Capítulo 12
Flagra, carga pesada e Teca
Todo mundo precisa concordar que poucas coisas são mais satisfatórias do que conseguir encontrar a paz para dormir perto de alguém, Lorena Ferette Fragoso que o diga. A morena tinha um histórico de sono muito perturbado, principalmente enquanto permaneceu sob o mesmo teto dos pais.
O jogo começou a mudar depois que uma certa ruiva apareceu em sua vida, mudou muito e tudo em diversas áreas. Agora, vinte e seis anos de casadas depois, tirar um cochilo com a esposa ainda era uma das atividades favoritas da morena. Amava a sensação de ver a ruiva adormecer em seus braços, os pequenos espasmos e as vezes, o ronquinho cansado que ela fazia depois de dias exaustivos e mais ainda: amava vê-la acordar.
Nas últimas semanas, no entanto, depois de receber e processar aquela notícia, Lorena vinha enfrentando seus demônios…
Que lugar estranho… Espera aí…
Aquele pontinho ruivo ali é a Eduarda?
— Meu amor? Duda? Ei!
Pra onde a Eduarda tá indo que não para? Ela sabe que sou eu aqui, ela já me viu! Coisa linda ela andando, olha o bundão balançando! Q-quem é aquela?
— Dudaaa! Meu amooooor!
Ela não me ouve de jeito nenhum!
— Meu amor, tem uma coisa tentando te pegar! Meu Deus!
O que é… QUEM É ESSA? Peraí… Esse cabelo preto, essa franja, essas roupas estranhas… TECA! E ESSA MÃO DENTRO DO BOLSO DA CALÇA DA MINHA MULHER? DESGRAÇADA SE EU TE PEGAR! VOU ARRANCAR SEUS CABELOS NA PINÇA! TECA SUA NOJENT-
— Meu amor, psiu! — Eduarda chamou devagar com a voz carinhosa — Ei, meu bem, acorda… — A ruiva falou balançando de leve o ombro da esposa.
Lorena levantou num pulo, como se tivessem conectado o fio direto na tomada. Os olhos arregalados, as ventas dilatadas e as mãos já em garras prontas para desconfigurar um certo rosto…
— Oi, meu amor… Desculpa ter te acordado, mas acho que você tava tendo um pesadel… O que foi? — A ruiva perguntou, franzindo a testa meu Deus, o que foi que eu fiz?
Lorena piscou os olhos devagar, voltando do mundo dos sonhos com vontade de voar no pescoço de Eduarda por alguns instantes, A EDUARDA ANDANDO COM AQUELA FULANA EM SONHO- mas tudo aquilo ruiu quando recobrou a consciência e encarou a esposa, no sofá familiar da sala, com o semblante preocupado, ela se preocupa até com meu sono!
— N-não foi nada, m-meu amor! — Lorena se aninhou novamente na esposa, eu vou enlouquecer de tanto ciúme, meu Deus! — A-acho que foi só um pesadelo mesmo, mas já passou! — A morena falou enfiando o rosto no pescoço da ruiva de novo, preciso respirar ar puro e calmante, vou pegar direto da fonte!
Eduarda se organizou para acomodar ainda melhor a esposa deitada quase que completamente nela, puxando a morena para mais perto e distribuindo alguns beijos pelo topo da cabeça e pelo rosto da morena.
A ruiva não era boba nem nada e já tinha percebido que tinha algo acontecendo. A armadura de “aceitação e maturidade” quanto a situação do tal evento com a presença ilustre da maior capeta que já pisou na terra estava ruindo e aquilo acabou mexendo sim com a mente de Lorena. Ela tá tão aperreada com isso que não tá conseguindo nem dormir bem! Meu Deus do céu!
Por mais que quisesse e tentasse, a delegada sabia que Lorena jamais iria aceitar que ela cancelasse aquele furdunço todo, a Lorena me mataria antes, certeza! Mas preciso fazer alguma coisa! Não posso deixar minha princesa ciumentinha se corroendo.
— Meu amor? — A ruiva chamou baixinho.
— Hum? — Lorena respondeu preguiçosa, ainda com a cabeça enterrada na curva do pescoço sardento e com os dedos acariciando de leve a bochecha da ruiva.
— Eu amo muito você! Muito! Tipo assim, tanto que eu nem sei descrever… — A ruiva falou e sentiu os olhos marejando — Você é a minha vida inteira e eu não trocaria isso por nada!
Lorena levantou o rosto sonolento com as covinhas aparecendo de forma tímida e Eduarda deixou um beijo na ponta do nariz lindo da morena.
XXX
Lorena já tinha feito o favor de avisar a todo mundo sobre o evento do fim de semana e aparentemente, todos os dias as duas precisavam resolver algo relacionado à tal premiação, por isso, estavam ali.
Eduarda tinha certeza em seu coração que sua falecida mãe era um de seus grandes amores, não tem como eu ir receber um prêmio sem que ela esteja lá de alguma forma! Por isso, decidiu invadir o closet da matriarca. Tudo estava conforme o planejado, exceto:
— Você acredita nisso aqui? — A ruiva perguntou apontando para uma folha de papel ofício colada com um pedaço de fita no portão.
A morena encarou a cena toda sorrindo, como a Eduarda tá um sabor com essa roupa! Os cabelos ao vento, os óculos escuros, a chinelinha de couro e esse conjuntinho lindo verde lésbico!
— Ele é uma figura! — Lorena falou sorrindo.
— “Meninas, bom dia! Fui na padaria comprar nosso café da manhã, beijos!” — Eduarda leu incrédula — E eu vou fazer o que com o café da manhã que trouxemos? — A ruiva perguntou ajustando os óculos de sol no rosto e Lorena riu.
Você é completamente igual a ele, meu amor!
As duas estavam paradas na frente da casa dos Fragoso, antigo lar de Eduarda. O local continuava lindo e ainda equilibrava o estilo mais sério de Henrique com um toque artístico e vivo que Violeta deixara. A fachada de tijolinhos rústicos e aparentes com grandes janelas emolduradas por um jardim, que Eduarda achava mais similar a uma floresta, parecia abraçar perfeitamente a estrutura.
A ruiva logo pegou seu molho de chaves e sem maiores dificuldades, abriu a porta e deixou que Lorena entrasse primeiro. As duas seguiram pelo caminho familiar de pedras em meio ao gramado bem cuidado do jardim e Lorena não conteve o sorriso ao entrarem na casa pela porta lateral.
Era como se o tempo tivesse congelado: os muitos livros, as estantes abarrotadas e alguns empilhados pelos cantos, o lugar tinha um cheiro conhecido de café e alecrim.
— O seu pai segue sendo o homem mais organizado que eu conheço! — Lorena falou enquanto as duas estavam na cozinha, colocando as sacolas de café da manhã na mesa.
— Acho o máximo que tudo parece estar exatamente onde eu me lembro, não importa quanto tempo passe! — Eduarda falou e puxou Lorena gentilmente pela mão, guiando a morena para a sala de estar familiar.
— Será que o seu pai conseguiu resolver o vazamento do seu antigo quarto? — Lorena perguntou — Esses dias quando a gente tava jantando, ele disse que precisava chamar alguém para resolver…
— Vamos dar uma olhada?
As duas seguiram pelo corredor familiar cheio de fotos, com Eduarda ainda criança sorrindo banguela, Henrique e Violeta numa festa na faculdade e depois vestidos de noivo e noiva, a ruiva nos braços da falecida avó, depois a ruiva na escola, a família inteira no casamento delas, Eduarda e Lorena na posse dela como professora, Catarina com os avôs, o avô e os bisnetos e tantos outros registros…
Lorena apertou de leve a mão da esposa. Como num filme, as memórias invadiram a mente da morena e tudo ali exalava familiaridade, aquela casa também foi o aconchego dela por um bom tempo… Só não vim morar porque achei não queria incomodar e meus planos eram casar com a ruivinha, mas toda semana Eduarda me convidava: ela chegando naquela casa pela primeira vez e fazendo aquele mesmíssimo caminho, com o coração batendo na boca por estar sozinha com Eduarda numa casa e depois, num quarto!
Na época, a professora universitária renomada era apenas uma menina. Ansiosa demais, com problemas demais e uma família de espantar! Era como um projeto ainda em aberto, com mais dúvidas do que certezas sobre si e sobre o mundo e o que assustava era a sensação recorrente de que aquela ruiva poderia ajudá-la. Com o que quer que fosse.
A morena lembrava perfeitamente dos detalhes do quarto: a janela grande com um cantinho da leitura, as cortinas brancas, que Eduarda odiava, mas Violeta amava, o birô com alguns papéis, a cama desforrada e principalmente, da primeira vez que esteve ali. Da tarde maravilhosa e confortável que passaram lá, com a ruiva assistindo maravilhada aquela figura morena existindo naquele ambiente e vasculhando os livros espalhados, a caixa de ferro cheia de agulhas de crochê e linhas, me lembro de ficar fascinada em saber que ela crochetava… Dela fazendo questão que Lorena tirasse a calça e colocasse uma bermudinha folgada e confortável.
Incrível que a Eduarda é esse poço de cuidado comigo desde sempre!
— Meu amor — Lorena chamou com os olhos marejados pelas lembranças — Você lembra da primeira vez que eu vim aqui?
Eduarda parou na porta do quarto, que estava entreaberta, como sempre, e encarou a esposa com os olhos brilhando.
E com toda certeza, a delegada lembrava! É difícil esquecer dos dias bons e desse sentimento nervoso quando se vai receber alguém importante em casa. Eduarda era péssima com fingimentos, era e ainda é uma mentirosa terrível, então decidiu horas antes que não organizaria muito nada, ela vai ter que ver minha bagunça e se mesmo assim, ela quiser ficar…
— Mas é claro que sim! — A ruiva respondeu sorrindo largo — Meu amor, eu estava tão nervosa!
— Sério? — Lorena perguntou chocada com a descoberta — Não parecia!
— Meu Deus… Meu amor, depois que eu me apaixonei por você, morria de medo que você fosse embora da minha vida! — Eduarda falou num tom meio desesperado — Vim melhorar disso esses dias… Semana passada, acho! — a ruiva completou e Lorena riu negando com a cabeça.
— Rá-rá! Até parece que eu ia… E ficou nervosa com o que?
— Sei lá… Que você não gostasse da casa ou achasse meu quarto esquisito demais-
Lorena riu ajeitando os óculos na lapela da ruiva.
— Seu nervosismo era que eu não gostasse da casa? — Lorena perguntou divertida.
Fala sério, essa Eduarda é uma figura! Olha a cara dessa baitola!
— Mas meu amor, depois que eu tomei iniciativa e decidi que você seria a mulher da minha vida, você quem estava perdida! Não tem como resistir a um pitel desses, né? — Eduarda falou gesticulando para si própria e Lorena gargalhou alto — Me preocupei com a casa mesmo… Se você não gostasse, eu ia ter que me mudar com a minha família! — Eduarda falou rindo e abrindo a porta com a mão livre — Lembro de você toda interessada pelas coisas que eu andava lendo na época!
— Claro! Quando vi Capitães de Areia na prateleira de cima, soube que dava para construir família com você! — Lorena falou rindo.
As duas entraram e apesar do desuso, a maioria das coisas ainda estava ali.
— Lembro de a gente estar aqui conversando um dia, antes de a gente namorar e a sua mãe chegou batendo na porta — Lorena falou apontando e os olhos verdes distantes, revivendo o momento — E falou algo como “Vocês devem ser amigas mesmo, nunca vi a Eduarda te beijando!”
