Viu o passarinho azul, foi? — Ele falou caminhando ao lado da ruiva.

Se você soubesse… Falando em passarinhos, encontrei a periquita hoje de manhã!

— Dormi bem! — A ruiva falou tentando não rir dos próprios pensamentos.

XXX

A ruiva teve uma manhã desafiadora.

A delegacia estava investigando um crime que começou com um tombamento de um caminhão de carnes, disso, descobriram um esquema ilegal de lavagem de dinheiro com um lojista e a criação de animais em situação precária, totalmente de contra o que a vigilância sanitária prega.

Para Eduarda, a parte mais chata das operações era justamente aquela espera interminável sem ter nada para fazer e sem poder desviar o foco da cena toda, que ficava ainda pior com Macedo assobiando feito uma chaleira do seu lado.

O comboio chegou e assim que ela foi avisada pelo rádio de que começaram, sentiu a adrenalina pulsando pelo corpo inteiro. Num hábito antigo, envolveu a aliança presa na correntinha e apesar de não ser uma pessoa religiosa, pediu ao universo que conseguisse voltar inteira para casa.

A entrada do galpão era quase um vislumbre do inferno que dava um frio pavoroso na espinha: com alguns funcionários correndo em pânico, gritos ecoando pelas estruturas metálicas, o roncado desesperado dos porquinhos confinados. Tudo era ruim. O ar era denso e respirar era difícil.

— Mantenham as saídas fechadas! — A ruiva falou no rádio com a voz firme em meio à gritaria — Cuidado!

Mas tudo o que é ruim pode piorar…

PÁ!

O primeiro tiro ecoou pelo galpão e pareceu que até as telhas de zinco tremeram.

PÁ!

— O primeiro andar está limpo! — Alguém falou no rádio.

Havia algo quase que místico quando Eduarda estava com aquela farda no meio de alguma missão, ela sempre conseguia pressentir de onde vinha o problema. Paulinho sempre usava a ruiva de bússola, ciente de que ela encontraria o que quer que fosse e era ótimo! Os dois seguiam sempre lado a lado.

O problema era o atual companheiro… Macedo era afobado demais!

Ao virarem o corredor estreito de alvenaria, o tempo pareceu desacelerar de um jeito esquisito e ansioso. A ruiva viu o atirador, mas Macedo já estava correndo na direção do homem, que ouviu os passos apressados e se virou no mesmo instante, com a arma já apontada para o peito do jovem policial.

NÃO!

A ruiva não teve outra alternativa a não ser empurrar o policial com o ombro. Só ouviu a queda e se jogou pro outro lado. PÁ! PÁ! Meu Deus do céu, o que foi que eu fiz??? XXX

A cacofonia parecia insuportável.

Os porcos, o falatório um por cima do outro, as máquinas que ainda estavam sendo desligadas e uma luz que estava piscando e incomodando a ruiva desde que chegou.

A delegada só voltou a respirar normalmente quando ouviu o homem desconhecido de uns trinta e poucos anos gemendo de dor no chão. Graças a Deus, graças a Deus, obrigada meu Deus! Com cuidado e com a arma ainda empunhada, quase que acocorada, seguiu andando pelo perímetro até encontrar o jovem caído no chão e a arma longe, ufa!

— Polícia Civil, o senhor está detido! — A ruiva falou já puxando os pulsos do homem e algemando numa habilidade de anos de prática — Quero uma ambulância, agora! — Eduarda falou no rádio preso ao ombro.

— Aaaai, que dor! — O homem seguia gemendo no chão, a ruiva viu o sangue escorrendo pouco abaixo do joelho — Ai, pai do céu! — Ele berrou e foi empalidecendo — Odeio sangue, odeio… Acho que vou desmaiar!

— Graças a Deus que você não morreu! — A ruiva falou sorrindo fraco, estava tão aliviada que poderia dar até uma beijoca na testa dele, tô realmente aliviada. Odeio machucar as pessoas!

