Capítulo 5
Lua de mel
O fatídico dia da partida para a lua de mel, finalmente, tinha chegado!
Catarina passou por lá com Breno de carro no horário combinado e eles precisariam usar os dois veículos, já que além de mais duas adultas, ainda existiam as malas. Claro que Eduarda fez questão de empurrar as malas no próprio carro e partiram no outro, com a filha, os netos e a esposa, deixando o genro para trás.
Breno havia se responsabilizado pela missão de tomar conta das plantas de Lorena, que passou as instruções apenas cento e trinta e duas vezes, enquanto a ruiva observava tudo. Estava ansiosa mesmo para voltarem e checar como estavam todas, longe dela torcer para que alguma planta favorita de Lorena ficasse meio capenga, só para a esposa se juntar a ela no time de “não fãs de Breno.”
No aeroporto, a despedida não foi tão angustiante quanto Lorena pensou que seria. Beijou a filha, acariciou a barriguinha que já estava um pouco maior, abraçou o genro e até teve tempo para apreciar Eduarda com Aninha e Antônio, a ruiva apontava para os aviões e dizia alguma coisa aos pequenos que os faziam ficar com os olhos brilhando, tudo isso sem falar nas milhões de fotos dos dois no aeroporto.
Se fosse em qualquer outro dia, Lorena tinha certeza de que Eduarda daria um jeito de colocar os pequenos dentro da cabine!
— Lembrem de avisar qualquer coisa! — Catarina pediu enquanto secava uma lágrima de Eduarda.
— Nós vamos avisar sim, filhota! — Lorena garantiu.
— E quando voltarmos, vai ter o chá de bebê, hein! — Eduarda pontuou — E lembrem de checar o senhor Henrique Fragoso, por favor!
— Nós falamos com o Paulinho e com a Gerluce sobre isso também e eles vão nos dar uma força — Lorena completou.
— Pode ficar tranquila, vó! Vou chamar o biso para almoçar no sábado! — Aninha falou e todos sorriam.
Lorena quis rir quando Breno agarrou Eduarda pela cintura num abraço caloroso demais, levantando a ruiva alguns centímetros do chão. A ruiva foi pega completamente de surpresa, permaneceu paralisada com os braços erguidos no ar, igual a um boneco de posto, com uma expressão que oscilava entre choque e ultraje.
— Faça uma boa viagem, sogrinha! — Breno exclamou, chacoalhando a delegada como se ela fosse um saco de batatas.
Como já era de se esperar, a ruiva chorou se despedindo de todos, especialmente, da barriguinha da filha.
— As vovós vão, mas vão voltar, meu amor! — Eduarda falava com a barriga.
As expectativas para aquela viagem eram bem similares para ambas. Claro que já tinham embarcado em várias aventuras juntas antes, mas todas as “luas de mel” eram especiais e havia uma certa empolgação até meio adolescente em tudo aquilo.
De repente, era como se fossem duas jovens recém casadas novamente, como se o tempo não tivesse passado em nada… Era engraçado perceber que Eduarda continuava mimando Lorena em todos os mínimos detalhes e como resposta, a morena atiçava e amolecia o coração da ruiva.
— Amor, você trouxe-
Eduarda prontamente estendeu o tapa-olhos com uma estampa de sapinho e Lorena sorriu.
— Você quer ouvir música? Trouxe meus fones. — Eduarda perguntou oferecendo um fone à esposa.
Todas as vezes que Lorena tinha oportunidade de entrar nas playlists da esposa, saia surpresa. A ruiva era a pessoa mais eclética que ela conhecia na vida. Aceitou o fone de ouvido e por enquanto, Adriana Calcanhotto cantava baixinho.
As duas seguiram em silêncio de mãos dadas, a morena estava completamente imersa no carinho de dedo que estava recebendo, Kid Abelha também agraciou os ouvidos das duas, a trilha sonora romântica já ia dando o clima da viagem e do nada…
— Meu amor, que música é essa? — Lorena perguntou espantada, saíndo do transe e encarando a esposa com os olhos arregalados.
— AMOR! — Eduarda falou empolgada, mas logo se conteve, lembrou que estavam num avião — Essa eu conheci com uns meninos da perícia, lá na delegacia! É um sucesso!
— Passa o celular pra cá! — Lorena pediu com um gesto de mão e logo desbloqueou o aparelho, claro que ela sabia a senha. Olhou de lado e Eduarda balançava o corpo com os dedinhos para cima enquanto dublava a letra sem emitir nenhum som.
— “Minha mulher é mó gostosa, vou casar final do ano…” — Eduarda seguia cantando e Lorena seguia incrédula.
— BDSM? — Lorena leu o título incrédula — Estou sem palavras…
— “Diga não a poligamia e para com essa palhaçada! Se quer relação saudável, vai namorar uma salada, eu não boto chifre nela e com certeza ela não mente, bom demais ser monogâmico, BDSM!” — Eduarda cantou a estrofe com alegria de viver e um sorriso resplandescente, enquanto Lorena permanecia atônita.
XXX
Que Eduarda era uma romântica incurável, Lorena já sabia, mas ainda assim, se surpreendeu com o itinerário que a esposa havia preparado para a estadia delas por ali. Se hospedaram exatamente no mesmo hotel que ficaram na primeira lua de mel em Veneza, há 26 anos atrás.
O Residenza D'Epoca San Cassiano parecia ter congelado no tempo, assim como os arredores do Grand Canal. Lorena teve uma leve crise de choro assim que um táxi as deixou na frente familiar do hotel, com a fachada de pedras que vez ou outra refletia a água dali e Eduarda fez questão de beijar todas as lágrimas de Lorena que insistiam em cair.
— Ah, meu amor… Parece que estamos aqui pela primeira vez! — Lorena falou segurando as mãos da esposa — Você estava usando uma calça jeans azul-clara e aquela blusa verde sem mangas! — A morena falava e mais lágrimas escorriam com as lembranças puras — Você também disse que aquela era só uma das nossas primeiras aventuras…
Realmente, eram muitas lembranças e desde aquela época, a ruiva parecia ter tanta certeza do futuro que teriam pela frente… Claro que Eduarda não conseguiu se segurar e começou a chorar também.
— Eu amo tanto você, meu amor! — Eduarda falou de um jeito sério, que fez tudo dentro de Lorena se revirar — Você prendeu os cabelos assim que entramos e disse que um dos móveis de ébano do saguão te fizeram lembrar de um que tinha na casa dos seus avós! — A ruiva complementou a lembrança da esposa.
Ficaram ali por um tempo, abraçadas à beira do canal.
Deixaram as malas no quarto e no caminho, foram percebendo mudanças sutis na arquitetura do local, era isso ou a memória delas que já não estava mais igual, vinte e seis anos depois…
Apesar do cansaço da viagem, resolveram sair para uma caminhada breve pelas ruazinhas estreitas. O barulho da água e o vento eram revigorantes. Lorena seguia babando ao ouvir o italiano perfeito de Eduarda, que automaticamente lembrou das aulas que teve com a mãe, quando era bem mais nova e as duas caminharam juntas de mãos dadas por horas, almoçaram pela rua mesmo, definitivamente, não é uma cidade para se contar calorias ou seguir qualquer dieta, e só voltaram para o hotel no início da noite.