— MEU AMOR, MEU DEUS QUE VERGONHA! EU LEMBRO! — A ruiva falou cobrindo o rosto com a mão livre.
— Também lembro da surpresa que você fez aqui pra comemorar vinte e quatro horas de namoro! — Lorena falou rindo — Eduarda, você é muito palhaça, sério!
— Eu sou só apaixonada demais! — A ruiva falou rindo e envolvendo a cintura da morena com os braços — Quero comemorar o máximo de coisas com você sempre!
— Amor, você literalmente comprou um jogo de cama da Barbie e me ligou, me chamando pro abate no seu ninho de amor, cheguei toda nervosa e o pior, a gente passou a noite jogando! — Lorena gargalhou alto — E no final me fez de rolo de fio!
— A gente já passou tanta coisa aqui, não foi? — Eduarda comentou sorrindo — De rolo de fio? Como assim?
— Me enrolou, enrolou e não comeu! — Lorena falou rindo alto e a ruiva riu também, beijando o pescoço da morena.
MULHER INSANA DE TÃO GENIAL!
— E depois fiz de bolo de rolo! — A ruiva falou sorrindo amarelo.
— De bolo de rolo? — Lorena perguntou e não conseguia segurar o riso, sabia que vinha alguma peripécia por aí!
— Queria comer toda hora! — Eduarda falou e exibiu um sorriso Colgate e Lorena permaneceu séria. Por exatos três segundos.
— Você é muito especial, meu amor!
— Mas, em minha defesa, Campos foi especial!
— Demais!
— Lembra do dia em que a gente ficou aqui enquanto minha mãe estava com enxaqueca e eu fiquei fazendo aquela dancinha e você riu, gargalhou e eu caí na gargalhada também e ela apareceu brava na porta por causa do barulho? — A ruiva perguntou rindo de se acabar.
— Lembro! Ela brava, falando que estava lidando com duas crianças em casa e depois você tentando me defender, fazendo a dança pra ela ver e ela rindo de se acabar com as mãos na cabeça…
Lorena encarou os olhos castanhos familiares, o nariz arrebitadinho e a boca deliciosa… Acabou tendo a mesma constatação de sempre: amava a esposa desmedidamente. Depois puxou a ruiva delicadamente para um beijo.
E como todo Pokemón evolui… O beijo também!
A ruiva seguiu beijando e conduzindo a esposa delicadamente até a cama.
Era como estar vivendo num flashback e o mundo ao redor deixou de existir.
As duas seguiram sorrindo no meio do beijo e a ruiva só parou quando a morena sentou na beirada do colchão, sem quebrar o contato dos lábios por um segundo sequer. Eduarda sorria largo, absolutamente deliciada com a sensação de beijar a esposa ficando ligeiramente por cima, já que a cama de seu antigo quarto era bem mais baixa que a do casal.
Nenhuma das duas sabia explicar ao certo de onde veio aquela vibe meio adolescente de estar de pegação escondida na casa dos pais, mas não deixariam passar… Havia certa leveza romântica no ar, os beijos seguiam apaixonados, lentos e profundos, do jeitinho que as duas amavam! Daqueles que beija em cima e acende em baixo! A ruiva mantinha as mãos firmemente apoiadas nos ombros de Lorena e hora ou outra, afastava algumas mechas do cabelo cheiroso da morena, que insistiam em participar do beijo e aproveitava para enfiar os dedos na nuca, puxando a esposa para mais perto.
Lorena seguia aproveitando, principalmente aquela posição favorável e apoiou as palmas das mãos nos quadris da ruiva. Foi descendo devagar, deslizando os dedos com firmeza e puxando Eduarda cada vez para mais perto e aproveitou para apalpar a carne macia da bunda e da parte de trás da coxa da menor, fazendo-a soltar um suspiro manhoso contra sua boca.
Pelo amor de Deus, que mulher é essa?
— Hum, hum!
As duas congelaram no mesmo instante em que ouviram um pigarreado grave ecoar do batente da porta.
Eduarda arregalou os olhos num susto tão grande que quase caiu por cima de Lorena, enquanto a morena travou com as mãos ainda presas nas coxas da esposa, parecendo duas estátuas flagradas no meio do crime.
MEU DEUS QUE VERGONHAAAAAAA!
— Meninas, o café está na mesa! — A voz serena e marcante de Henrique anunciou, sem um pingo de pressa e com um divertimento enorme.
— P-pronto, meu amor! C-consegui tirar o cisco que entrou no seu olho! — Eduarda falou tentando soar séria e Lorena riu com os olhos fechados, se encolhendo de vergonha.
Jesus Cristo, que situação! A Eduarda não abriu a boca para falar uma coisa dessas não…
— Esses ciscos são um perigo! — Henrique falou sorrindo divertido — Certas coisas não mudam mesmo! — Ele murmurou baixinho e saiu rindo, aquele, definitivamente não tinha sido o primeiro flagra do sogro.
Assim que ficaram à sós novamente…
— Cisco, Eduarda? Sério? — Lorena cochichou, tirando as mãos do rosto e encarando a esposa com as bochechas queimando de tão vermelhas — Você é muito cara de pau, não me aguento!
— E o que você queria que eu falasse, meu amor? — Eduarda perguntou sorrindo largo, sério, processei os fatos muito rápido! Uma mente brilhante! — "Sinto muito, pai, estava aqui fazendo um exame clínico minucioso na língua da sua nora?" — Eduarda rebateu no mesmo tom cochichado, a cara mais limpa do universo, mas com os olhos castanhos brilhando.
— Meu Deus, que vergonha, eu nem sei com que cara vou olhar para o seu pai na mesa do café! — Lorena falou, cobrindo a boca enquanto chacoalhava os ombros de tanto rir.
— Ah, mas você vai olhar com essa cara linda de quem foi pega no pulo e tá muito bem servida! Não foi a primeira vez e nem vai ser a última, já te aviso! — A ruiva brincou, aproveitando que a morena ainda estava sentada na beirada da cama baixa e se enfiou no meio das pernas dela de novo, segurando o queixo de Lorena com carinho. Não posso perder a oportunidade!
— Meu amor, para! O café tá na mesa, seu pai tá esperando! — Lorena protestou de mentirinha, tentando soar firme, mas já amolecendo inteira quando a ruiva inclinou o corpo sobre o dela.
— O café pode esperar só mais dois minutinhos, mas a minha cota de beijinhos de desjejum matinal, não... — Eduarda murmurou com a voz aveludada, selando os lábios nos de Lorena num beijo rápido e roubado.
— Duda... — Lorena suspirou entre os lábios colados, tentando puxar a cabeça para trás, mas os dedos de Eduarda já tinham achado o caminho de volta para a sua nuca.
— Shhh… Só mais um... — A ruiva pediu manhosa, aprofundando o beijo com doçura e uma pegada certeira na esposa, arrancando um risinho abafado de Lorena antes das duas se entregarem a mais alguns segundos daquele dengo todo.
O café da manhã foi maravilhoso e delicioso. Henrique tinha feito questão de comprar tudo de vegano que a padaria central poderia oferecer e Lorena achou aquilo extremamente atencioso da parte dele e claro que Eduarda tinha feito exatamente a mesma coisa.
Sempre que tinha a oportunidade de ficar na presença dos dois, a morena ficava ainda mais encantada com o quanto eram parecidos.
Saíram dali depois de alguns bons minutos de conversa e seguiram para o enorme closet do quarto de Henrique e Violeta. Tanto Eduarda quanto Henrique combinaram de doar a maioria das coisas da falecida, mas claro que deixaram muitas peças assinadas pela estilista guardadas, principalmente as mais marcantes.
— A-acho que vou com esse aqui! — Eduarda falou puxando a peça cuidadosamente do closet.
Lorena permaneceu sentada encarando a esposa e o pai debatendo sobre qual peça seria melhor para usar na premiação e também conseguiu assistir aos dois chorando baixinho, relembrando sobre algumas vezes que Violeta usou aquelas roupas em outras oportunidades.
Claro que Lorena chorou com a escolha da ruiva para homenagear a mãe no dia de receber o tal prêmio, assim como Henrique e a própria Eduarda.
— Meu amor, vem aqui e escolhe alguma coisa também! — Eduarda chamou e Lorena foi.
XXX
A delegada estava cansada do plantão, mas aproveitou a chance para fazer Lorena dar uma relaxada na casa da filha, a ruiva sabia que a morena estava preocupada demais com o tal prêmio.
Lorena estava estacionada na frente da delegacia e aproveitou o tempo livre para responder algumas mensagens do irmão no Whatsapp, também respondeu os alunos do projeto de pesquisa, respondeu Mag e mandou um meme para Paulinho, é a cara dele! Seguia esperando Eduarda, vamos ver como minha princesa vai sair desse plantão… Linda demais! Ué, tá de mudança? Que tanta sacola é essa? A morena foi logo descendo do carro, abrindo a porta traseira e indo ao encontro da ruiva.
— Oi, meu amor! Deixa eu te ajudar com as sacolas! — Lorena falou já estendendo as mãos e agarrando uma, tem que ser na base da força bruta mesmo, jamais que ela me daria alguma por livre e espontânea vontade para eu carregar!
— Oi, minha vida! — A ruiva falou e assim que acabaram de colocar as sacolas no banco de trás do carro, a morena puxou a ruiva delicadamente para um beijo casto.
As duas entraram no veículo e Eduarda sorria ao ver a esposa atacar o cinto de segurança, acho um sabor ela dirigindo! Oia as mãozona no volante e a cara de concentrada, uuuuui!
— E então, meu amor? Foi fazer feira sem mim? — Lorena perguntou já dando partida no carro, concentrada no trânsito.
— Jamais, meu amor! — A ruiva falou enquanto conectava o celular no bluetooth do carro — Falei com a nossa arquiteta e ela mandou um dos rapazes da empresa vir trazer um mostruário de tintas, pra gente mostrar a Cat. Liguei para nossa filha e descobri que nosso bolofo tá doente-
Não posso com ela chamando o próprio neto de “Bolofo”, que avó é essa?
— O Tunico? Doente com o que, meu amor? — Lorena perguntou se preocupando automaticamente, olhando rapidamente para a esposa por causa do trânsito.
— A KitCat falou que acha que é essa virose, as crianças na sala dele estão também, enfim… Na hora do almoço, fui na farmácia perto do shopping e comprei o que a farmacêutica disse que era legal pra ele tomar… — A ruiva falou e Lorena riu sozinha, do jeito que você é hipocondríaca com nossos netos, tem remédio aí pra ele tomar até quando estiver ficando calvo!
— Entendi… Pelo tanto de sacola, deve ter comprado a farmácia inteira, né? — Lorena falou sorrindo e ligando a seta do veículo, Eduarda riu do comentário.
— Meu amor… É que do lado da farmácia tem aquela feirinha de orgânicos, acabei indo lá e comprei fruta, pra Cat fazer suco pro nosso gordinho! E também verduras, você sabe que nossa filha tem dificuldade em escolher as boas… — A ruiva falou — Depois fui no shopping, comprei um brinquedinho pro doentinho e comprei algumas coisas de papelaria pra Aninha… Não existe ir lá, levar as coisas pro Tunico e nada pra ela!
Lorena seguia tentando conter um sorriso, mas estava falhando! Se existir uma avó mais babona que essa, desconheço!