Assim que dois policiais de sua equipe chegaram para assumir a custódia do baleado, a mente de Eduarda deu um estalo: Macedo! A ruiva saiu num trote preocupado atrás do rapaz até mais ou menos onde tudo aconteceu.

Puta que pariu…

O jovem investigador estava exatamente no mesmo local em que foi docemente empurrado: caído de bumbum no meio do chiqueiro de porcos mais imundo, lamacento e fedorento que existia.

A cena inteira era digna de novela. Macedo estava sujo até o peito numa mistura podre de lama, lavagem azeda e esterco. Do seu lado, uma porca colossal, UMA IMENSA, QUASE UM PLANETA de trezentos quilos o encarava com extrema simpatia, soltando roncados amáveis enquanto o jovem policial tentava, em vão, se limpar usando o próprio antebraço sujo, só conseguindo espalhar a sujeira pela cara inteira.

Eduarda então teve a maior crise de riso dos últimos dias, o que foi ótimo e péssimo, já que precisava puxar aquele ar fétido todas as vezes para respirar. Riu tanto, mas tanto, que começou a chorar.

O KARMA TARDA MAS NÃO FALHA! O UNIVERSO TÁ DO MEU LADO! OBRIGADO DEUS POR TUDO QUE O SENHOR ME DEEEEEU.

— A senhora… A SENHORA PODE PARAR DE RIR e me ajudar aqui, por favor?

A delegada não conseguia levar o homem a sério, não quando metade da cara dele tava pintada com lama e tinha um pedaço de não sei o que colado no ombro.

— E-eu queria muito conseguir parar… — A ruiva falou com a voz completamente anasalada, já que estava tapando o nariz com os dedos — Mas olha sua cara!

A ruiva fez questão de fazer um book de fotos de Macedo em situação de barril e não conseguia parar de rir todas as vezes que alguém encarava o jovem com cara de nojo.

— Doutora — Azevedo chamou sério — Nós conseguimos finalizar por aqui. As provas já foram recolhidas e o pessoal tá só esperand-… que carniça da porra é essa?

— Carniça? Macedo, ó! Tão te chamando aqui! — Eduarda falou gargalhando e o jovem policial seguia sentado, desolado e completamente imune ao mal cheiro.

— Enfim, se a senhora quiser ir, nós podemos finalizar aqui! — Azevedo falou cobrindo o nariz com a mão em concha.

— Você me avisa qualquer coisa? — a ruiva perguntou já virando as costas.

— Claro! Mais tarde, no máximo amanhã, o relatório vai estar na sua mesa!

— Me dê notícias do rapaz baleado também, quero o boletim médico assim que possível! — A ruiva pediu.

— D-doutora… — Macedo chamou e se apressou em correr atrás da mulher.

— Oi, Macedo! — A ruiva respondeu divertida e virando a cabeça para respirar.

— P-preciso voltar pra delegacia… A senhora me d-dá uma carona? — Ele pediu desesperado — Nenhum dos caras quis-

A ruiva encarou o jovem a sua frente e não conseguiu não sorrir e riu ainda mais quando teve aquela ideia.

Hoje você vai me pagar com juros compostos, Macedo!

Os dois seguiram para a viatura e assim que a ruiva abriu o compartimento onde os presos iam, Macedo bufou.

— Você… A senhora não tá falando sério! — Ele respondeu ultrajado apontando para o local.

— Bom, você pode ir sentadinho aqui ou pode ir andando para a delegacia… — A ruiva falou fazendo menção de fechar a porta da mala — Só lembre que se isso impregnar nos bancos, os meninos que vão limpar e eles não vão gostar nada…

— T-tudo bem!

Assim que a delegada acomodou o homem e entrou na viatura, abriu todas as janelas e ligou o ar-condicionado. Fez questão de tirar uma foto de Macedo preso no camburão.