— Amanhã vamos triplicar o protetor solar, mocinha! — Lorena falou enquanto passava hidratante nos braços e ombros levemente avermelhados de Eduarda, que já estava completamente trajada com seu pijaminha de algodão para dormir.
— Vamos sim, meu amor! Amanhã, teremos um dia cheio! — Eduarda falou beijando os nós dos dedos da esposa.
Lorena pegou as duas toalhas de cima da cadeira e as levou para o banheiro do hotel.
— Meu amor, você quer que eu peça algum cházinho ou alguma coisinha leve pra comer antes de dormir? — A ruiva perguntou da cama, estava ajustando o despertador para o dia seguinte e respondendo algumas mensagens do grupo da família, até que…
— Amor, acho que não vai precisar! Comer mulher bonita às vezes é um lanche da noite também! — Lorena falou de forma pecaminosa e assim que Eduarda encarou a esposa, temeu ter um deslocamento de mandíbula, já que o queixo caiu na mesma hora.
Lorena tinha deixado o roupão felpudo pelo caminho e surgiu do banheiro testando toda a saúde cardiovascular de Eduarda. Usava uma camisola longa de seda pura num tom perolado, com alças finas e um decote delicado em renda, que contornava o colo e os seios com extrema elegância. O tecido parecia deslizar pela pele macia, desenhando suavemente as curvas da cintura fina e caindo de forma impecável pelos quadris, tudo isso somado às luzes do lustre luxuoso, criando um brilho acetinado.
Ela parecia ter saído de alguma cena de sonho em um filme.
Eduarda se sentou na cama com a boca aberta, como se encarasse uma divindade viva diante de si e Lorena estava completamente maravilhada com toda a reação boba da ruiva, afinal, se tinha uma coisa que ela gostava era de se fazer de papel para levar tesourada da esposa e naquela noite, tinha planos para ser rasgada sem dó…
Eduarda pigarreou e piscou algumas vezes, tentando sair daquele encantamento e acabou soltando um suspiro animado. Se sentia uma menina bobinha e inocente, incapaz de lidar com tamanho acontecimento. O coração já tinha começado uma maratona e parecia um tambor do Olodum durante o carnaval.
— Meu amor… Q-quando… — Ela até tentava formular alguma frase, mas faltava coerência e traquejo para aquele Bambi — Eu n-não vi… A m-mala-
— Eduarda Fragoso, Eduarda Fragoso… — Lorena falou num tom grave que fez a ruiva se arrepiar inteira — Você não achou mesmo que eu viria para uma Lua de Mel despreparada, não é? — Lorena falou subindo e se ajoelhando na cama.
A ruiva parecia um cachorro, não aqueles grandes e imponentes e sim, aqueles pequenos com carinha de bobo, que babam e abanam o rabo até quando estão sob perigo iminente. E Lorena… os olhos verdes eram divertidos, mas carregavam uma onda de luxúria e tesão por baixo, os olhos de cigana, oblíqua e dissimulada. Lorena era uma onça. Felina. Fatal. Eduarda era presa fácil.
Lorena apoiou as mãos macias no colchão, empinando a bunda e arqueando as costas devagar. Abaixou o rosto com uma lentidão quase torturante e com habilidade, abocanhou o dedão do pé da esposa e o chupou com firmeza, passando a ponta da língua quente sem desviar por um segundo sequer os olhos verdes dos olhos castanhos e pupilas dilatadas da ruiva.
Eduarda arfou alto, o corpo dando um sobressalto involuntário na cama e sentiu um calor lhe subindo pelas coxas.
A morena começou uma escalada de beijos e mordidas sutis: a curva do tornozelo, a pele macia da canela, o joelho… subindo devagar pela parte interna da coxa, onde o calor da pele de Eduarda parecia irradiar em ondas vulcânicas e a ruiva já sentia o baixo ventre contrair em espasmos quentes e famintos por mais.
Eu estou hiperventilando!
Completamente desesperada por mais contato, queria ser devorada inteirinha, de uma vez só, numa abocanhada só! Eduarda levantou as mãos trêmulas e as levou até a barra da própria blusa, afobada em se livrar de qualquer barreira entre seu corpo e o de Lorena.
— Psiu! — Lorena soprou contra a pele da coxa dela, balançando a cabeça negativamente, o olhar pegando fogo enquanto dominava a situação — Eu quem vou tirar… Hoje, você é minha, Eduarda!
Bambi soltou uma lufada de ar pela boca e caiu no colchão, completamente mole e com um sorriso incrédulo nos lábios.
XXX
Para quem já observou gatos, sabe que os laranjas são completamente impossíveis e que os pretos esperam para dar a botada na hora certa, é fácil perceber que quando começam a brincar com alguma coisa, se demoram naquilo.
O relacionamento e as personalidades de Eduarda e Lorena era bastante semelhante.
O quarto antes imaculado do hotel, agora estava meio bagunçado e em algum momento da noite, todos os travesseiros e lençois acabaram indo parar no chão, salvo uma almofada que Eduarda encaixou milimetricamente atrás da cabeceira chique de madeira, para evitar o contato da peça com a parede e o barulho.
A ruiva conseguia sentir perfeitamente a silhueta da esposa deitada a sua frente e sorriu ao sentir que uma de suas mãos estava apoiada maravilhosamente no peito de Lorena, que seguia dormindo tranquila. Eduarda passou a mão livre pelo rosto e a mente estava na noite passada. Claro que o sexo foi maravilhoso e não foi só Eduarda quem levou a língua turbo e os dez dedos que vibram em cinco velocidades…
Memórias da língua quente e molhada de Lorena sugando e mordiscando os mamilos da delegada eram exibidas no telão de sua mente, assim como os beijos, os dedos emaranhados nos cabelos, os gemidos, as estocadas firmes… Até mesmo a mordida no ombro, Eduarda tinha certeza que ficaria roxo, mas não poderia estar mais feliz.
E depois, as duas se beijando com os queixos sujos delas, se beijando e se encarando até pegarem no sono, é como estar no céu.
Alguns minutos depois, o despertador tocou e Lorena sentou num pulo enquanto Eduarda desligava a gritaria.
— Bom dia! — A morena falou sorrindo, com os cabelos apontando para todas as direções.
— Bom dia! — Eduarda respondeu a puxando pelo braço e distribuindo uma trilha de beijinhos e cheirinhos pelo pescoço de Lorena, que sorria mole e puxava a mulher para mais perto.
— Meu amor, acho que você conseguiu me engravidar, ontem! — Lorena falou esfregando os olhos e Eduarda riu
— Quase que você me matou com aquela roupa… — Eduarda falou cobrindo os olhos — Meu amor, eu fiquei em choque! Você é a mulher mais linda que eu já vi mesmo, graças a Deus que é todinha minha! — A ruiva falou beijando as clavículas desnudas da morena.
— Ah, meu Deus… Olha o seu ombro, meu amor! — Lorena falou deslizando as pontas dos dedos pela marca arroxeada e depois cobrindo os próprios olhos — Você me desculpa?