— Entendi! — A morena falou sorrindo — Claro que o Lego da Patrulha Canina vai ajudar nosso neto a ficar melhor mais rápido!
Peguei exatamente a sacola premiada!
— Também comprei… — Eduarda falou se virando no banco, Lorena só conseguia ouvir o farfalhar das sacolas plásticas — Isso daqui para minha esposa formiguinha! — A ruiva falou exibindo a barra de chocolate vegano favorito da morena.
— Meu amor, que delícia! — Lorena falou sorrindo — Já quero comer!
— Que bom que você gostou, pensei em trazer aquele outro, mas não tinh- — A ruiva falou sorrindo e abrindo o chocolate, tirando uma fileirinha de quadradinhos e dando na boca da esposa.
— Eu tava falando de você! — Lorena falou sorrindo maliciosa e Eduarda fingiu choque, mas logo se aproximou para beijar o ombro da morena com um sorriso safado nos lábios.
Nossa mas essa Lorena eu vou te falar uma coisa… Que mulher, viu? Ela fala essas coisas e acha que consegue me desestabilizar? E ela está completamente certa pois eu já estou com muita vontade de encher ela de beijo, puta que pariu!
A ruiva aproveitou que estava no carona para fazer algo que amava e fazia sempre que tinha oportunidade: contemplar a esposa. Os cabelos presos num coque elegante, o nariz perfeito, os olhos atentos, uma das mãos no volante e a outra acariciando de leve o polegar de Eduarda e os lábios, que boca linda, cantarolando a música que tocava baixinho no rádio:
Depois de ter você, poetas, para quê? Os deuses, as dúvidas, pra que amendoeiras pelas ruas? Para que servem as ruas? Depois de ter você…
XXX
Ir na casa da filha e estar em contato com ela e com os netos era sempre um renovo para as duas avós babonas. Lorena riu ao ver a cara incrédula de Catarina ao ver a feira que Eduarda trouxe, era sempre assim! As duas aproveitaram para mimar muito a filha e a barriguinha que já estava bem mais aparente.
Lorena derretia todas as vezes que Eduarda falava com a barriga, quando a Catarina estava na minha barriga, lembro perfeitamente que a Duda chegava dos plantões e eu sempre tentava esperar acordada. Tomávamos banho juntas, ela passava hidratante em mim enquanto contava sobre o dia para nós duas, igual está fazendo agora com a nossa menina!
Primeiro, as duas foram junto de Tunico, que dormia tranquilo com a bunda para cima, abraçadinho com um bichinho de pelúcia. Cat já tinha avisado que ele estava menos febril e já tinha comido, o que era ótimo.
Breno apareceu rapidamente para cumprimentar as duas e depois desapareceu, alegando que estava bastante ocupado numa missão.
Graças a Deus que tá ocupado!
Depois, partiram para a sala, para a escolha das tintas.
— Filha, mas aí você pode escolher com calma! — Lorena falou depois de analisar as cores da paleta, meu Deus, que nostalgia! Me lembro de quando eu e a Duda estávamos escolhendo a cor do quartinho da Catarina!
— É, com as cores aqui, você escolhe, a gente vai comprar e o rapaz vem pintar! — Eduarda falou sorridente com Aninha nos braços, num dengo só.
— Eu amei, mães! — Catarina falou sorridente, mas com o semblante cansado.
— Vamos aproveitar e deixar a Aninha e o Tunico escolherem as cores que querem pintar o quarto deles! — Eduarda falou como se nada, aquilo não estava nos planos, mas se uma neta vai ter, todos precisam ter!
— EU TENHO AS MELHORES AVÓS DO MUNDO! — Aninha berrou sorrindo e abraçando as avós.
— Mãe… — Catarina falou com os dedos na ponta do nariz, a mamãe enlouqueceu… Com o bom gosto das crianças, o quarto vai ser verde neon com dinossauros rosas e listras zebradas.
— Filha, sua mãe já falou com a arquiteta e vamos reformar os dois quartos! — Lorena deu a notícia como se fosse óbvio.
Eduarda conhecia a filha extremamente bem, botei ela dentro da Lorena com dois dedos e essa cara dela… Vou ter que intervir rápido.
— Exatamente! Vou medir logo os quartos e já mandar as medidas certas! — A ruiva falou e levantou num pulo, passando Aninha para a outra avó.
Seguiu pelo corredor, ignorando completamente o trecho que ouviu da conversa entre Catarina e Lorena sobre aquilo ser desnecessário.
XXX
A ruiva seguiu pelo corredor já com a trena na mão e as instruções da arquiteta na mente, bateu na porta duas vezes e como ninguém respondeu, abriu uma brecha e quase caiu para trás.
O quarto de Lorena Eduarda, antes ocupado por brinquedos dos irmãos, agora estava bem mais arrumado e com menos coisas. Os móveis já tinham chegado, mas ainda não haviam sido montados por causa da tintura e além das caixas, havia todo um aparato tecnológico digno da AEB…
É incrível… A gente lá fora batendo cabeça pra decidir as coisas da bebê e o pai aqui dentro JOGANDO!
Breno, o seu querido genro, estava sentado jogando vídeo-game, numa espécie de simulador, pelo que a ruiva pôde perceber. Mas não era qualquer simulador… com duas telas curvas, um volante, uma marcha e os pedais, o homem guiava o que parecia ser um caminhão, com direito a som e tudo!
E aquilo, fez os olhos da ruiva brilharem, como uma criança, principalmente quando ele puxou uma cordinha e um FON-FON ecoou pelo quarto. Segundos depois, o ambiente foi invadido pela melodia familiar de Tocando Em Frente, de Almir Sater.
Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso, porque já chorei demais!
— Breno… — Eduarda chamou devagar, sem tirar os olhos da tela, completamente hipnotizada, babando mais que neném em início de dentição.
Hoje, me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe, só levo a certeza de que muito pouco eu sei… Que nada sei!
— A-ah, o-oi, sogrinha… — O homem falou olhando para os dois lados da tela e não vinham carros, para ele conseguir dar partida — Tava tão concentrado aqui que acabei nem lhe vendo entrar.
— E-eu bati, m-mas… Só vim tirar umas fotos do quarto e medir as paredes, pra mandar para a arquiteta! — A ruiva falou encarando a tela fascinada.
— Q-quer que eu s-saia? — Breno perguntou, mas não havia esforço algum para se movimentar e realmente sair dali.
— N-não, não… Acho que consigo fazer o que vim fazer aqui com você quietinho aí…
O homem assentiu com a cabeça e a ruiva começou seu trabalho ali, fotografando o quarto e medindo rapidamente as paredes, tomando notas para encaminhar para a arquiteta… Mas encarando a tela em toda e qualquer folga.
O Breno é um motorista terrível mesmo, por isso que a Cat dirige todas as vezes! Como é que o caminhão vai passar nesse estreito? Não vai!
— Você precisa abrir mais na curva, Breno! — Eduarda deixou escapar meio impaciente, se eu sentar ali é papo de dois palitos pra resolver…
— A-assim? — O homem falou, MAS AINDA ESTÁ ERRADO!
— Tem como dar ré? — A ruiva perguntou se aproximando e se acocorando, ficando na mesma altura da tela.
O cara com dois retrovisores desse tamanho e ainda fazendo errado… Pelo amor de Deus, tinha que ser homem!
— Você precisa voltar de ré e abrir desde o início! Faço direto com a viatura grande blindada…
O rosto do jovem se iluminou e aconteceu exatamente o que a ruiva queria que acontecesse:
— Sogrinha… Isso daqui é um simulador de caminhão, como a senhora já deve ter percebido e e-eu preciso chegar com essa carga de laranjas em Alagoas antes das seis horas, é a minha missão de hoje… A senhora bem que poderia me ajudar, né? — Ele falou sorrindo amarelo.
MÚSICA PARA OS MEUS OUVIDOS, QUE SEQUÊNCIA DE PALAVRAS ENCANTADORA!
— C-claro! — A ruiva falou tentando não arreganhar tanto os dentes enquanto o homem encostava o caminhão e saia da cadeira para ela sentar.
Já devidamente posicionada, o genro ajustou aproximando os pedais, já que era mais alto e Eduarda ficou ainda mais encantada dali, realmente a tecnologia é maravilhosa mesmo!
— P-prontinho… Acho que agora a senhora consegue alcançar os pedais! — Ele falou sorrindo largo — A senhora é o pontinho azul no mapa e precisa seguir as ruas, tipo o Waze mesmo!
— Acho que entendi… Isso daqui é a buzina? — Ela perguntou apontando para a cordinha e o genro balançou a cabeça afirmativamente. A ruiva puxou a cordinha duas vezes com o maior sorriso bobo do mundo e iniciou os trabalhos.
FON-FON!
A ruiva então olhou para a marcha e o genro, que estava sentado ao seu lado, como se estivesse no banco do passageiro, lhe informou que a ré era para frente. Com uma habilidade desconhecida até mesmo para ela, em menos de cinco minutos, sob o olhar apreensivo e esperançoso de Breno, a ruiva tirou os dois dali.
— CARALHO! A SENHORA MANDOU MUITO, SOGRINHA! — Ele berrou quando a ruiva conseguiu tirar os dois do aperto.
Eduarda conseguiu manobrar a carreta, tudo já estava sob controle e os dois já estavam seguindo a estrada.
Hora ou outra, Breno ia dando alguns toques sobre os controles e sobre as leis de trânsito no jogo, a ruiva precisava acelerar mais hora ou outra, para poder pegar círculos de tempo e os dois seguiam lado a lado, sorridentes e satisfeitos.
Ambos deram a voz quando Vamos Fugir, de Skank começou a tocar.
— “Tô cansado de esperar, que você me carregue!” — Os dois cantarolavam juntos e Breno aumentou o som.
Assim que a música acabou, Eduarda foi surpreendida…
— Essa playlist é do jogo? É muito boa!
— Na verdade, essa é uma que a senhora fez quando a gente foi pra pescaria… Gostei tanto que deixo tocando!
A ruiva trocou um breve olhar com o genro e os dois sorriram, genuinamente felizes. Seguiram juntos, ora comentando sobre o trânsito, ora sobre o carro e quando finalmente acabaram aquela missão em tempo hábil, Breno sorria tanto e tão largo que contagiou Eduarda.
— Sogra, já vou colocar a gente em outra! — Ele falou empolgado — Vou até colocar com chuva na estrada, pra senhora sentir como é diferente a jogabilidade!
A ruiva assistiu pacientemente o homem ajustando tudo e sorriu impressionada assim que o rádio dividia a música com um barulho de chuva.
QUEM DOTOU A HUMANIDADE DE TANTA SABEDORIA PARA OS JOGOS? I ❤️ ️ TECNOLOGIA!
Algum tempo depois, sabe-se lá se em horas ou minutos, duas batidas na porta chamaram a atenção de Breno, só dele, já que Eduarda não era capaz de desviar os olhos da estrada.
Uma motorista séria jamais tiraria os olhos daqui!
— Vovó, olha só quem acordou! — Lorena falou da porta, com Antônio com a cara toda amassada nos braços.
— Mãe, amor… vocês não vão vir jantar? — Catarina perguntou num tom de bronca — Vocês passaram o dia nesse jogo!
— A gente já vai, amor! — Breno respondeu.
— Oi, meu gostoso! — Eduarda falou sorrindo, mas ainda encarando a tela. Olhos na tela, detetive, olhos na estrada! — Tá melhor, amor da vó? — A ruiva perguntou.