Essa é pra eu lembrar que quem acredita sempre alcança! OOOOOOOLHAAAA AONDE NÓS CHEGOOOOU, VALEU A PENA ESPERAAAAAR! Vai, Macedo, me inscreve num negócio sem minha autorização de novo!

XXX

Passada toda a adrenalina da missão de mais cedo, somada ao fim de plantão… a delegada estava acabada. Foi no próprio carro, pegou uma mochila familiar com roupas limpas e partiu para uma ducha rápida na delegacia e riu assim que estava indo rumo ao banheiro, o Macedo impregnou a delegacia inteira de carniça, meu Deus do céu.

Assim que terminou de se arrumar, o look de hoje vai ser cansaço de fim de plantão com essa regata elegante branca, a calça de alfaiataria marrom e um salto, que eu já tô rezando pra chegar em casa e tirar!

Antes de ir embora, como seus últimos atos naquele plantão, a ruiva mandou uma mensagem para a esposa, que garantiu que já estava pronta, estava apenas aguardando Maggye, o que significa que vou ficar plantada lá esperando mais uns trinta minutos! E foi até o armário da própria sala, pegando um borrifador com seu odorizador favorito, de flor de cerejeira e deixando gentilmente na mesa de Macedo com um bilhete “talvez, nem isso resolva, mas estou na torcida para que ajude!”

Depois de se despedir brevemente do pessoal da delegacia, a ruiva entrou no carro e seguiu dirigindo e completamente absorta na própria playlist, como pode eu amar tanto assim o Djavan? Tudo que ele canta é lindo, tudo o que ele escreve é lindo… QUEM, QUEM DOTOU A HUMANIDADE COM TANTO SENTIMENTO?

Conforme já esperava, chegou primeiro que as meninas.

A ruiva fez questão de pagar bem ao flanelinha e ainda prometeu um trocado a mais no final, se ele cooperasse e a ajudasse a achar uma belíssima vaga, perto do estabelecimento, pretendo ir embora com minha mulher depois de no máximo, uma hora de noite das garotas!

— E lá vamos nós! — A ruiva murmurou para si enquanto travava o veículo e seguia para o barulho.

Quando era mais nova, aquele tipo de ambiente era comum e até mesmo rotineiro na vida de solteira da ruiva. Toda semana tinha pelo menos um encontro e sempre optava por boates, se desse errado com uma, tinha mais opções e ainda tinha música! Ainda chegou a ir com Lorena em algumas, a morena era fã de música eletrônica e para ver sua mulher sorrindo, a ruiva topava qualquer insalubridade mesmo! Mas agora, a ideia de desperdiçar uma sexta à noite, depois de um plantão, naquele tipo de lugar… parecia uma bobeira!

A ruiva entrou e procurou logo pelo bar, preciso MUITO achar um banco vazio para sentar e dar uma respirada! Como Deus era brasileiro e andava ao lado das garotas bonitas nas sextas-feiras, a ruiva achou um banco livre e sorriu aliviada assim que sentou.

— Vou querer uma água com gás, gelo e limão, por favor! — Ela pediu ao barman, que prontamente obedeceu.

A delegada logo mandou uma foto do copo para a esposa, que jurou que estavam saíndo de casa naquele mesmíssimo instante, mas a ruiva tinha suas dúvidas! Seguiu sentada com o celular na mão: mandou mensagem para o pai, respondeu um meme que Paulinho mandou, pediu foto da barriga da filha e dos netos brincando, olhou o grupo do trabalho e quase morreu de rir com os áudios do pessoal falando sobre o novo mascote da delegacia, o gambáCEDO e sorriu aliviada ao receber o boletim médico do rapaz que tinha baleado, o querido está bem, graças a Deus!

— Com licença, boa noite — Um garçom falou tocando gentilmente o ombro da ruiva, que se virou no banco alto sem entender nada — Mandaram esse drink para a senhora! — O homem falou fazendo menção de tirar a taça com um líquido laranja de cima da bandeja e Eduarda freou o movimento com a mão, procurando a esposa no mesmo instante.