— Por causa dessa besteira? Para com isso!— Eduarda perguntou incrédula e tinha o pressentimento de que se Lorena lhe desse uma facada de amor, ela aceitaria de bom grado.
XXX
Depois do banho, o café da manhã foi um evento.
— O que foi? — Eduarda perguntou curiosa, munida de uma xícara de café.
Lorena seguia analisando cada detalhe da ruiva e achava tudo lindo. Com cuidado para não esbarrar em nada, deslizou a mão por cima da mesa e encontrou a mão livre da esposa, deslizou as pontas dos dedos pelas alianças, pelo dorso da mão e pelo pulso branco.
— Você. — Lorena respondeu como se só aquilo bastasse.
Ninguém saberia dizer qual das duas estava mais empolgada para aquele banquete e tudo isso sem nem falar da vista… Eduarda poderia jurar que as frutas que estava comendo e o café que bebeu eram mais gostosos só pelo fato de estarem sendo consumidos na varanda, observando as águas se movimentando de um lado para o outro de forma preguiçosa lá embaixo. Mas as duas logo se organizaram e partiram.
— Eduarda, sai da ponta desse barco! — Lorena falou pelo que pareceu a milésima vez em cinco minutos — Você é gondoleira, por acaso? — Lorena perguntou irritada.
A ruiva tinha reservado um passeio romântico nas gôndolas pelo Grand Canal, que parecia um sonho realmente: o céu azul sem nuvens, a música baixinha, as duas ali coladinhas e o cenário de tirar o fôlego… Mas Eduarda não conseguia parar quieta por um instante. Lorena já tinha tentado calcular de forma completamente irreal a profundidade daquelas águas e inspecionava cada milímetro do barco, vai que está furado?
A ruiva ativou seu arquétipo de vereadora em época de campanha, mulher do povo e em menos de dois minutos fez uma amizade genuína e de velhos tempos com Matteo, o gondoleiro.
— Desculpa, meu amor! — A ruiva falou sentando entrelaçando os dedos das duas e beijando repetidas vezes a mão de Lorena, até ela não se aguentar mais e sorrir.
As duas seguiram pelas ruas de mãos dadas, completamente despreocupadas e faziam questão de parar nas lojas, caçando os presentes perfeitos para os netos e para o restante da família.
— Amor, nós vamos pagar excesso de bagagem, tenho certeza! — Lorena falou sorrindo ao pagar mais um conjuntinho de roupas para o bebê que ainda nem nasceu.
— Pecado maior é não levar isso daqui pra Aninha! — Eduarda falou apontando para uma pilha de roupas.
O vento açoitava os cabelos das duas, que sorriam sem parar. Lorena seguia encarando
Eduarda: o desenho do queixo, o nariz arribitadinho, os olhos que brilhavam e as ruguinhas ao lado dos olhos. O tempo realmente passou, implacável como sempre, tantas coisas se foram, mudaram e elas permaneceram ali. Uma pela outra.
— A gente pode ir lá, se você… Ei, meu amor, cê tá me ouvindo? — Eduarda perguntou animada.
— Claro que eu estou te ouvindo, meu amor — Lorena falou pousando as sacolas no chão e colocando as mãos em cada lado do rosto de Eduarda, fazendo um carinho leve nas bochechas com os polegares.
— Tá bem? — Eduarda perguntou sorrindo, fechando um dos olhos por causa do sol.
— Eu sou muito, mas muito, muito apaixonada por você, meu amor! — Lorena falou e depositou um beijo no canto da boca da ruiva, que sorria largo.
— E eu sou a mulher mais sortuda do mundo inteiro só por isso! — Eduarda falou e deu um beijo na testa de Lorena — Te amo! — Eduarda falou colando a testa das duas.
Assim que escureceu e as duas finalmente chegaram no hotel, Eduarda informou gentilmente que tinha mais uma surpresa pra aquela noite. As duas tiraram um breve cochilo e por Lorena, passariam o resto do dia assim, mas se a ruiva tinha planos, os planos seriam cumpridos!
Como de costume, partiram para o banho e Lorena conseguia sentir que Eduarda estava ansiosa para alguma coisa, mas para o que? A morena ficou surpresa ao ver que a esposa estava usando um conjunto arrumado demais para um simples jantar e tomou aquilo como parâmetro.
— Amor, você pode atacar aqui, por favor? — Lorena pediu aproximando o corpo da ruiva, com uma gargantilha delicada de ouro branco, um dos primeiros presentes que Eduarda lhe deu, ainda quando eram noivas.
Eduarda segurou o fecho e não conseguiu não deixar um beijo na nuca de Lorena, que se arrepiou com o ato.
— Deixa eu passar creminho nas suas pernas, vem aqui — Eduarda pediu docemente e Lorena não negou, se aproximando e apoiando o pé entre as pernas da ruiva, que com habilidade e cuidado, passou o hidratante pela região.
— Você está linda, meu amor! — Lorena falou encarando a esposa de cima, que subitamente ficou tímida com o elogio.
— Você que está!
— Mas você está mais! E ainda é minha! — Lorena falou sorrindo e Eduarda beijou o joelho que ainda estava ali, ao alcance.
XXX
Lorena aproveitou um grande espelho no lounge do hotel para dar uma última conferida no look e sorriu ao perceber a esposa atrás, com a mão esticada e os dedinhos balançando, aquilo era como um ímã de mãos.
As duas seguiram caminhando de braços dados pelas ruas ventiladas e a conversa fluia solta, sobre algum detalhe específico do dia e sobre as fotos de Aninha e Antônio cuidando das plantas da vó Lore, que Catarina tinha enviado.
— Meu amor, estamos mesmo no caminho certo? — Lorena perguntou divertida após dobrarem uma viela de pedras exatamente igual a todas as outras três.
— Estamos quase chegando, amor! — Eduarda falou, confiando toda sua memória ao GPS que tinha acessado antes de saírem do hotel e após alguns minutos, chegaram.
O restaurante era uma pequena e escondida trattoria em meio aos paredões de pedras seculares. O ambiente era banhado por uma luz alaranjada e havia algumas velas que derretiam devagar sobre garrafas de vinho antigas no centro das mesas. O cheiro era maravilhoso, um mix de manjericão fresco, temperos e azeite.
— Depois falam que os brasileiros são barulhentos! — Eduarda resmungou ao ouvir a gritaria de uma das mesas italianas.
Depois que Eduarda mencionou o sobrenome dela, um garçom as acompanhou até a mesa, que era um pequeno quadrado de madeira escura, posta num canto mais reservado e menos barulhento, graças aos céus, ao lado de uma janela de arcos antigos. Lorena fez questão de puxar a cadeira para a esposa sentar e sentou em sua frente.
A morena não comentou nada, até porque o garçom ainda conversava com Eduarda, mas amou o fato de que as pernas das duas se entrelaçaram por baixo da toalha xadrez que caia. Com cuidado, Lorena deu uma leve pressionada na coxa macia da ruiva, que a encarou por um instante com um sorriso lindo e se voltou para o garçom novamente. Cada sutil variação de posição gerava um arrepio gostoso, mantendo o calor do desejo aceso e em banho-maria.