Lorena se aproximou com o neto nos braços e aproveitou para olhar com mais atenção para o que a esposa estava fazendo, eu não acredito que a Eduarda passou a tarde jogando… Antônio esticou os braços para a avó Duda, mas…
— Meu amor, agora a vovó não pode pegar você, tô dirigindo! — A ruiva falou encarando a estrada e Lorena gargalhou alto, incrédula.
— Meu amor, você se supera todas as vezes… — Lorena falou sorrindo largo — Ela ama esses joguinhos, Breno!
Eduarda encarou rapidamente a esposa, chocada. “Joguinho”? Um simulador de direção sério desses! Eu respeitei todas as leis de trânsito, liguei a seta, respeitei os limites de velocidade… Pra ela falar uma coisa dessas?
— Ela é muito boa no volante!
— Mamãe e Breno… Não vou chamar outra vez! — Catarina berrou do lado de fora do quarto.
— O Pedro e o Bino já vão, filha! — Lorena falou rindo — Eles tão terminando esse episódio de Carga Pesada!
A ruiva seguia dirigindo e rindo, Lorena continuava fazendo gracinha, Aninha estava aninhada no colo do pai e Catarina encarava a cena toda rindo em silêncio da porta do quarto.
— Missão concluída, Breno! — Eduarda falou estacionando o caminhão e batendo na palma da mão do genro.
— Amor, amei que hoje você desbloqueou uma nova skin! — Lorena falou rindo de se acabar, sozinha — Buzina, amor! Tem como?
— Qual? — Eduarda perguntou e puxou a cordinha FON-FON!
— Sapatão caminhoneira! — A morena falou aos berros e todos gargalharam.
A família seguiu saindo do quarto enquanto Breno ajustava as coisas…
— Sogrinha… Depois tem outro jogo que quero te mostrar, é um simulador de mercadinho, absurdo!
XXX
Naquela noite, numa tentativa de aliviar mais a situação para Catarina, que além de grávida ainda estava com Antônio doente, as vovós do momento decidiram levar Aninha para passar o resto da semana com elas. A menina não poderia ter ficado mais feliz.
Lorena encarava as duas deitadas juntas no sofá, exatamente com a perna dobrada do mesmo jeito e sorria da cozinha. As três tinham jantado e a ruiva fez questão de lavar a louça enquanto a neta enxugava tudo, igual faziam com Catarina quando ela tinha mais ou menos a mesma idade, a morena ficou com a parte de guardar, mesmo Eduarda tendo implorado para fazer aquilo pela esposa.
— Vó, a gente pode assistir um filminho juntas? — Aninha perguntou.
— Só se sua avó Lorena deixar… Você tem aula amanhã, mocinha! — Eduarda falou acariciando os cabelos da menina, que sorriu no mesmo instante.
— Ô vó, aproveitando que estamos aqui… A mamãe estava me contando que a senhora vai receber um prêmio! — Ana falou animada, se virando para encarar a avó no sofá.
— Pois é, meu amor! — Eduarda falou sorrindo pela empolgação da menina.
— E é um prêmio de que? — Ana perguntou.
A morena seguia sorrindo na cozinha e sabia que a esposa estava tímida só pelo gesto que ela fez com as mãos, engraçado que a Eduarda é a mulher mais foda que eu conheço e tem dificuldade em admitir ie aceitar sso!
— É um prêmio do trabalho… Consegui ajudar muitas mulheres nesses anos todos na delegacia, meu amor. — A ruiva respondeu com calma.
— Uaaaau — a menina falou com admiração.
— É maravilhoso mesmo, meu amor! — Lorena falou da cozinha — Sua avó é incrível e o trabalho dela conseguiu melhorar a vida de muitas mulheres e famílias, por isso, devemos ter muito orgulho dela! — A morena falou por fim e sentiu os olhos das duas em si.
— Eu concordo com você, vó! A vó Duda é maravilhosa! — Aninha falou sorridente.
— Meu amor, sai dessa cozinha e vem pra cá, por favor! — Eduarda choramingou — Eu prometo que guardo essas coisas mais tarde ou amanhã! Chama sua avó também, Ana!
— É, vó, por favor, vem, a vó Duda tá quase chorando aqui! — a menina falou fazendo beicinho e Lorena riu, essa vai ser convincente igual a avó Eduarda!
— Ai, meu Deus… Tudo bem, tudo bem! — Lorena falou sorrindo e riu quando Eduarda e Aninha abriram espaço para ela se deitar entre elas no sofá.
Eduarda depositou um beijo leve na testa de Lorena, assim que ela deitou, uma de frente para outra com Ana no meio, encostada na avó Eduarda e com as pernas por cima da avó Lorena.
— E quem vai entregar esse prêmio, vó? — A menina perguntou a Eduarda e a ruiva viu o semblante da esposa endurecer por dois segundos.
— É um prêmio da Promotoria de Justiça, meu amor, que é um lugar que é responsável por cuidar dos desejos da população, atua também na área criminal… Q-quem vai entregar é a promotora.
— Promotora? O que é uma promotora? — Aninha perguntou e a cabeça de Eduarda apitou.
SÃO MONSTROS HORRÍVEIS, ANINHA! PESADELOS DO PASSADO QUE VOLTAM PARA ASSOMBRAR UMA VIDA BELÍSSIMA!
— Um promotor de justiça trabalha tentando ajudar a população com seus direitos, denunciando crimes, fiscalizando algumas leis…
Lorena seguia atenta a conversa, alternando o olhar da ruiva para a neta conforme iam falando, mas por um breve instante, foi possuída por um espírito obsessor:
— Que já foi namorada da sua avó, acredita, Aninha? — Lorena falou, faltando apenas esguichar veneno.
Eduarda soltou o ar pela boca e passou a mão pelos olhos, lá vem bomba…
— E a senhora já namorou outra mulher além da minha avó, vó? — A menina perguntou chocada encarando a ruiva com julgamento no olhar.
— É mais fácil perguntar quem ela não namorou antes de mim! — Lorena murmurou baixo encarando o teto com cara de sonsa.
— N-namorei sim, m-meu amor… — Eduarda falou, TRABALHE CÉREBRO, TRABALHE! ME DÊ UMA RESPOSTA PARA ME TIRAR DESSE BURACO!
— E a senhora já namorou outra mulher além dela, vó? — A menina perguntou encarando Lorena.
— Nunca, meu amor! — Lorena falou quase que orgulhosa.
— Mas isso é muito injusto! — Aninha falou cruzando os braços e Lorena riu batendo palmas — E vai ser essa mulher que vai entregar o prêmio… — A menina murmurou sozinha — Não gostei dela, vó!
— Eu acredito na pureza das crianças! — Lorena falou.
— M-meu amor… Você n-não precisa gostar dela. — Eduarda falou num tom educativo — Só precisa respeitar, isso foi lá no passado, há muito tempo atrás, antes mesmo de eu conhecer a sua avó. — A ruiva falou e a menina seguia atenta — O tempo passou, eu casei com a sua vó Lorena, que é o grande amor da minha vida desde o dia em que a conheci e não sei como anda a vida da minha ex e não quero saber, mas espero que ela esteja tão feliz quanto eu estou! — a ruiva falou e Lorena tentava conter um sorriso, eu sou muito feliz também, meu amor! Sorte dela se tiver algo minimamente parecido com o que temos!
Aninha encarava a avó, processando o que ela acabou de dizer e depois deu um sorrisinho de canto.
— Bem que a minha mãe fala que vocês se amam muito! — Aninha falou sorrindo largo.
— A sua mãe fala isso, é? — Eduarda comentou sorrindo — Pois ela está completamente certa! Eu sou todinha da sua avó! Doidinha por ela! — A ruiva completou sorrindo e recebeu um beijo rápido na testa.
Essa Eduarda me mata!
As três permaneceram de dengo no sofá, Lorena finalmente cedeu ao desejo da neta de assistirem um filme e a pequena optou por Frozen. Eduarda estava se sentindo muito perto de estar no paraíso: deitadinha, barriguinha cheia, sua esposa de um lado e a neta do outro…
Essa Elsa é uma fingida também! Quem é que trata uma irmã desse jeito? Agora, esse boneco de neve é uma figura! Queria um danadinho desses pra mim! Mas do jeito que está calor, ele viraria um copo d'água ligeiro…
Após alguns minutos, Lorena se remexeu, encarando a ruiva e sorriu ao ver Ana dormindo.
— Meu amor, vamos dormir! — A ruiva falou gentil com a neta e a menina apenas se aninhou ainda mais na ruiva.
— Acho que é hora de ir pra cama! — Lorena falou sorrindo e beijando de leve a testa da neta.
Com cuidado, Eduarda se levantou e aninhou a menina nos braços, indo para o quarto de hóspedes, que já estava prontinho para a pequena. Lorena seguiu sentada no sofá da sala, desligou a televisão e por algum motivo, lembrou que em alguns dias precisaria dar de cara com a safada da Teca, MALDITOS PENSAMENTOS INTRUSIVOS!
Se aquela desgraçada ousar fazer qualquer coisa com a MINHA mulher… Nossa, mas eu vou amassar tanto ela, mas tanto!
— Meu amor, vamos deitar? — Eduarda apareceu chamando baixo no corredor.
Lorena levantou num ímpeto, marchou em direção a esposa e antes mesmo que Eduarda pudesse sequer processar alguma coisa, a morena já estava com os lábios das duas selados.
VOCÊ É MINHA MULHER, MINHA ESPOSA, MINHAAAAAAA!
Seguiram pelo corredor e Eduarda já estava completamente mole, não tem como raciocinar com essa mulher me beijando e falando obscenidades no meu ouvido…
— Meu amor… — A ruiva falou ofegante, completamente atordoada, anotaram a placa?
A morena não queria saber de gracinhas, preciso que ela entenda que é minha mulher, minha e somente minha! Num minuto, passou a chave na porta e agarrou a ruiva pelo pescoço, de um jeito que sabia que minava todas as forças de Eduarda.
A delegada sentiu as pernas batendo na cama e caiu sentada no colchão, mas não durou nada, já que Lorena cuidou rapidamente em subir no colo da ruiva, empurrando o tronco da menor para trás, subindo na ruiva como uma cobra.
— Você disse uma coisa lá fora… — Lorena falou num tom putífero, enquanto beijava o pescoço da ruiva, parando apenas para encará-la com um olhar que deixou Eduarda em choque — E eu queria ouvir de novo, acho que a noite inteira…
— O-oq-que? — A ruiva falou com dificuldade, meu Deus… Meu senhor… Me ajuda, por favor, como é que fala?
Lorena encarou os olhos castanhos enevoados de tesão e sorriu predadora, tão bonitinho ela lutando pela vida e pela sanidade enquanto eu arranco qualquer grama de juízo dela… A morena soltou o peso em cima da ruiva e começou com uma trilha lenta de beijos e mordiscadas pelo pescoço sardento, finalizando com uma mordida no lóbulo da orelha, que fez Eduarda gemer baixinho arqueando o corpo.
Meu Deeeeeeus… Que mulher profana insana maluca! Desgraçada gostosa do caralho!
— Você é de quem? — Lorena perguntou baixo ao pé do ouvido e subindo, encarando os olhos castanhos.
A ruiva engoliu em seco, passando a língua rapidamente pelos lábios e antes mesmo de tentar pensar qualquer coisa, recebeu um tapa leve na bochecha.