— B-boa noite, quem mandou entregar isso aqui? — A ruiva perguntou desconfiada, olhando de um lado para o outro.

— Aquela moça ali — O garçom falou apontando e Eduarda estreitou os olhos por causa das luzes incandescentes da boate, uma mulher loira acenou de longe e ela não fazia ideia de quem era.

Sempre uma loira…

— Diga a ela que muito obrigada, mas já tenho bebida. — A ruiva cortou seca e voltou para o celular. Saiu a notícia que ninguém acreditou! AAEEEEOOOO, episódio novo da minha novelinha do Kawai! Mais tarde preciso assisti-

— Boa noite.

Eduarda se virou no banco e bufou na mesma hora. Pasmem, a loira saiu dali e veio infernizar aqui!

Eduarda encarou a mulher com um pouco mais de atenção e ela deveria ter no máximo uns trinta anos. Os cabelos tingidos de loiro, exalavam maciez e cuidado, ao contrário do que geralmente se espera daquele tipo de tintura e o que mais chocou a ruiva, foi o fato de que a mulher era assustadoramente parecida com Lorena.

— Olá — A ruiva respondeu com a testa franzida.

Meu Deus, ela rindo… As covinhas, o nariz, as bochechas…

— Meu nome é Maria Cecília — A jovem falou estendendo a mão e a ruiva apenas encarou a mão estendida, o que fez a loira sorrir, o sorriso da minha Lorena é muito mais lindo do que essas teclas de piano aí! — Caramba… Público difícil hoje — A loira falou com um sorriso que Eduarda conhecia bem: ela não vai parar de infernizar até eu cooperar, sei disso porque já fui assim.

A ruiva soltou um suspiro pesado.

— Eduarda — A ruiva disse por fim, se voltando para o celular.

— Então, Eduarda, o que te trouxe aqui hoje? — Cecília perguntou com um sorriso de canto, ela é insistente — Veio afogar as mágoas com gelo e limão?

— É isso. — Eduarda falou sem dar brecha para mais nada e se voltou para o celular novamente, mandou uma mensagem para a esposa e deu uma procurada rápida pelo local, nada. Lorenaaaaa, cadê você?

Por azar do destino, o banco ao lado da ruiva ficou vago por dois segundos, foi o tempo que demorou para a jovem sentar.

— João, outra Gin tônica, por favor! — Cecília falou para o barman, que vinha trazendo os mini-pastéis de Eduarda.

A ruiva estava morrendo de fome e atacou sem pena, deixando os de queijo por último, na esperança de que a esposa chegasse para comê-los.

— Então, Eduarda… Sabia que laranja é a minha cor favorita? — Cecília falou olhando sugestivamente para os cabelos da ruiva, que soltou um riso incrédulo.

Ela meteu essa mesmo?

— É a cor favorita da minha esposa também. — Eduarda falou sorrindo e viu quando a mulher riu, mas seguiu inabalável.

— Então quer dizer que você é casada? — A jovem perguntou e tocou os lábios no canudo, mas sem desviar os olhos da ruiva

— Muito bem casada, graças a Deus!

— Que bom que eu não sou ciumenta, então! — A loira falou e Eduarda sentiu vontade de comer os próprios pulsos! Como pode ela ser a cara da Lorena e ter a mesma lábia que eu tinha anos atrás?

— Mas a minha esposa é bastante, acho melhor encerrar essa conversa por aqui!

— Engraçado… Você fica falando da sua esposa, mas não tem nenhuma aliança no seu dedo! — A loira falou sorridente, como uma predadora e Eduarda quis chorar.

Na pressa da operação, o banho na delegacia, a ruiva ainda estava com a aliança pendurada no pescoço, até porque era função exclusiva de Lorena colocá-la em seu dedo novamente depois de uma inspeção severa e um relato sobre como foi a operação. MAS SE ESSA FULANA ACHA QUE VAI ME PEITAR, EU VO-

ZZZZZ! ZZZZZ!