— Grazie, daremo un'occhiata al menu e la chiameremo tra un attimo! — Eduarda falou num italiano perfeito enquanto segurava os cardápios e o garçom sorriu simpático e se afastou.
— Spero che sappia fare la respirazione artificiale perché mi stai togliendo il fiato! — Lorena falou e deu seu sorriso mais safado, ela falando italiano… abala minhas placas bucetônicas! E Eduarda riu tímida.
— Me cantando em outras línguas quando a única que eu quero é a sua! Aff! — Eduarda respondeu e Lorena riu jogando a cabeça para trás.
Assim que o homem se afastou, o barulho ao redor pareceu sumir, como sempre acontecia e existiam apenas elas. As duas conversaram um pouco sobre o cardápio e todas as opções pareciam deliciosas, mas o tempo inteiro, em qualquer oportunidade, ficavam se encarando.
— Você fica me encarando desse jeito… — Eduarda falou fingindo estar concentrada no cardápio.
— É que você é bonitinha, rapaz!
— Cê achou? Que tal levar pra casa? — A ruiva respondeu e viu as bochechas da esposa corando e as covinhas aparecendo.
Algum tempo depois, Giuseppe voltou trazendo as entradas de ambas e Eduarda optou por algo vegano também, assim conseguiriam trocar algumas garfadas e claro, um excelente vinho.
— Isso tá divino! — Lorena falou segurando uma bruscheta.
— Amor, me dá um pouquinho. — Eduarda pediu sorrindo e Lorena estendeu as duas mãos, uma com a comida e a outra tentando evitar que a esposa se sujasse.
— Hum… — A ruiva mastigava de olhos fechados — Tá delicioso!
A comilança seguia tranquila, as duas se esbaldando naquelas delícias e no vinho saboroso, até que Lorena lembrou de um detalhe importante e seguiu encarando a esposa por alguns segundos, com um brilho profundo nos olhos verdes, o tipo de encarada que fazia Eduarda se revirar inteira.
— O que foi, meu amor? — Eduarda perguntou com a voz macia, acariciando os dedos da esposa em cima da mesa — Tá com muita fome? Acho que os pratos principais já vão chegar…
— Não, não… Tá tudo bem, tava só lembrando de uma coisa — A morena respondeu com a voz embargada. Com cuidado, soltou a mão de Eduarda e alcançou a própria bolsa, que estava apoiada no encosto da cadeira — Mesmo antes de saber que a gente vinha pra cá, já vinha pensando nisso, digo, nos nossos vinte e seis anos de casadas e no quanto eu queria que a minha mãe estivesse aqui para ver isso.
Eduarda assentiu devagar, com os olhos brilhando e transbordando amor. Sabia que a memória de Zenilda era um território sagrado e imaculado para Lorena.
A morena então retirou da bolsa uma caixinha pequenininha de veludo, meio gasta pelo tempo e a colocou suavemente sobre a toalha de mesa, no espaço entre as duas.
Acomodado no veludo, reluzia um anel delicado de ouro antigo, trabalhado com detalhes finos e pequenas pedrinhas que refletiam a luz alaranjada do ambiente. A delegada reconheceu a peça no mesmo instante, já tinha visto o objeto na mão da sogra várias vezes.
— Sei que já temos alianças novas — Lorena falou apressada, encarando o próprio dedo anelar, ali estava a aliança ajustada com os aneis que as duas se presentearam — Mas aproveitei que o Leo veio e pedi para ele trazer esse aqui… Foi um presente da minha avó para a minha mãe… — A morena falou com a voz embargada e os olhos cheios de água — Acho que é a coisa mais velha de família que eu tenho e… — Lorena precisou respirar fundo.
— Lorena… Meu amor — Eduarda murmurou, sentindo os olhos marejarem — O anel da sua mãe…
— É uma joia de família, meu amor — Lorena explicou, e uma lágrima teimosa rolou por sua bochecha — Nada mais justo do que entregar para você! Você é minha família, Duda…
— Lorena falou de forma simples, como se fosse óbvio — E a dona Zenilda amava você como uma filha, tenho certeza que ela está felicíssima, assim como eu! Meu amor, são vinte e seis anos sendo a mulher mais feliz do universo!
Há essas alturas, claro que Eduarda Fragoso já se debulhava em lágrimas, que triplicaram quando Lorena gentilmente deslizou o anel por seu dedo indicador. A ruiva respondeu puxando Lorena para si por cima da pequena mesa, sem se importar com a toalha embolando ou com as taças de vinho. Selou seus lábios num beijo demorado enquanto os polegares acariciavam as bochechas.
O jantar seguiu tranquilo, tirando a parte das coxas se encostando por baixo da mesa e de que Lorena provocava, mas ficava sofrendo pois estava de vestido e hora ou outra, a mão da ruiva acertava a lateral da coxa com um carinho inocente.
— Amor — Lorena chamou e começou a soprar o macarrão fumegante no garfo! — Veeem, vai cair!
Eduarda abocanhou o garfo e sorriu satisfeita e Lorena sabia que tinha algo ali!
— Desembucha, meu amor, o que é que você tá aprontando?
A ruiva encarou a esposa completamente descrente, como é que essa mulher consegue me ler desse jeito? Parece que a policial é ela!
— Bom… — Eduarda falou pigarreando — Você não me deixou trazer nada de muito divertido para a gente usar, então trouxe esse baralho! — Eduarda falou arrancando uma caixinha fechada do bolso e colocando em cima da mesa.
Lorena logo alcançou o objeto com um brilho de curiosidade e divertimento nos olhos.
— “Better Together”? — Lorena leu a caixinha incrédula com ar de riso — “Um baralho para se ler a dois”, amor, pelo amor de Deus, onde foi que você arrumou isso? — A morena perguntou enquanto lia as instruções, basicamente é só puxar uma carta e responder, ou realizar o desafio proposto…
— Comprei pra gente jogar na lua de mel! — Eduarda falou sorrindo e Lorena prontamente tirou as cartas de dentro e as embaralhou.
— As duas respondem a mesma pergunta? — Lorena perguntou sorrindo e a ruiva confirmou com a cabeça — E os desafios?
— Eu não faço ideia de quais são, mas se der para fazer, a gente faz! — Eduarda falou sorrindo e Lorena seguia embaralhando e ao finalizar, abriu o baralho em leque e estendeu na direção da ruiva.
Eduarda ainda mastigava quando puxou a primeira carta.
— Essa é muito boa! — A ruiva falou gargalhando — Qual é o meu hábito mais irritante que, no fundo, você acha irresistível?
Lorena encarou a esposa séria, mas não conseguiu segurar por muito tempo.
— As suas gracinhas! — Lorena falou cobrindo o rosto — Meu amor, eu posso estar brava como for, mas me derreto quando você começa com as palhaçadinhas, aff! Sua vez!
— Não fica brava, tá? — Eduarda pediu apaziguando com as mãos e sorrindo — Quando você fica se fazendo! Tem hora que eu fico incrédula!. — A ruiva falou e Lorena fingiu choque, como se estivesse realmente ofendida, depois as duas riram. — Tá vendo?