— S-sua! — A ruiva falou num fio de voz e recebeu outro tapa leve.
Eduarda estava se sentindo como aquelas máquinas velhas, que depois de um tapa voltam a funcionar normalmente, só que no caso dela, tinha alterado apenas o idioma original, saíndo de PT-BR para TESÃO ABSOLUTO ENORME GIGANTE AVASSALADOR CHOCANTE. ME COME NEM QUE SEJA POR PENA!
— Fala de novo! — A morena ordenou com as mãos subindo por baixo da camisa do pijama que a ruiva usava, encontrando os seios fartos e apertando de leve os bicos, o que fez a ruiva gemer baixo.
Eduarda já tinha entendido o que estava acontecendo ali e gostaria de deixar claro como o sol e cristalino como a água que AMAVA quando a esposa entrava nesse mood de ciúmes e posse.
Ela me quer e vai me ter. Me ter ou meter? AAAAAUUUUUUU! EU SOU DELA, INDEPENDENTEMENTE!
— Sua! — A ruiva falou num fio de voz — S-só sua, desde que te conheci! Completamente… — Ela falava com dificuldade, é muito difícil falar gemendo — C-completamente!
Lorena encarava a ruiva de cima e aquelas palavras eram como música para os seus ouvidos, cabelos na cabeça dos carecas, luz para os cegos… As palavras entraram massageando locais que Eduarda nem sequer poderia imaginar.
— Ah, é? — A morena perguntou e a ruiva apenas balançou a cabeça afirmativamente de forma rápida — Que bom! — Lorena falou com calma, mas naquele tom e com um sorriso safado estampado.
— E-eu também a-acho! — A ruiva falou com dificuldade e os olhos fechando de prazer, mas já envolvendo as mãos de Lorena, que seguiam trabalhando.
— Agora… Anda, levanta! — Lorena falou saíndo de cima da esposa.
Que teve como única reação arregalar os olhos em choque.
O-OQUE? L-LEVANTAR? C-COMO? SE EU TIVESSE FORÇA NAS PERNA-
— Você vai levantar em silêncio, vai na nossa caixinha de brinquedos, vai escolher um e vai voltar aqui, pra EU brincar com você! — A morena falou olhando os olhos castanhos confusos — E eu espero que você esteja com energia, porque eu vou te comer a noite inteira, Eduarda… e hoje, você não vai poder nem gritar!
Eduarda piscava os olhos devagar, completamente catatônica com aquela sequência de palavras encantadoras.
— Agora anda, levanta — Lorena falou exibindo um sorriso putífero — E não demora, tô ansiosa pra passar a noite com a minha mulher.
XXX
Como de costume, a ruiva acordou primeiro.
Abriu os olhos devagar, piscou algumas vezes e começou a sentir o formigamento familiar no braço esquerdo, hoje a Lô foi a conchinha menor!
A cabeça ainda era uma tela em branco, que logo foi pintada com imagens da noite anterior, eu tenho certeza que a Lorena foi possuída por algum espírito ragatanga ou algo assim, que mulher completamente maluca e sedutora e gostosa, deliciosa, saborosa, meu Deus do céu…
Eduarda passou a mão livre pela orelha e sorriu incrédula, ontem ela me deu um tapa que pegou de mal jeito e pensei que tinha estourado o tímpano… Mas ela tava indo tão bem e eu tava tão perto de gozar que não poderia me importar menos.
Lorena se mexeu na cama, virando de frente para Eduarda num movimento brusco, passando uma das pernas por cima da esposa, ela não consegue se mexer devagar, por isso me acorda de noite. A ruiva começou um carinho lento pelo braço da morena e como sempre, não se conteve. Iniciou uma trilha de beijinhos e cheirinhos pelo rosto da maior, que resmungava manhosa.
— Bom dia, meu amor! — Eduarda falou baixinho e riu quando Lorena subiu em cima dela completamente, enfiando o nariz no pescoço sardento.
— Bom dia. — Lorena falou com a voz rouca.
— Dormiu bem? — Eduarda perguntou subindo as mãos pelas costas nuas de Lorena, dando leves apertões nos ombros e no trapézio da morena, desse jeito eu derreto…
— Dormi, meu amor… Mas tô meio cansadinha ainda! — Lorena falou fazendo manha — Uma ruiva aí não me deu descanso!
— Que pecado! — Eduarda falou com ar de riso, distribuindo uma sequência de beijinhos pelo rosto da esposa — Meu amor, a gente precisa levantar e acordar a Aninha.
— Nããão! — Lorena falou e se aconchegou ainda mais em Eduarda — Meu amor, vamos cancelar o dia de hoje e vamos ficar só assim, por favorzinho…
Eduarda não conseguia não sorrir com tanta manha e dengo, ela me ganha demais com essas coisas, meu Deus do céu… Eu sou muito apaixonada e besta por ela!
— Mas meu amor, você vai ter que ir trabalhar…
— Vou passar uma atividade! — Lorena falou no pescoço de Eduarda — Vou ser bem malvada e colocar letra branca no final do documento, pra eles nem conseguirem me enganar com inteligência artificial e a gente fica aqui, exatamente assim. — Ela emendou com a voz arrastada.
Que mulher é essa, planejando atividades malvadas… Tô na sua maldade, princesa!
— Amo quando você fica cheia de maldade com os seus alunos! Mas e a Aninha? — Eduarda perguntou sorrindo e deslizando as mãos até o começo da bunda da esposa.
— Amor, ela tá dormindo! Quando ela acordar mais tarde, damos comida, um pouco de sorvete… deixamos ela terminar o filme de ontem e pimba: seremos as melhores avós do mundo! — Lorena falou e Eduarda sentiu ela sorrindo em seu pescoço.
— Tudo bem! — A ruiva falou sorrindo.
Tenho certeza que vamos ficar assim até o despertador tocar e depois ela vai nos fazer correr para dar tempo dela se arrumar e eu ir levar ela e a Aninha. Mas como estou amando aqui, irei deixar a partida dela ainda mais difícil.
Eduarda começou com leves apertos pelos quadris de Lorena, depois com leves pressões nas pontas dos dedos, foi subindo pelas costas, massageando a região e se deliciando ao perceber a morena cada vez mais mole e emitindo leves grunhidos.
A ruiva percebeu que a esposa estava maldade pura naquela manhã, principalmente quando ela começou a segurar o rosto da delegada e a gemer bem manhosa ao pé do ouvido. Com cuidado, Eduarda virou a morena de lado na cama, prendendo uma das pernas de Lorena com a própria, depois desceu a mão direita pelo tronco nu e sorriu ao perceber um leve solavanco que a morena deu.
Uma troca de olhares e um sorriso safado foi o suficiente para elas iniciarem o ritual de acasalamento matinal.
Lorena aproveitou que estava por cima, desligou o despertador e se sentiu particularmente injustiçada em ter que parar um amor tão gostosinho e preguiçoso como aquele, então optou por continuar. Eduarda fez questão de deixar a esposa ir tomar banho primeiro, vestiu uma roupa e foi acordar a neta, que estava completamente sem coragem.
Lorena engoliu o café da manhã e Eduarda assistia a cena toda tentando conter um sorriso, eu sabia que seria assim!
— Meu amor, vamos logo! — Lorena berrou do lado de fora — Vou me atrasar!
Eduarda gargalhava enquanto Aninha ainda tentava decidir se estava dormindo ou acordada enquanto levantava da cadeira com um copo de danone na mão.
— Vó, posso faltar hoje? — A menina perguntou depois de alguns segundos.
— Claro que não… Sua avó é um caso sério!
XXX
Eduarda deixou Lorena no trabalho primeiro e as duas se despediram com um beijo rápido, Aninha assistia tudo do banco de trás com um sorriso enorme, que aumentou quando a avó se esticou toda para beijar a cabeça da neta.
A ruiva deixou Aninha na escola e mandou mensagem para Catarina, perguntando sobre ela, Breno e Antônio. Depois partiu para casa, tomou um banho decente, organizou minimamente a cozinha, o quarto e deitou, com a falsa promessa de escrever o discurso para o prêmio, dormiu em dois minutos Assim que acordou, foi procurar saber como a esposa estava…
Eduarda: Meu amor, você bebeu água direitinho? Eduarda: Lembra de beber, tá bem!
Lorena: Oi, meu amor! Lorena: Bebi sim, obrigada por ter enchido minha garrafa 🥰 Lorena: Você almoçou? Deixei sua saladinha pronta na geladeira, esqueci de avisar 😭 Lorena: Tô cansada, parece que passei a noite numa maratona
Eduarda: Almocei, minha vida! Papei ela toda! Eduarda: Por nada, meu amor! Me agradeça bebendo ela inteira! Eduarda: Mô eu tô acabadinha também… Eduarda: Quem poderia imaginar que uma noite de sexo quente nos deixaria assim Eduarda: Muito cardio na horizontal, graças a Deus 🙏🙏🙏 Eduarda: Hoje a noite vamos ter uma noite bem evangélica, você vai dormir de calcinha e de calça!
Lorena: Pois é! Só vou usar saia de agora em diante! Lorena: Você não sabia? Lorena: Tô com uma dor de cabeça marcada pra hoje a noite! Lorena: 😣😣😣😣
Eduarda: Você de saia 🥵🥵🥵
Lorena: Vou usar aquelas mais curtinhas, sabe? O calor tá demais pra usar longa!
Eduarda: 🤤🤤🤤🤤🤤🤤
Lorena: Meu amor, vou precisar ir agora… Tenho aula! Lorena: Te amo demais 💙
Eduarda: Boa aula meu amor lindo, te amo demais, mais que tudo Eduarda: Amo cada pedacinho seu, tudo, tudo, tudo! Eduarda: Você é minha vida 👩❤️👩 Eduarda: Mais tarde eu vou te pegar, hein!!!!
Lorena: Te amo, meu amor! Lorena: Mal posso esperar por “mais tarde”, então 😈😈😈
Eduarda: MEUAMORPARA!
A ruiva deu continuidade às suas novelas e saiu de casa um pouco antes da hora, pra buscar a neta. As duas foram direto lanchar na padaria, vou deixar ela tomar esse milkshake e se ela contar a avó, vou ficar encrencada! Por sorte, acharam uma barraquinha aberta e a ruiva comprou três girassóis.
— Sua avó ama flores, vamos levar esses dois também! — Ela falou para a neta e para o rapaz que trabalhava lá.
— Acho que ela vai ficar feliz com o lanche e as flores, vó! — Aninha falou sorrindo largo — Acho fofo isso de você presentear ela sempre!
— A gente tem que agradar quem a gente ama, meu amor! — Eduarda falou segurando a mão da neta — Esse aqui é seu! — A ruiva falou entregando a flor para a neta, que sorriu largo.
— Brigada, vó! — Aninha respondeu sorrindo boba, encarando a avó com o rostinho iluminado de amor e admiração.
As duas entraram no carro e Eduarda seguiu para o trabalho de Lorena.
A morena teve um dia estressante, é sempre uma choradeira sem tamanho no pós provas! Impressionante que eles não estudam e quem leva a culpa sou eu! Mas tudo aquilo se dissipou ao sair atordoada e dar de cara com Eduarda e Aninha, paradas na lateral do carro, cada uma com um girassol nas mãos.
Eu amo demais a minha esposaaaaaa!