— Oi, amor da minha vida! — Eduarda falou num tom bem específico — Eu tô aqui no bar, você tá… Já te vi, tô com o braço levantado! À sua esquerda, amor… O outro lado! Te amo!

— Parece que eu vou conhecer a esposa, então! — Cecília falou sem se abalar.

Claro que como já era de se esperar, Cecília virou no banco de forma despretensiosa, buscando quem quer que fosse chegar.

Eduarda seguiu sentada e chamou o barman.

— Amigão, uma caipirinha, por favor! — A ruiva pediu e foi envolvida por trás.

Primeiro, sentiu o perfume familiar, depois o encaixe perfeito de vinte e seis anos de muito amor e chamego e estava completamente derretida, como é maravilhosa essa sensação! A delegada apenas envolveu os braços da esposa e seguiu distribuindo uma trilha de beijos que começou no antebraço da morena e subiu para o bíceps. Aproveitou ainda a proximidade e deixou um cheirinho no suvaco, fato que fez Lorena rir.

— Oi, meu amor! — Lorena sussurrou — Desculpa a demora! — Lorena falou baixo e beijando a bochecha da ruiva, que a encarou sorrindo.

— Se você tivesse dito que viria tão linda assim, eu ainda me disponibilizaria a esperar um pouquinho mais! — A ruiva falou e sentiu os olhos de Cecília avaliando a cena toda.

— Aí eu vou ter que concordar! — Cecília falou encarando Eduarda, que encarou Lorena automaticamente e que foi encarada de volta pela esposa. — Com todo respeito, claro! — A jovem disse por fim, sem respeito algum, com um sorriso inocente fingido.

— Como é? — Eduarda murmurou, mas ao invés de começar uma briga, Deus tinha outros planos…

— Saindo sem bandoleira, delegada? — Lorena sussurrou encarando a mão sem a aliança da esposa.

— Boa noite, meninas! — Maggye falou animada.

— Boa… — Eduarda falou com Maggye e se voltou para Lorena — Tô esperando o confere da minha esposa linda mais tarde, ela me prometeu grandes coisas! — Eduarda falou sorridente e Lorena envolveu a correntinha de ouro com o dedo indicador sorrindo de forma maliciosa.

— Oi, Mag! —

— Que coincidência vocês duas sentadas lado a lado! — Maggye falou — Duda, essa é a Cecília, o clone da Lorena! — A amiga completou e tanto Lorena quanto Cecília sorriam.

— É um prazer, Eduarda! — Cecília falou se levantando para um abraço meio desengonçado, por causa da cadeira, mas aquilo não abalou a loira, que deixou um beijo leve na bochecha da ruiva.

ESSA CAPETA FEZ ISSO MESMO? NÃO É POSSÍVEL!

— Oi, Ceci! — Lorena falou e se esticou para poder dar um meio abraço na mulher, já que Eduarda não soltou seu braço.

— M-meu amor, v-vamos dançar? — Eduarda chamou, preciso me afastar e chamar a Lorena para ir embora!

Mas as mulheres estavam imersas numa conversa sobre alguma parte muito específica da aula de hot yoga. A ruiva observava e tentava falhando as vezes, não encarar a tal Maria Cecília, que parecia muito com Lorena mesmo. A ruiva foi arrancada de seu transe quando o barman chegou com a caipirinha.

— Meu amor, pedi uma caipirinha para você! — A ruiva falou e recebeu o sorriso mais lindo do mundo! — Senta aqui! — Eduarda falou já levantando e acomodando Lorena.

Até mesmo Maggye pareceu notar o interesse de Cecília no casal, já que a loira não conseguia parar de encarar, mesmo com o grupo de mulheres aumentando a cada minuto, será que a Ceci não é acostumada a ver duas mulheres assim?

— Elas são grudentas assim mesmo! — Maggye falou brincando — Chamei só por educação, elas não se soltam! — A morena falou e cutucou o braço de Lorena, que estava conversando com Eduarda sobre os pastéis de queijo.