— Qual foi a primeira coisa que você pensou quando me viu pela primeira vez? — Lorena leu a pergunta e pareceu surpresa com o que leu.
Eduarda mudou de cor e ficou vermelha automaticamente.
— Ficou vermelha, Eduarda Fragoso? — A morena perguntou batendo palminha — Fiquei curiosa! — Lorena perguntou com uma cara diabólica — Pode ir desembuchando!
— Amor… A segunda coisa, pergunta qual a segunda coisa que eu pensei quando te vi! — Eduarda pediu sorrindo, sabia que não tinha como escapar daquelas garras, mas podia tentar!
— Tudo bem… Qual foi a segunda coisa que você pensou quando me viu pela primeira vez? — Lorena perguntou curiosa.
— Pensei que ia casar com você! — Eduarda falou com certo deslumbramento — Amor, juro, eu mandei mensagem implorando pra Mag me mandar seu número!
— Que lindo, meu bem… Agora anda, fala a primeira! — Lorena pediu rindo.
— Ah, meu amor… A primeira nem combina mais com a minha personalidade! — Eduarda respondeu sorrindo envergonhada — Pensei algo do tipo “eita… mais uma linda morena para eu botar na chapa!” — A ruiva falou e Lorena gargalhou, o que Eduarda achou um bom sinal — Amor, para de rir e fala aí!
— Você era terrível! — Lorena falou sorrindo e entrelaçando os dedos das duas — Mas a primeira coisa que pensei foi mais uma associação de você com o título de “a amiga policial da Mag”, claro que eu fiquei encantada também…
— Eu lembro de não conseguir desviar os olhos de você! E a segunda coisa? — Eduarda perguntou dando um gole no vinho.
— Acho que foi algo como “queria que essa ruiva me amassasse!” — A morena falou sorrindo e as duas gargalharam.
Na pressa, a morena acabou puxando outra carta, mas Eduarda não a deixou devolver.
— Leia! Tá com medo, Lorena Fragoso? — A ruiva provocou e recebeu apenas uma encarada nada amigável.
— “Deixe uma trilha onde você mais gosta de beijar” — Lorena leu e o maldito sorriso canalha safado estava bem ali, com as covinhas e tudo! — Obviamente, não vou ter como fazer isso na sua virilha agora… — A morena falou com aquela voz e aquele olhar diabólico de quem não tem pena nenhuma da esposa e Eduarda agradeceu aos céus por estar sentada ou cairia no chão — Mas como isso é um jogo sério, vou me esforçar para cumprir o que as cartas pedem! — Lorena falou com um arzinho safado e com um gesto de dedos, chamou Eduarda.
A ruiva aproximou o tronco por cima da mesa e Lorena logo enterrou os dedos em sua nuca, apertando de leve a parte de trás do pescoço e inclinando o membro para ter mais acesso. Em seguida, começou com uma trilha de beijos e lufadas de ar quente da clavícula, passando pelo pescoço e parando na orelha, onde caprichou no ar quente e nas mordiscadas. Sorriu contra a pele branca ao ouvir a esposa gemendo baixinho, deixou um último beijo no canto da boca da ruiva e se afastou contemplando o estrago que tinha feito. Eduarda sentia o peito acelerado e com toda a sinceridade do mundo, queria ir embora dali, jogar as cartas no hotel! Lorena fez questão de servir um pouco mais de vinho para ambas e a graça se esvaiu do corpo da ruiva, que gelou quando puxou a carta.
Que jogo diabólico é esse? Quem escreveu essas cartas? Lúcifer?
— Deixa eu pegar outra-
— Na-nani-nanão! — Lorena falou com a boca cheia — Pode ler essa!
Eduarda encarou a esposa com cara de sofrimento e Lorena já sentia vontade de rir.
— “Já pensou em terminar?” — A ruiva falou rápido, fechou os olhos e cobriu as orelhas com as mãos, Lorena ria incrédula.
— Ah, meu amor… Já! — Lorena respondeu rindo de se acabar e ria ainda mais quando olhava a cara séria da ruiva.
— Eu não estou achando a menor graça! — Eduarda falou amuada — Eu sinto dor física real só de lembrar das vinte e quatro horas que a gente passou separada, angina forte! E para de rir que eu sou idosa, não aguento essas coisas!
— Meu bem, quando a sua ex, a Teca apareceu… Acho que eu nunca senti tanto ciúme na vida antes, tipo, nunca! Era uma coisa completamente irracional, ainda bem que eu mudei!
— Lorena falou e Eduarda a encarou incrédula com a sonsísse — E você?
— Eu pensei em terminar quando o seu pai te botou pra fora de casa e foi mais por não te pressionar a escolher entre mim ou a sua família… — Eduarda respondeu séria e Lorena sabia que aquele término era uma pauta sensível, por isso, segurou o queixo da esposa com delicadeza e seguiu distribuindo uma sequência de beijinhos até a ruiva amolecer.
— Passou… passou! — Lorena sussurrava enquanto beijava lentinho os cantinhos da boca da esposa.
— Que jogo babaca! Odiei! — Eduarda murmurou emburrada cruzando os braços e dando um golão no vinho.
— Vou ler a próxima! — Lorena falou rezando para que fosse algo melhorasse o astral — Amor essa aqui é muito boa! Uma primeira vez inesquecível! — Lorena leu e viu os olhos da ruiva brilhando novamente.
Amo que ela tem a memória da Dori e em segundos já está de bem com a vida de novo!
— NOSSA! — Eduarda falou e esfregou as duas mãos, uma na outra, esquecendo completamente o caos — Eu poderia falar por HORAS!
— Ah, é? Então me fala! — Lorena pediu amorosamente e bebericou o vinho.
— Assim, sei que o contexto do jogo é meio sexual… — A ruiva falou apressada — Mas, meu amor, a primeira vez que eu acordei do seu lado lá na casa da Mag, lembra? Que eu tinha passado lá depois de um plantão só pra saber como você estava mesmo, a gente passou horas conversando e eu acabei pegando no sono. — Eduarda falou saudosa e Lorena balançou a cabeça afirmativamente — A primeira vez que vi você segurando nossa filha… Eu pensei que ia desmaiar de tanta alegria! Quando a gente arrumou a casa com glitter e asinhas pra fingir que a fada do dente foi lá buscar o primeiro dentinho dela! — A ruiva falou completamente empolgada e Lorena sorria largo.
— Amor, realmente… Sabe um dia que eu lembro perfeitamente? — Lorena perguntou maravilhada com a quantidade e a qualidade das primeiras vezes delas — Quando você iniciou a terapia hormonal para poder amamentar a Cat também, o jeito que você decidiu isso como se fosse óbvio que você faria e quando ela nasceu, você amamentando enquanto eu dormia!
As duas trocaram um breve olhar cheio de cumplicidade e Eduarda apertou gentilmente os dedos da esposa e em seguida deixou um beijo suave no dorso da mão.