Lorena apoiou a bolsa no capô do carro e levantou a neta nos braços, enchendo a pequena de cheirinhos e beijos estalados, depois foi abraçar a esposa e Aninha abraçou as duas.
— Oi, meus amores! — Lorena falou abraçando as duas.
— Oi, vó! Trouxemos lanche pra senhora também! — Aninha falou de uma vez e Eduarda riu.
— Ela é ótima com surpresas! — Eduarda falou e beijou a testa da esposa em seguida — Você tá bem, meu amor?
— Tô sim, tava morreeendo de saudade de vocês!
Nenhuma das três contava com um acidente no caminho de volta para casa e o trânsito infernal. Lorena já tinha perguntado sobre o itinerário das duas e principalmente sobre as coisas que a neta fez na escola, Eduarda ouvia com atenção enquanto acariciava a mão da esposa e vez ou outra, cantarolava baixinho.
Algum tempo depois, Ana acabou dormindo e a ruiva apenas cobriu a neta com sua jaqueta que estava no carro. Lorena amou o lanche “surpresa” que ganhou e fez questão de deixar alguns biscoitos separados caso a neta sentisse fome depois.
— Você trouxe os meus favoritos, meu amor! — Lorena falou com os olhos fechadinhos — Vem aqui! — Ela chamou e beijou rapidamente a esposa.
— Se eu soubesse que ia receber esse tipo de agradecimento, tinha trago até o padeiro!
Chegaram em casa por volta das oito e meia da noite, todas morrendo de fome e graças a Deus que já tinha janta feita, Eduarda estava doida para tomar um banho, até que Aninha soltou aquelas palavras:
— Vó, antes do banho, preciso de ajuda com as minhas tarefas de hoje!
Lorena sabia que a esposa estava doida para tomar um banho e logo interviu.
— Hoje, tá pela minha conta, mocinha!
— Tem certeza, meu amor? Se você quiser-
— Tenho, meu bem! Bom banho!
A ruiva beijou o topo da cabeça da esposa e seguiu direto para o chuveiro, o trânsito me mata! Tomou um banho delicioso e demorado, saiu completamente renovada, colocou um pijama folgadinho e partiu para sala. Já foi sorrindo no caminho ao ouvir Aninha lendo as perguntas para Lorena. Meu Deus, ainda estão fazendo tarefas?
— “Cite os estados do mapa e pinte de vermelho os da região nordeste” — Aninha leu e Eduarda sorriu ao ver a esposa pintando.
— Meu amor… Você não acha que quem precisa pintar é a Ana? — A ruiva perguntou sorridente e recebeu um olhar de mais ou menos “cala essa boca ou vamos passar mais dezesseis anos aqui e eu quero ir dormir.”
— Essa é a última, vó! — Aninha falou animada.
Assim que acabaram, Lorena já foi guardando os lápis de pintar, olhou no relógio do celular e faltavam apenas dez minutos para às dez da noite… Pai do céu, que sono!
— Ah, outra coisa… Vocês tem cartolina? Vou precisar para um trabalho amanhã! — Aninha perguntou sorrindo amarelo ao encarar as avós.
— Agora? — Eduarda perguntou incrédula.
XXX
O tão esperado dia chegou…
Obviamente que Lorena quase não pregou os olhos a noite… Ficou sendo atormentada em sonhos pela presença da tão estimada Teca!
— Meu amor, você pode me ajudar a vestir a roupa? — Lorena pediu manhosa, estava uma pilha de nervos, Eduarda já tinha percebido.
As duas tinham acabado de tomar banho e ainda faltavam algumas horas até o evento, mas como ainda tinha um breve credenciamento e Eduarda queria ir embora o mais rápido possível, estavam se arrumando.
Ambas optaram por maquiagens leves e Lorena encarava a esposa com certo divertimento, amava vê-la se arrumando e se produzindo.
— Eu prefiro a parte de tirar a sua roupa… Mas posso te ajudar sim, meu amor! — a ruiva falou e Lorena sorriu negando com a cabeça, graças a Deus ainda consigo fazer minha mulher sorrir em meio ao caos.
Eduarda prontamente se posicionou atrás da esposa, para ajudar a subir o zíper de um dos vestidos assinados por Violeta Fragoso. O modelo elegante era preto com detalhes beges e azuis e a visão das costas nuas da morena fez a ruiva sorrir largo, depositando uma trilha de beijos do meio das costas até a nuca.
— Tem certeza que é assim que sobe o zíper? — Lorena perguntou rendida.
— Meu amor, confia em mim, sei o que estou fazendo! — Eduarda falou sorrindo largo e deixando mais alguns beijos por ali.
Lorena se encarava no espelho e sorriu ao ver a cara da esposa pelo reflexo, já se virando para roubar um beijo rápido e Eduarda logo enlaçou a cintura da mais alta.
— Chega a ser até meio desrespeitoso o tanto que você é linda, meu amor! — Eduarda falou apoiando o queixo no ombro de Lorena, com salto, fica fácil!
— E chega a ser completamente desrespeitoso você estar deliciosa desse jeito! — Lorena falou encarando Eduarda dos pés a cabeça.
A ruiva estava usando o mesmo terninho marrom com um corte marcante que a mãe usou no jantar para comemorar o dia que as duas casaram no civil e o que chamava realmente atenção era o pequeno relicário de ouro no pescoço da delegada, Lorena se inclinou um pouco mais e com delicadeza, abriu a peça. Meu sogro sempre arrasa nos presentes de aniversário!
— Gostou? — Eduarda perguntou se autoavaliando — Vou estar deitada nessa cama mais tarde, com horário completamente disponível para possíveis testes drives… Vai que você quer provar! — A ruiva falou sorrindo largo e Lorena não se conteve e a beijou com fome.
— P-para de ficar me tentando, mulher! — A morena falou sorrindo e se soltando das garras da ruiva malígna.
XXX
O auditório já estava relativamente cheio, fervilhando com as presenças de policiais, advogados e outras autoridades, afinal, outras mulheres também receberiam seu devido reconhecimento. Eduarda reencontrou vários conhecidos e o astral realmente melhorava quando a ruiva estava por perto, Lorena conseguia sentir o quanto a esposa era querida e admirada por todos e aquilo aquecia seu coração.
E sem contar que eu ainda me derreto toda quando ela me pega pela mão e sai “olha gente essa daqui é minha esposa linda”, vinte e seis anos sendo A MULHER mais feliz do mundo mesmo!
— Doutora, dona Lorena… Estão bonitas hoje, u-um arraso! — Macedo falou sorridente, aparecendo de sopetão e abrindo os braços para um abraço rápido e desajeitado.
Eduarda soltou o ar pelo nariz, amo que ele vai sustentar que é gay até o fim dos dias quando a Lorena estiver por perto!
— Macedo! Que coisa boa lhe ver aqui, querido! — Lorena falou sorrindo, o sorriso favorito de Eduarda — Você está muito charmoso! Amei que aos poucos, está se soltando mais, até no estilo! Olha essa camisa, amor! — Lorena falou apontando para a camisa social apertadinha que o rapaz usava e Eduarda quis gargalhar da cara do rapaz.
— Tô vendo… Cadê o restante do pessoal, Macedo? — A ruiva perguntou e o rapaz, ainda processando que talvez se vestisse meio gay, fez um gesto de cabeça e Eduarda logo encontrou os colegas da delegacia sentados mais afastados.
A ruiva fez questão de ir lá e cumprimentar todo mundo e seguiram conversando com os presentes até cruzarem com duas pessoas conhecidas até demais!
— Delegada Eduarda Fragoso… Que adorável surpresa!
— Detetive Paulo Reitz, você está bonito! — Eduarda respondeu sorrindo ao encarar o amigo de longa data em roupas mais formais.
— Hum rum! Tomou banho e tudo! — Lorena falou provocando.
— Achei válido tomar banho para a Eduarda saber o que é limpeza, já que ela mora com você, que é uma carniça! — Paulinho rebateu fazendo uma careta.
— AI, que susto! — Lorena falou colocando a mão teatralmente no peito — Só não deve ser pior do que morar com você, que é um troglodita de cento e vinte anos de idade!
— Meu Deus, vocês são insuportáveis! — Gerluce falou revirando os olhos e puxando Eduarda pela mão e abraçando a amiga, depois abraçou Lorena.
Tanto Paulinho quanto Eduarda pareciam radiantes com a amizade entre as suas respectivas esposas.
— Obrigada por ter vindo, Gerlu! — Eduarda falou sorridente.
— Eu não perderia por nada! — Gerluce falou exibindo a fileira de dentes perfeitos e muita admiração no olhar para Eduarda — Agora vem, vamos falar com o restante do pessoal… Preciso de um pretexto para acariciar a barriga da Catarina.
A ruiva depositou um beijo rápido no ombro da esposa e seguiu com Gerluce, as duas foram caminhando para perto do restante da família Ferette Fragoso: Henrique, Catarina, Breno, Aninha e Antônio.
— Amiga, o que foi que houve com a sua aliança? — Gerluce perguntou e por um microssegundo a ruiva sentiu as pernas bambearem, pensando que tinha esquecido do acessório, ufa, graças a Deus que está no meu dedo!
— C-como assim?
— Ela está reluzente!
— Aaaaaah, levei na joalheria para dar um polimento, a minha e a da Lorena…
Como explicar que preciso que todo mundo saiba que eu sou casada? E que minha esposa precisa lembrar que eu sou dela de todas as formas humanamente possíveis e que em todos os universos que existirem serei dela para sempre…
— Vó, vem aqui! — Aninha chamou se afastando de Catarina — A sua ex já chegou? — a menina perguntou num sussurro, como se estivessem debatendo um segredo de estado.
— O que? N-não… — Eduarda respondeu abismada, pelo amor de Deus, que tipo de pergunta é essa? — Menina, vai sentar ali com a sua mãe, anda! — Eduarda falou tentando segurar a risada com a cara da neta, a Lorena tá fazendo escola mesmo.
— Mãe, você tá linda! — Catarina falou sorridente — Oi, tia! — A jovem falou levantando para abraçar Gerluce.
— Meu amor, você quem está! Juro, nossa menina está crescendo tão rápido aí dentro! Esse vestido ficou lindo em você! — a ruiva falou sorridente e riu ainda mais quando Antônio esticou os bracinhos para ela.
Não tô conseguindo acreditar que ele veio de roupa social, olha o tamanho desse sapato e essa camisa social!
— Oi, meu amor! Você está maravilhosa! — Gerluce falou sorridente — Todos estão lindos!
— Ele tá muito dengoso! — Breno falou encarando o próprio filho e Eduarda encarou o rapaz por alguns instantes, até o Breno tá chique hoje, uau!
— Todos estão muito arrumados hoje! — Henrique falou sorrindo.
— Inclusive o senhor! — Catarina falou encostando a cabeça no ombro do bisavô, que sorriu..
— O senhor tá bem famoso hoje, hein seu Henrique! — Breno falou sorrindo — Já falou com meio mundo de gente!
— Ele é uma celebridade! — Eduarda falou com Antônio aninhadinho nos braços.
— Tá muito charmoso, seu Henrique! — Gerluce falou e recebeu uma piscadela amigável do idoso.
— Não sei se sabem, mas minha filha vai receber um prêmio… Preciso estar à altura!
Ao passo que a ruiva seguia conversando com a filha, o pai, Gerluce e o genro. Lorena e Paulinho estavam do outro lado, mais perto da porta, unidos pelo descontentamento com a presença da inominável.