— Para de drama, Mag! Passei o dia todo morrendo de saudade da minha mulher, tô colocando os papos em dia aqui! — Eduarda falou sorridente.

Realmente, as duas já estavam na bolha delas e o resto do mundo era um mero detalhe.

— Meu amor, você tá com um semblante meio cansadinho… Tá bem mesmo? — Lorena perguntou arrumando alguns fios ruivos no lugar

— Tô bem, meu amor! — Eduarda falou sorrindo, ela sempre percebe tudo! — Só cansaço mesmo, mais tarde tenho que te mostrar uma coisa! — Eduarda falou rindo só de lembrar das imagens de Macedo.

— Lorena — Cecília chamou e Eduarda não deixou de notar a mão nervosa da loira, que estava segurando a mão de Lorena — Você tinha dito que voltaria para mais aulas e não voltou! Senti sua falta!

O olhar da loira pairava de Lorena para Eduarda, com um sorrisinho de canto que já estava tirando a ruiva completamente do sério.

— Isso é verdade!

— Meninas, o horário do hot yoga fica muito apertado pra mim! — Lorena falou soltando a mão da mulher — Eu só fui naquele dia porque a Eduarda estava trabalhando e não pôde me acompanhar no pilates.

— É que se desgrudar morre, né? — Maggye soltou brincando.

— Um casal bastante flexível, imagino! — Cecília falou e Eduarda não gostou nada daquele tom — E vocês fazem outras coisas também? A Eduarda é bem forte, né? — A loira falou e passou a mão pelo bíceps da ruiva.

— Meu amor, você quer dançar? — Eduarda perguntou gentil, mas estava completamente impaciente.

— Claro, meu amor! Vem!

— Dançar é ótimo! — Cecília falou sorrindo.

— Engraçado que quando eu chamo, ninguém quer ir! — Maggye falou.

Eduarda puxou Lorena pelo meio da multidão e assim que se afastaram o suficiente do grupo, a ruiva foi surpreendida:

— Se essa loira azeda der em cima de você mais uma vez, pode anotar aí que eu vou arrumar uma briga aqui! — Lorena falou séria.

MINHA MULHER FOI TRABALHAR NUMA OPERAÇÃO PERIGOSA E VOLTOU INTEIRA, SÃ E SALVA, O QUE É QUE EU TÔ FAZENDO AQUI? É HORA DE IR PARA CASA E TENTAR DESAFIAR TODAS AS LEIS DA BIOLOGIA NOVAMENTE, BORA RUIVA, ME ENGRAVIDE!

— Meu amor, ela é insuportável! Fica botando a mão em você o tempo todo, não tô gostando nada disso! — Eduarda falou no mesmo tom.

As duas trocaram um olhar. Um.

— Vem, vou pagar a conta! — Eduarda falou sorrindo largo e Lorena lhe devolveu uma piscadela.

A ruiva chamou o barman e ouviu Mag se lamentando:

— Amiga, mas a gente acabou de chegar, literalmente!

— Você sabe que tem coisas que não podem esperar, Mag! — Lorena respondeu num tom de voz conhecido, quase um miado.

Cecília encarou as duas conversando…

— V-você já vão? Como assim? A Mag tinha dito que vocês moram perto da minha casa, p-pensei até em pegar uma carona-

E EU VOU TER QUE DAR UMA ESMOLA A ESSA MENDIGA PRA ELA VOLTAR PRA CASA?

— O nosso carro só tem dois lugares! — Eduarda surgiu falando e envolvendo a cintura de Lorena e a ruiva definitivamente não estava falando sobre carros! — Até a próxima!

XXX

Lorena estava deitada e enlaçou a cintura da ruiva com as pernas.

As duas tinham chegado da balada e partiram direto para um banho delicioso, onde Lorena fez questão de avaliar todo o corpo da esposa, em busca de alguma avaria da operação, aproveitando para beijar cada milímetro.