— Agora, falando de sapecagens e excluindo Campos do Jordão! — Eduarda falou animada, retomando a pauta. — Vou ser breve e pontuar sobre aquele dia que a gente tava subindo pelas paredes no seu quarto e o seu pai chegou em casa e eu precisei ficar escondida no closet — A ruiva falava se acabando de rir — O delegado ligando, Paulinho também e eu mandando foto perto da sua sapateira…
— E o que foi que o Paulinho respondeu? “Sapatão na sapateira”? algo assim! — Lorena falou rindo — Eu vou falar sobre uma vez que a gente ficou se agarrando no seu carro-
— Seja mais específica! — Eduarda pediu dando um golinho no vinho e já rindo — Esse foi o nosso roteiro por algum tempo!
— Aquele dia, antes de a gente ir pra Campos, que a gente tava num barzinho e eu tava meio perturbada e até meio culpada por a gente a gente ainda não ter transado e você foi super gentil e compreensiva como sempre, falando que eu não te devia nada… — Lorena falou e a memória foi desenterrada na mente de Eduarda, que arregalou os olhos na mesma hora em completo choque.
— LORENA! — Eduarda falou se sentando ereta na cadeira e Lorena ria cobrindo o rosto com as duas mãos — AMOR! A gente foi pro meu carro…
— Eu pedi um beijinho de boa noite…
— Você pediu e num minuto, saltou no meu colo!
— Depois eu falei que estava morrendo de calor e arranquei a blusa! — Lorena falou divertida — Lembro perfeitamente da sua cara de boba ao me ver de sutiã pela primeira vez… Certas coisas nunca mudam, né?
— Mas meu amor, você tirou a blusa, subiu a saia e colocou minhas mãos nas suas coxas, ficou me beijando daquele jeito e gemendo no meu pé de ouvido… E depois de uns bons minutos, me olhou com a cara mais sonsa do mundo e disse que achava melhor parar, que você estava com uma leve dor de cabeça! — Eduarda falou quase ultrajada — Você não tem noção do estado que a minha calcinha estava! Se jogasse no teto, ela colava! Dava pra rebocar uma parede!
— Eu era o cão! — Lorena falou sorrindo amarelo e gargalhando em seguida.
— Era? — Eduarda perguntou alarmada — Você fez parecido semana passada, no estacionamento do mercado, sua safada!
XXX
— Amor, a gente tem que voltar lá! — Lorena falou gargalhando, com a voz levemente embolada e completamente mole — Tinha alguma coisa naquele vinho!
As duas seguiram no maior clima de romance regado a uns bons vinhos e depois da terceira garrafa, Lorena começou a ficar animadinha demais. Depois de muito implorar, Eduarda conseguiu convencer a esposa a trocar os saltos finos por seu próprio sapato, ao passo que agora, ela caminhava descalça e Lorena, com dois dedos de calcanhar para fora do sapato pequeno.
— Meu bem e o que você quer que eu faça? — Eduarda perguntou rindo e apoiando a mão livre na cintura de Lorena, tentando garantir que ela não caísse enquanto segurava os saltos com a outra.
— Sei lá… fecha o lugar! Investiga e prende o pessoal… — Lorena falou tentando soar séria e muito focada na rua de pedras, tentando ao máximo não cair — Você é delegada! Eduarda seguia rindo, completamente desacreditada de tudo aquilo.
— No Brasil, meu bem… No Brasil!
— Você fica rindo, mas tão vendendo bebida com metanol aqui e ninguém tá fazendo nada!
— Amor, mas você já parou para pensar que talvez… — Eduarda falou e teve que se conter para não rir da encarada que recebeu — Só talvez, a gente tenha exagerado um pouquinho no vinho?
— Você não me leva a sério de jeito nenhum! — Lorena falou indignada e parando no meio da rua — Eu tô te falando, os italianos estão bebendo gasolina!
— Meu amor, claro que eu levo você a sério — Eduarda falou rezando mentalmente uma ave-maria para não soltar uma risadinha — E a gente pode pensar em estratégias para combater o metanol no restaurante em Xique-Xique Bahia da Itália assim que chegarmos no hotel.
Lorena encarou a ruiva de cima abaixo com os olhos semicerrados e acabou se demorando demais nos lábios, o que foi uma deixa perfeita para que a loba ruiva Fragoso atacasse, mas Eduarda não calculou que a esposa estava com tadala de mulher, vinho em doses cavalares em sua corrente sanguínea e acabou virando presa, como sempre.
Foi imprensada sem muita piedade na parede de pedras e ofegou nervosa quando Lorena enfiou a mão por baixo do colete de linho que usava, apertando firme a cintura, tudo isso sem falar nas línguas atrevidas e sedentas, uma na boca da outra, num beijo quente e macio.
— Meu amor! — Eduarda falou ofegante, a cabeça rodava e o corpo inteiro pulsava, principalmente em locais bem específicos.
— Agora, para de ficar me atacando no meio da rua e vamos voltar pro hotel, anda! — Lorena falou passando a língua pelos lábios e tentando camuflar um sorriso, enquanto encarava a esposa acuada no canto, tentando processar o que tinha acabado de acontecer ali.
Chegaram no hotel algum tempo depois, Eduarda seguia munida de três cartas safadas no bolso direito da calça, que Lorena jurou que cumpriria aquilo quando chegassem na suíte do hotel, mas a ruiva estava rezando para que chegassem no quarto, tomassem um banho e fossem dormir.
— Meu amor… Não faz-
Mas Lorena já tinha feito.
Com um sorrisinho diabólico nos lábios, a morena fez questão de apertar todos os botões do elevador e elas fariam um longo passeio na caixa metálica, antes de descerem no andar certo e Lorena estava suando de tanto rir da cara de Eduarda, que acabou rindo junto também.
XXX
Com o céu azul, uma leve ressaca e um sol frio europeu, o dia perfeito para dar em praia! Os italianos seguiam berrando animados na areia e Eduarda estranhou muito a ausência de alguns JBL, alguém vendendo camarão laranja, amendoim algodão doce… Aqui é tão… quieto.
Claro que naquelas alturas, Eduarda já tinha feito um ensaio fotográfico das duas, com direito a Lorena sentada na cadeira e a garrafa de cerveja posicionada de uma forma que parecia que a morena estava entrando no gargalo, as duas com as bochechas coladas e Lorena deixando duzentos cheirinhos no pescoço da esposa.
— Você quer mais água de coco, meu amor? — Eduarda perguntou gentil. Gotículas de água caiam pelos cabelos e pelos ombros, a ruiva já estava desempenhando seu papel de criança de sete anos que ama água e só saiu de lá sob fortes ameaças da esposa. — A água tá um gelo!
Lorena virou a cabeça e sorriu imediatamente ao se deparar com Eduarda sentada numa espreguiçadeira trajando apenas um biquíni vermelho. A morena mordeu os lábios imediatamente ao avaliar os fios ruivos pingando e as gotas que desciam pelos ombros definidos e pela barriga sarada, ela envelheceu como um bom vinho e graças a Deus que é todinha minha.
— Cameriere, un'acqua di cocco, per favore! — A ruiva pediu a um dos garçons que passava pisando na areia fofa.
— Mas eu nem cheguei a dizer nada-
— É que você tá me secando muito, preciso me hidratar! — Eduarda falou e soltou uma piscadela para Lorena, que riu — Você quer alguma outra coisa, meu bem? Um vinhozinho gelado ou-
— Or, não! NUNCA MAIS, nunca mais eu bebo! — Lorena falou com uma careta — Nojo de vinho, nojo!