— Você sabe que eu só vim por causa da Duda, né! — Paulinho falou, os dois seguiam num tom meio conspiratório.
— Ai, Paulinho e você acha que eu queria encontrar aquela mulher? — Lorena perguntou beirando a indignação enquanto ajeitava o vestido com um movimento brusco.
— É impressionante que é só falar no diabo que ele mostra o rabo! — Paulinho falou apontando com o queixo para o palco do auditório.
Lorena respirou fundo e seus olhos logo buscaram Eduarda, que seguia completamente imersa numa conversa animada com Catarina, Breno, Henrique e Gerluce, completamente alheia ao tornado que se formava bem diante dos olhos verdes da morena e depois, foram para a figura em cima do palco.
Tatiana, ou Teca, para os conhecidos, estava a personificação da elegância calculada e milimetricamente desenhada para causar inveja. Mas que fique claro que nem sempre foi assim, quando nós nos conhecemos ela parecia uma doida, toda metida a DJ…Com certeza, pagou a disciplina de moda para advogadas no curso de direito! Usava um macacão de alfaiataria num tom creme absurdamente chique, o cabelo preto, de um corte chanel reto e brilhante, mas ainda de franja, balançava com uma precisão cirúrgica a cada passo, tenho certeza que deve ser tinta! Essa bruxa é mais velha do que a Eduarda! Ostentava uma postura tão polida, articulada e soberba que parecia pronta para apresentar um jornal internacional ou mandar prender metade do auditório por desacato.
Naquelas alturas, a presença de Teca ali, no mesmo ambiente que Lorena e Eduarda… Todo mundo parecia saber do passado das três e os conhecidos pareciam esperar por um espetáculo à parte, uma participação digna de Casos de Família!
E como se não bastasse, a promotora de justiça ainda queria ser simpática!
— Bom dia! — Teca falou exibindo um sorriso de lentes brancas, impecável e milimetricamente calculado — Detetive Paulo Reitz… Você… Envelheceu!
A franjuda falou encarando o velho policial aposentado dos pés à cabeça, Lorena ficou chocada com a capacidade da mulher de falar aquilo para Paulinho, ela desceu só pra falar que ele tá uma cacura velha? SE ELA FOR FALAR DO MEU AMIGO…
— Engraçado… Não sabia que estavam permitindo cobras caninanas em grandes eventos, agora… Opa, Teca! É o que geralmente acontece quando não se enche a cara de procedimentos estéticos! — Ele respondeu debochado.
— Vejo que o seu senso de humor continua exatamente igual, Paulinho… Que fofo! — a mulher respondeu cínica, destilando veneno com a maior elegância do mundo, o que só fez irritar mais Lorena.
— Algumas coisas precisam permanecer com o passar dos anos, não? O caráter é o mesmo! Pena que nem todo mundo tem esse privilégio… — Paulinho devolveu, cruzando os braços na frente do peito..
— E você… Uau… Lorena Ferette! — Teca falou e ambas se avaliaram dos pés à cabeça e graças a Deus pela inexistência do olhar de raio laser ou seriam duas pilhas de cinzas para o pessoal da limpeza jogar fora.
— Sabe, algumas coisas precisam sim permanecer com o passar dos anos, mas agora, é Fragoso, Tatiana! — Lorena falou, abrindo um sorriso educado, polido e letal, questão de honra para demarcar o território e se fosse preciso, até faria xixi em Eduarda!
— Não fica muito perto, Lorena… É radioativo! — Paulinho falou já puxando a morena levemente pelo braço num movimento sutil, numa tentativa também de impedir que a amiga cometesse um homicídio doloso em plena luz do dia.
Teca riu de canto e chocando um total de zero pessoas, decidiu infernizar!
— Infelizmente não vou poder passar minha manhã inteira aqui com vocês, sou a promotora responsável pelo evento e preciso chamar as homenageadas… Inclusive, onde está a Juquinha? — Teca perguntou procurando pela pequena multidão ali.
Somente a menção ao apelido já fez o peito de Lorena arder em ódio, mas antes, anos atrás eu era só uma menina, agora, sou uma mulher e casada!
— A Eduarda está bem ali, com a nossa família! — Lorena falou apontando, quase enfiando a aliança brilhante recém polida na cara dela e não que fosse difícil achar uma gostosa ruiva em qualquer ambiente.
— Nossa, a família inteira reunida? — Teca falou sorridente, daquele jeito cínico e fingido dela, ARGH! — E ainda os agregados… Aquela é a Gerluce? Não mudou em nada, continua com muito patrimônio! — Teca perguntou curiosa e gesticulou para o decote, imitando os peitões de Gerluce — Ela envelheceu como um bom vinho! — A promotora continuou e Lorena agarrou o pulso de Paulinho — Se me dão licença… Preciso ir ver como minha homenageada anda! — Ela falou sorrindo já se afastando, foi a vez de Paulinho segurar no pulso da amiga no mesmo instante.
Se essa cachorra! Peraí, peraí… Cadê minha sororidade? AH, FODA-SE! SE ESSA CADELA OUSAR ENCOSTAR NA MINHA MULHER, ELA VAI DESCOBRIR COM QUANTOS PAUS SE FAZ UMA CANOA E O QUE FICAR FALTANDO EU VOU ENFIAR NO CU DELA!
XXX
— Muito bom dia a todos! — Teca falou exibindo uma fileira de dentes perfeitos — Doutor Henrique, Gerluce, quanto tempo…
— Bom dia. — O grupo respondeu num coro uníssono de vozes polidas, mas era possível ver o desconforto nos presentes, principalmente em Eduarda, Gerluce e Henrique, que conheciam a peça de outros carnavais.
— Eu acho que foi pouco tempo, até! — Henrique respondeu com um sorriso amarelo e irônico, fazendo Eduarda quase engasgar de rir por dentro, amo esse velhote!
O pai nunca foi um grande fã de Tatiana, achava particularmente que o estilo avoado dela, metida a DJ nas madrugadas não combinava muito com o desejo de ser casada, de ser de alguém, que a filha possuía, mesmo quando esse desejo ficava escondido por baixo de uma capa de devassidão… E os humores quanto à promotora só pioraram depois que ela decidiu infernizar a vida de Lorena e Eduarda.
— Estou com o senhor! — Gerluce emendou, rindo de canto e fuzilando a promotora com o olhar. Mas aquilo não foi capaz de sequer causar danos à armadura de sonsa de Teca.
— Bom dia, Juquinha! — Teca soltou, cínica e expansiva, já abrindo os braços para um abraço íntimo que obviamente não aconteceu, enquanto avaliava a ruiva dos pés à cabeça com uma soberba irritante — Bom… Alguns rostinhos novos por aqui…
— Bom dia, Tatiana. — a ruiva respondeu num tom educado, estritamente profissional.
— Catarina. — Catarina se apresentou estendendo a mão educadamente e Teca notou na hora a combinação perfeita dos genes ruivos com os morenos de Lorena. Ela é linda e é a cara delas! Até as covinhas da Lorena a menina tem!
— Breno. — Breno falou apertando a mão de Tatiana.
— E essa fofura? — Teca se referiu a Antônio, que ainda estava aninhado como um bichinho preguiça nos braços da avó.
— É o Antônio. — Eduarda respondeu forçando um sorriso simpático.
— Um prazer conhecer a família da nossa querida Delegada Eduarda Fragoso! — Teca falou sorridente.
Como Deus deita, mas não dorme e escreve certo por linhas tortas, a querida Tatiana acabou optando pelo caminho mais tortuoso possível… Cutucando a oncinha com a varinha curta demais…
— Quem é essa princesinha linda, aqui? — Teca perguntou forçando o tom íntimo de tia carinhosa, pousando a mão na cabeça de Aninha.
— Meu nome é Ana. — A menina respondeu com cara de poucos amigos e já batendo o pé nervosamente no chão, hábito herdado da avó Lorena — Você que é a tal promotora?
— Sou eu sim! — Teca falou animada, já devem ter falado de mim até para a criança…
— Ótimo, pois fique bem longe da minha avó Eduarda! — A menina falou dando um passo à frente, fazendo Teca automaticamente dar um para trás.
Ninguém sabia muito bem onde enfiar a cara, mas Eduarda não poderia estar mais orgulhosa!
XXX
A cerimônia correu sem maiores percalços e era realmente maravilhoso ver a representatividade feminina e o quanto mulheres fazem coisas por mulheres. Particularmente, Eduarda se sentiu inspirada e até se emocionou com alguns discursos. A luta era realmente muito parecida para todas as homenageadas, mas cada uma tinha sua peculiaridade.
Lorena estava sentada ao lado do sogro, que já tinha tecido vários elogios quanto a beleza e a elegância da nora, principalmente usando aquele modelo de Violeta Fragoso e a morena também já havia sido infernizada várias vezes por Gerluce, que soltava olhares sugestivos e parecia ler os pensamentos profanos e pecaminosos de Lorena em relação à Eduarda.
PUTA QUE PARIU! Ela sentada com esse salto aparecendo, as pernas ligeiramente abertas, os cotovelos apoiados nos joelhos quando se inclina para conversar, as pernas cruzadas… UAAAAAAR que mulher deliciosaaaaaaaaaaa quero para mim!
— Gostaria de convidar agora para discursar, a delegada Eduarda Fragoso. — Teca chamou no microfone.
A ruiva se levantou da poltrona de honra e o auditório inteiro veio abaixo em aplausos. Paulinho e Macedo quase estouraram os pulmões de tanto assobiar e gritar, parecendo dois torcedores organizados no meio de um evento solene do Ministério Público.
Eduarda caminhou até o púlpito, ajustou o microfone com a firmeza habitual, mas, assim que correu os olhos pela plateia, a casca começou a derreter.
— Gostaria de saudar a todos com um bom dia… Em especial à minha esposa, ao meu pai, à minha família de casa e da delegacia, à minha filha linda e aos meus netos maravilhosos… — A ruiva começou, a voz já embargando ligeiramente na primeira frase, ao encarar aquele bloco familiar unido numa única fileira, os olhos castanhos marejaram na hora — Estou me sentindo verdadeiramente honrada em estar diante de tantas potências femininas, mulheres que fazem tanto por outras diariamente com atuações impecáveis. Acredito, do fundo do meu coração, que como servidoras públicas, o nosso dever maior é simplesmente tornar a vida das pessoas um pouco mais leve e mais justa. Este prêmio é apenas um lembrete bonito de que estamos no caminho certo.
O auditório aplaudiu. Eduarda respirou fundo, secando discretamente o canto do olho com a ponta do indicador antes de continuar, encarando diretamente o grupo de farda postado mais ao fundo.
— Mas ninguém faz nada sozinho, ainda mais nesse meio. Por isso, gostaria de estender este reconhecimento ao meu pessoal da delegacia. Esse prêmio é de vocês! Se não fosse pela lealdade e pelo empenho de cada um, eu jamais teria dado conta. Dona Dalva… sem o seu café e a sua organização, a delegacia ruía em dois dias! Adauto, Michele, Pâmela, Macedo, Paulinho… vocês tornaram e tornam os meus dias de trabalho possíveis e a minha rotina muito mais honrada. Obrigada de coração a cada um de vocês.
Eduarda pausou, apoiando as duas mãos nas laterais do púlpito… Preciso me segurar!