— Eu te falei que foi tranquilo hoje, meu amor! — Eduarda falou manhosa com a cabeça enterrada no pescoço da morena.

— E eu não esperava nada menos que isso! — Lorena falou fingindo brabeza — Se acontecer de chegar em casa pior do que saiu, eu mesma vou lá fazer uma denúncia pra corregedoria!

Incrível como ela fica linda bravinha, coisa linda querendo me matar!

— Mas foi tranquilo, amor! — Eduarda falou levantando o rosto para encarar a esposa, a ruiva já tinha ponderado trinta vezes sobre contar ou não para Lorena sobre a operação.

— Eu quero detalhes! — A morena pediu e Eduarda suspirou. E lá vamos nós!

A ruiva então começou a contar os fatos da forma mais palhaça que conseguiu e percebeu que tinha algo dando errado quando a esposa soltou o enlace das pernas e principalmente quando recebeu um tapão enorme no ombro, assim que chegou na parte em que empurrou Macedo para livrar ele de uma bala.

— AI!

— Eduarda, você não me leva a sério! — Lorena falou brava.

— Mas... Meu amor... E-eu ia deixar o Macedo levar um tiro no meio do peito? — Eduarda falou o óbvio, num tom baixo e culpado, mas chocada com a bronca.

— E VOCÊ VAI SE MACHUCAR NO LUGAR DELE?? HEIN?

A ruiva ficou em silêncio alguns instantes, se remexeu na cama, procurando o celular e abriu a galeria, em seguida, fez a maior cara de coitada e encarou a esposa:

— Meu amor — A ruiva chamou baixinho, no tom mais manhoso que conseguiu fazer — Poderia olhar isso daqui, por gentileza? A ruiva falou se aproximando com o celular e antes de encarar a tela, Lorena encarou a esposa, fuzilando a ruiva com o olhar.

No momento em que os olhos verdes bateram na imagem de Macedo atolado até o pescoço na lama e no esterco do chiqueiro, com uma casca de batata grudada no ombro e uma porca gigante do lado, o semblante de Lorena ruiu por completo.

— Meu Deus, meu amor! — Lorena falou, parecendo um tomate de tanto rir, levando as mãos ao rosto e secando as lágrimas — O tal do gay só se fode mesmo! — a morena soltou com a maior cara de pau do mundo.

Foi aí que Eduarda quase morreu de dar risada, rolando para o lado no colchão e sem conseguir puxar o ar.

Aos poucos, a crise de riso foi cessando e abrindo espaço para aquele clima delicioso e acolhedor de fim de noite. Lorena se acomodou por cima da ruiva, deixando o corpo levemente pesado sobre o dela, enfiando as palmas quentes suavemente pelas costelas e pela barriga da delegada, num carinho lento

— Mas é sério, meu amor... — Lorena sussurrou, a voz caindo para aquele tom aveludado e manhoso, colando os lábios na bochecha de Eduarda e subindo com beijinhos estalados até a linha da mandíbula. As mãos bobas continuavam passeando sem pressa pelo quadril da esposa. — Promete pra mim... Promete que você vai se cuidar de verdade nessas operações? Por favor!

— Eu prometo, meu amor... — Eduarda respondeu mansa, enquanto puxava a cintura de Lorena para colá-las ainda mais.

— Promete de verdade? — Lorena insistiu entre um selinho demorado e um aperto carinhoso na cintura da ruiva, os olhos verdes brilhando na penumbra. — Eu preciso que você volte inteira pra mim todos os dias. Você é o meu mundo, ouviu?

— Eu prometo, minha vida... — Eduarda murmurou contra os lábios da morena, puxando a outra pela nuca para um beijo.

Depois de mais um momento de silêncio, Lorena começou a rir de novo:

— O Macedo do lado da Peppa Pig! Amor, faz uma figurinha dele na viatura, por favor!

Comentários

  • Seja a primeira pessoa a comentar!