— Você diz isso todas as vezes! — Eduarda falou divertida e se esticou para dar um beijo nos lábios da esposa, que sorria.
— Hum… beijinho salgado gostoso — Lorena murmurou baixinho, enfiando os dedos na nuca molhada da ruiva para puxar a cabeça dela e selar a boca das duas em mais um beijo demorado.
Eduarda aproveitou a proximidade, deslizou suavemente as mãos dos quadris para a cintura da esposa, que amou a sensação das mãos frias na pele quente.
— Meu amor — Eduarda falou se afastando dois segundos e riu da cara de desgosto que a mulher fez — Tá na hora de sair desse sol, não? Você tá quente!
— Eu sou quente! — Lorena falou com um sorriso safado e Eduarda a beijou de novo, irresistível! — Tá na hora da gente retocar o protetor, isso sim! — Lorena falou já pegando a toalha para Eduarda se secar — Passa logo aqui nas minhas costas, amor. — Lorena pediu e viu Eduarda sorrindo.
A morena deitou na espreguiçadeira e habilmente, Eduarda puxou as cordinhas do biquíni e com mais habilidade ainda, começou a deslizar as mãos pelas costas da esposa, alisando e apertando suavemente a área, tudo isso sem falar nos beijinhos.
— Você sabe que pra fazer efeito, precisa passar o protetor, né? — Lorena perguntou derretida e com um sorriso sapeca.
— Estou amaciando a carne primeiro, calma! — Eduarda falou e deixou uma trilha de beijos, mas logo se muniu do protetor e depois de um trabalho milimetricamente calculado, quase teve um derrame.
— Não precisa amarrar não, amor — Lorena avisou com a maior naturalidade do mundo. — Vou ficar sem.
FICAR SEM O QUE?
— Desculpa, meu amor, vai fazer o que? — Eduarda perguntou torcendo muito para estar adquirindo mais traços da velhice: surda e entendendo tudo errado.
— Sem o biquíni, amor.
Eduarda aproveitou que a esposa estava deitada com a testa apoiada nas mãos e quis chorar sem ser vista.
IMPOSSÍVEL! SENHOR, PORQUE ME ABANDONASTE? Eduarda queria gritar ajoelhada na beira da praia, encarando o céu azul, como é que eu vou deixar minha mulher LINDA com os peitos MAIS LINDOS DO MUNDO de fora no meio de todos esses urubus? Quem plantou a semente do mal na mente da Lorena?
— M-meu amor… — Eduarda começou e logo sentiu a cabeça coçando.
— Amor, aqui tá bem tranquilo e não tem ninguém prestando atenção.
— Não tem ninguém prestando atenção porque só tem peito feio por aí-
Naquele instante, Eduarda se lembrou de que o inimigo é muito astucioso.
— Então quer dizer que você já deu uma olhada “por aí”? — Lorena perguntou levantando a cabeça e virando para encarar Eduarda tal qual um personagem de filme de terror.
— N-não, m-meu amor, q-quer dizer, s-sim! — A ruiva falou apressada e de repente, era o Gaguinho dos Looney Tunes — M-mas não desse jeito!
— E de que jeito, Eduarda Fragoso? — Lorena perguntou e Eduarda sentiu o pé da esposa batendo na cadeira de forma nervosa, sinal nada bom… — Quero que me diga: de que jeito você está olhando os peitos das outras mulheres!
Mestre eu preciso de um milagreeeeeee! Transforma minha vida, meu estadooooo, faz tempo que eu não vejo a luz do dia, estão tentando sepultar minha alegria…
— Meu amor, o que eu quero dizer é que os seus peitos são lindo demais para esse ambiente cheio de desconhecidos e que não estão acostumados a verem gêmeos tão lindos. — Eduarda falou recobrando a sobriedade — Pra mim, tirando os seus olhos abrindo de manhã e sendo a primeira coisa que eu vejo todos os dias, eles são o meu unboxing favorito! Quando você levanta a blusa e eles aparecem, ganho anos de vida, sei que o futuro pode vir e que a vida é boa… — A ruiva falou sorrindo e Lorena sorriu negando com a cabeça, que sequência de palavras encantadoras — E eu não queria que todo mundo visse as minhas jóias preciosas, a minha terapia favorita! — A ruiva disse por fim.
Lorena se virou de uma vez na cadeira e gargalhou ao sentir as mãos da esposa cobrindo os dois peitos que seguiam cobertos, já que o biquíni seguia amarrado em cima.
— Tudo bem, tudo bem… Você me convenceu. — Lorena falou e Eduarda suspirou, como se estivesse se livrado de um problema enorme, desarmado uma bomba no Palácio do Planalto — Agora, pode tirar a mão deles. — Lorena pediu divertida.
— É que me acalma muito, amor… — Eduarda falou rindo e recebeu um tapinha leve na mão e o sorriso mais lindo do mundo.
As duas passaram, literalmente, o dia inteiro ali.
Ao passo que Eduarda não saia da água, Lorena ficou do lado de fora tomando sol, lendo e comendo. Depois de algum tempo, a morena encontrou o mar e sua sereia ruiva, e passaram um bom tempo agarradinhas na água. Vez ou outra, Eduarda teimava em mergulhar e arrastava a morena junto, que nem tinha tempo de se preparar e acabava bebendo água, mas fora isso, nenhuma intercorrência maior.
Tiraram o sal dos cabelos e do corpo num chuveirão chic na beira mar mesmo e claro que Lorena tinha levado um kit de cuidados Sebastian para tratar dos fios. Desembaraçaram os cabelos uma da outra e partiram.
XXX
— Isso funciona melhor do que sonífero! — Eduarda falou enquanto Lorena deslizava os dedos lentamente por seus cabelos ruivos.
— Seu cabelo tá bem fininho, acho que foi o creme novo! — A morena falou deslizando os dedos por ali em movimentos circulares.
— Meu amor, preciso te contar uma coisa. — Eduarda falou se virando na cama, apoiando o queixo suavemente no peito da esposa.
— Sou toda ouvidos… — Lorena falou encarando os olhos castanhos.
— Lembra no ano passado, quando a gente até pensou em viajar pra fora, mas aí o Tunico ficou alguns dias no hospital com aquela gripe… — A ruiva falou e Lorena balançou a cabeça afirmativamente, seguia deslizando as pontas dos dedos pelos fios ruivos — Então, esse ano, aproveitei que a gente ia ter que remarcar a viagem por causa do Leo e da Mag e preparei mais uma surpresa.
Lorena encarou a esposa com uma sobrancelha arqueada e um sorriso desconfiado que teimava em crescer.
— Meu amor — Lorena falou sorrindo incrédula — Quantas surpresas você preparou, hein?
— Poucas, menos do que eu gostaria e menos ainda do que você merece… — Eduarda falou sorrindo largo.
— E a senhora pode me contar o que é? — Lorena perguntou curiosa e só aquela inquietação fez Eduarda se sentir muito vitoriosa. Amava assistir aquilo.
— Eu posso pensar em contar, mas sei lá… acho que um estímulo ajudaria, né! — Eduarda falou tentando camuflar um sorriso.