— E, por fim… dedico esta comenda à minha base, à minha família. Vocês são o meu combustível diário para querer construir um mundo mais seguro e me dão tanto amor que a única coisa que consigo fazer é tentar transformar esse afeto e devolver em forma de serviço para a sociedade.
Os olhos da ruiva buscaram primeiro o pai, sentado ereto na poltrona, visivelmente emocionado, com lágrimas gordas escorrendo.
— Ao meu pai, Henrique, por ser meu farol de integridade… Ao nosso saudoso Delegado Jairo e a minha mãe, Violeta Fragoso… — Eduarda falou, a voz falhando por um segundo enquanto a saudade apertava o peito de um jeito quase sufocante e esmagador — Q-que não está mais aqui fisicamente, mas segue viva em cada célula do meu ser e em todos os meus dias.
Henrique engoliu em seco, com os olhos vermelhos, assentindo devagar para a filha. Eduarda então virou o rosto para Catarina, Breno e os pequenos, encarando cada um com um olhar amor e gratidão, até que seus olhos travaram em Lorena.
— À minha filha, Catarina, por ser meu maior orgulho… Aos meus netos, que são a luz dos meus dias e ao filho que a vida me deu — A ruiva falou se referindo a Breno, que já chorava copiosamente — E à minha esposa, Lorena.
A morena encarava a delegada com a vista embaçada pelas lágrimas.
— Meu amor, você… Eu devo tanto a você! Obrigada por me ensinar cotidianamente há vinte e seis anos sobre amor, coragem e empatia… Por sua causa, tento ser uma pessoa melhor… Sei que independente de qualquer coisa, tenho o abraço mais seguro do planeta me esperando em casa. Você é a minha vida inteira, meu amor. Eu amo vocês. Obrigada.
A essa altura, Lorena já não tentava mais conter nada. As lágrimas desciam copiosamente pelo seu rosto, borrando a maquiagem. Ela apertou a mão do sogro de um lado e a de Gerluce do outro, fungando alto, completamente desarmada e transbordando de orgulho daquela ruiva estonteante no palco.
Assim que o discurso foi finalizado, Teca e alguns outros promotores se aproximaram, a capeta estendeu um lenço na direção de Eduarda, que aceitou e secou algumas lágrimas, em seguida, todos posaram para uma foto oficial com o prêmio, a Delegada Fragoso em sua pose mais natural de política, sem colocar as mãos em ninguém, mas claro que Teca pousou a mão confortavelmente na cintura da ruiva, que enrijeceu no mesmo instante.
Eduarda cumprimentou mais algumas pessoas com apertos de mãos rápidos, estava louca para descer dali e beijar a esposa. Com cuidado e com um sorriso nos lábios, a ruiva finalmente entrou na fileira onde a família estava sentada e saiu abraçando todos, os olhos encheram d'água ao encarar a neta, completamente emocionada.
— Vovó te ama! — A ruiva sussurrou durante o abraço em Aninha.
Catarina abraçou a mãe enquanto secava algumas lágrimas e depositou alguns beijos na bochecha da ruiva. Claro que naquelas alturas, Paulinho, Henrique e Breno estavam quase se afogando em tantas lágrimas e a ruiva fez questão de abraçar os três, se demorando mais no pai, que afagava as costas da filha e repetia uma frase que fez Eduarda chorar ainda mais:
— Sua mãe estaria muito orgulhosa! Nós amamos muito você, meu amor!
Por fim, e definitivamente não menos importante, Eduarda estava nos braços de Lorena. A morena puxou a ruiva para perto e as duas trocaram um olhar carregado de significado, de alívio e de puro amor que Lorena fechou os olhos e beijou de leve os lábios da esposa, guardando aquele segundo só para elas.
Vontade de agarrar o pescoço dela e encher de beijo, mas em casa ela vai ver só uma coisa!
Em seguida, se abraçaram apertado, passando alguns minutos daquele jeito no meio do burburinho do auditório, até que a ruiva se sentou ao lado da morena, continuando de mãos dadas, grudadas como se fossem duas adolescentes no primeiro namoro e não casadas há vinte e seis anos.
Assim que o evento acabou, todas as homenageadas foram chamadas para fotos no palco, com todos os promotores e autoridades presentes, depois cada uma foi tirar fotos com as respectivas famílias e convidados. Eduarda tirou uma foto com o pessoal da delegacia, depois de muitos abraços, e fizeram questão de tirar uma levantando a ruiva.
— Peraí! Se vocês me derrubarem no chão do Ministério Público, vou exonerar todo mundo amanhã cedo antes do café! — A ruiva falava mais alto, rindo e gesticulando no meio do bolo de gente.
— Pode ficar absolutamente tranquila, doutora! O meu preparo físico é impecável! — Macedo falou sorridente, abrindo os braços para segurar a perna da chefe e Eduarda apenas encarou a estampa de grilo diante de si… É melhor evitar!
— Alguém que não seja o Macedo pode me segurar aqui na frente, por favor? — A ruiva pediu e todos riram.
Depois vieram as fotos com a família inteira: com os netos correndo em volta, com o pai todo orgulhoso, com Catarina e Breno, com Paulinho e Gerluce fazendo careta, e culminando na clássica foto de Eduarda montada literalmente nas costas de Paulinho, quase derrubando o investigador no chão.
— Paulinho, para de invenção! Osso de velho não cola, hein! — Lorena falou provocando e recebeu apenas uma cara feia, que a fez rir.
Lorena assistiu à folia com um sorriso estratosférico e apaixonado no rosto. Mas, quando chegou a vez da patroa da casa, o tom das fotos mudaram: foram fotos belíssimas, com direito a selinho, casal calango e um beijão cinematográfico que fez o bando de policiais assobiar como se estivessem num estádio de futebol. — Posso participar da farra? — Uma voz familiar falou e todos se viraram para encarar Teca, com o sorriso de canto nos lábios.
— Foi mal, a sessão do show de horrores é para lá! — Paulinho falou e todos tentaram conter o riso.
O Paulinho odeia a Teca mesmo…
— Ah, qual é! — Teca falou genuinamente divertida — Sei que tivemos nossas diferenças no passado, mas amadurecemos e claramente a vida passou para todo mundo.
Eduarda seguia completamente em choque com a cena toda e o queixo bateu no chão quando Lorena, sim, a sua Lorena, tomou a frente da situação.
— É verdade! — Lorena falou convicta, se essazinha… essa SIRIGAITA acha que vai pagar de amadurecida para cima de mim e eu vou aceitar calada, ela está REDONDAMENTE ENGANADA! — Somos mulheres crescidas e não podemos continuar culpabilizando a Tatiana por ter sido uma burra sem noção no passado! Passado é passado!
Eduarda e Paulinho arregalaram tanto os olhos que o próximo passo era explodir.
— Pelo amor de Deus… — Eduarda murmurou baixo, completamente em choque — V-vamos tirar l-logo essa foto!
— Macedo! — Lorena chamou animada ao ver a cara de tacho de Teca — Vem aqui e tira uma foto da gente, por favor!
O jovem prontamente se disponibilizou, segurando os dois telefones e posicionando todos da melhor forma possível. Ao final da foto, Teca abraçou Paulinho meio que a contragosto, assim como Gerluce e trocou um aperto de mãos singelo com Eduarda, que não quis graça.
— Foi um prazer revê-los! — Teca falou sorridente.
Prazer? Prazer eu sinto ao ver minha esposa, te ver foi como um filme de terror, um pesadelo, dor de dente, cólica menstrual…
— Foi… Diferente! — Lorena falou com o mesmo sorriso nos lábios — Se cuide, Teca!
— Vocês também! — A promotora falou num tom mais humano — Qualquer coisa, estou à disposição! — Ela falou de forma profissional e se virou.
Assim que a figura sumiu de vista, Lorena deu um tapinha leve no peito da esposa, puxou Eduarda pela lapela do terninho para um selinho rápido e, logo em seguida, enlaçou a cintura da ruiva com força, puxando-a contra o próprio corpo.
— Macedo, vem aqui, por favor! — A morena chamou com a voz melosa, enquanto Eduarda aproveitava para enterrar o rosto no pescoço cheiroso da esposa, distribuindo beijinhos carinhosos ali.
O jovem passou por Paulinho e Gerluce com um sorriso animado nos lábios.
— Opa, Dona Lorena!
— Você esteja avisado: da próxima vez que inscrever minha esposa em qualquer evento que seja e alguma ex dela estiver envolvida… — Lorena falou entredentes — Lembra daquele salto? O do forró, que você achou belíssimo? Eu vou enfiar ele na sua goela! — A morena disse por fim e Macedo e Eduarda se encararam, completamente incrédulos.
Problema dele, também! Nem adianta ficar me encarando com essa cara de cachorro pidão! Vou fazer o que? A mulher é minha e o ciúme é dela!
— Mães! — Catarina chamou — Vamos, a nossa reserva tá feita e eu tô morrendo de fome!
Lorena, que até meio segundo atrás estava ameaçando desmembrar Macedo com um salto agulha, mudou de feição instantaneamente, abrindo um sorriso angelical para a filha. Para comemorar, morena tinha feito questão de reservar o mezanino de um dos restaurantes favoritos de Eduarda.
Lorena tinha reservado o mezanino de um dos restaurantes favoritos de Eduarda para que pudessem comemorar a premiação.
— Ela tem que comer por dois, sogrinhas! — Breno endossou.
— Vamos, meu amor! Vamos encontrar todo mundo lá! — Lorena respondeu num tom completamente amável, diferente de dois segundos atrás.
Eduarda encarou a esposa de soslaio, pensativa. Se eu fizer uma piadinha agora, posso arrumar uma confusão homérica... Ou posso ficar calada, morder a língua e...
— Todo mundo, é? — A ruiva soltou, incapaz de se conter, clamando aos céus para não rir.
— Sim, meu amor… — Lorena começou a responder, mas a voz foi estancando no meio do caminho, o sorriso congelando nos lábios — Todo mundo! — A morena falou erguendo a sobrancelha, estreitando os olhos de um jeito perigoso. .
Pai nosso que estais no céu, santificado seja vosso nome, venha nós ao vosso reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu…
— Até a sua amiga nova? — Eduarda falou séria e viu a fumaça saindo pela venta de Lorena.
— Ô sua palhaça, você tá falando no nome dessazinha por que? Hein? Eduarda, não testa minha paciência! — Lorena falou de uma vez, sentindo a cabeça inchando.
Mas a ruiva sabia exatamente como desarmar a bomba antes que ela estourasse de vez. Com um sorriso irresistível e a carinha mais manhosa do mundo, Eduarda avançou rápido, fechou o espaço entre as duas e enlaçou a cintura fina de Lorena num abraço apertado, colando o corpo da esposa no seu.
Sem dar tempo para a morena continuar, a delegada enfiou o rosto no pescoço cheiroso da morena e começou a distribuir uma sequência de cheirinhos profundos, seguidos de beijinhos quentes e manhosos.
— Seu grude, isso… Você faz de propósito porque sabe que eu sou fraca! — Lorena resmungou num muxoxo manhoso, erguendo o queixo para o alto com o bico ainda levemente armado, embora já estivesse derretendo inteira com os carinhos da esposa.
— Faço mesmo… porque eu te amo demais, é lindo quando quando você fica bravinha! — Eduarda falou e riu baixinho, subindo os beijos até depositar um selinho estalado nos lábios da esposa. — Agora vem, coisa linda da minha vida, vamos! Se a gente atrasar mais um minuto, a Catarina chama a tropa de choque.
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