Lorena se apoiou sob os próprios cotovelos e deu um selinho breve em Eduarda, que sorriu fechando os olhos.
— Acho que precisa ser um estímulo um pouquinho maior, amor! — Eduarda falou mostrando os dedos indicador e polegar formando um espacinho de nada.
Lorena se sentou na cama e sem muito cuidado, se jogou por cima de Eduarda, agarrando o rosto da ruiva e distribuindo uma sequência de muitos beijos estalados e só parou quando a ruiva amoleceu completamente sorrindo boba.
— Acha que já é o suficiente ou vou precisar começar a implorar? — Lorena perguntou e Eduarda sorria completamente boba e entregue, com os braços moles ao lado da cabeça.
— Nós… meio que… vamos fazer a sua viagem dos sonhos!
Eduarda pôde assistir em primeira mão o momento exato em que Lorena recebeu aquela informação em seu cérebro. Viu os olhos verdes e lindos se arregalando, viu a boca se abrindo e formando um “o” lindo e perfeito e depois ela cobrindo a boca, só pra dar o sorriso mais lindo e favorito da ruiva, com as covinhas e os olhos fechadinhos e só por ter presenciado essa reação toda, tudo já estava valendo.
— Mentira! — ela falou totalmente incrédula — Mentira, meu amor! — Lorena falou e permaneceu estática.
— É sério! Nós vamos passar alguns dias em Paris!
— Amor eu nem sei o que te dizer o-ou o que fazer para te agradecer! — Lorena falou visivelmente emocionada.
— Eu não preciso de mais nada, meu amor! Só de muito chamego e descanso com a minha eterna namorada! — Eduarda falou sorrindo e Lorena deitou por cima, distribuindo uma sequência implacável de beijinhos por todo o pescoço da ruiva.
— Ah, mas quanto a isso, você pode ficar tranquila! — Lorena falou sorrindo — Que eu vou te dar todo o chamego do mundo! — Lorena falou entre beijos.
— E o descanso? — Eduarda perguntou e recebeu um beijo quente em resposta.
Xxx
Lorena não brincou quando disse que não daria descanso.
Desde que chegaram em Paris, a morena encarava os dias como uma grande maratona. Era correria pela Cidade Luz durante o dia e jantar a esposa durante a noite. A ruiva até tinha revisitado seu antigo hobby de fotografar e Lorena agora ostentava um ensaio profissional exclusivo, o seu próprio e magnífico “Lorena em Paris”, com direito a pose em frente ao Arco do Triunfo e caminhadas charmosas pelos cafés de Montmartre.
Eduarda estava se sentindo nas nuvens, mesmo chegando no hotel com as panturrilhas cansadas de tanto que andavam, tudo valia a pena enquanto sua esposa sorria satisfeita e feliz.
Paris! Berço das revoluções, era realmente tudo aquilo que Lorena sempre tinha imaginado: as belas paisagens, os museus, a comida deliciosa e muito mais…
— Meu amor — Lorena falou assustada — Você viu o tamanho daquele rato? MEUDEUS — Ela falou afinando a voz e apertando o braço de Eduarda.
— Eu já vi capivaras menores em São Paulo… — Eduarda falou realmente abismada — Será que fazem parte do elenco do Ratatouille ou dos Camundongos Aventureiros?
Lorena seguia rindo e depositou um beijo rápido no ombro da esposa.
— Você é uma palhaça! Agora vem, vamos entrar no Louvre!
O museu parecia mais um formigueiro. Uma cacofonia de vários idiomas, com pessoas sorrindo, emocionadas, deslumbradas com a beleza das obras. Lorena puxava Eduarda pela mão com a empolgação de uma criança num parque de diversões, até parar fascinada diante de uma das obras mais importantes.
— Amor, amor, olha isso! Olha que coisa mais espetacular! — Lorena apontou para a gigantesca tela de A Coronação de Napoleão, maravilhada com cada detalhe. — Olha a riqueza dessa iluminação, o caimento do tecido... O que você achou, meu bem?
Eduarda nem sequer olhou para a tela de seis metros de altura, apenas encarava a esposa feliz, com as bochechas coradinhas, os olhos verdes brilhando feito duas esmeraldas e um sorriso que iluminava o salão inteiro. A ruiva balançou a cabeça de forma afirmativa, com um olhar completamente baitola.
— É a coisa mais linda que já vi na vida… Em relação ao quadro, achei bonitinho, o pintor deve ter se esforçado! — Eduarda falou sorrindo e Lorena a segurou pela gola do casaco, enfiando a cabeça no pescoço sardento e respirando fundo ali.
As duas seguiram com o grupo de turistas e com o guia pelo museu movimentado e acabaram se demorando mais que o esperado encarando uma das obras e Lorena estava completamente maravilhada, até…
— Meu Deus, me descul- Digo, je m'en excuse! — Uma figura morena de lábios pintados de vinho exclamou ao esbarrar com força no ombro de Lorena.
— Sem problemas — Lorena respondeu e deu um sorriso educado.
— Você tá bem, meu amor? Machucou? — Eduarda perguntou já passando a mão no braço da esposa, tentando mandar embora qualquer vestígio de dor. — E você? — A ruiva perguntou para a outra mulher.
— Tô bem sim, não foi nada!
Após alguns segundos de confusão, a mulher desconhecida desviou os olhos de Lorena e encarou Eduarda e os olhos foram se arregalando, a boca se abrindo.
— Juquinha?! — A desconhecida exclamou em alto e bom som. — Little Jucs?! Não acredito!
“Little Jucs”?
Lorena franziu a testa no mesmo instante e olhou para a mulher com estranheza. Quem é esse cão de saia? Em seguida, encarou a própria esposa, que parecia tão confusa quanto, até…
— Isa? Meu Deus, quanto tempo! — Eduarda falou com um sorriso amarelo, o capeta está em todos os lugares mesmo! Quem diria que viria tirar férias em Paris? A Lorena vai botar meu pescoço na guilhotina!
A mulher nem sequer deu chance de Eduarda fazer qualquer outra coisa e já foi envolvendo a ruiva num abraço caloroso demais para o gosto de Lorena, que recebeu na mesma hora o espírito de um francês doido pra revolucionar, botar fogo e decapitar a cabeça de alguém!
— Nossa, que saudade! Quanto tempo! — A mulher seguia falando animada — Como é que você está? Como estão as coisas? — Ela falava passando as mãos pelos braços de Eduarda, que tentava em vão se esquivar.
— Eh, pois é, menina! Casei! Essa é a minha esposa linda. — Eduarda falou puxando Lorena pelo quadril e engolindo em seco — Lorena, Isa. Isa, Lorena.
— Isa Alencar — a mulher se apresentou, estendendo a mão bem cuidada, com unhas de mentira e lançando um olhar de cima a baixo para Lorena que queria se transformar numa armadilha de urso no mesmo instante.
— Muito prazer, Lorena Fragoso! — A morena falou dando bastante ênfase ao sobrenome.
— Puxa, que coincidência! Foi necessário a gente sair do Brasil para se encontrar de novo na França! — Isa seguia falando animada demais, encostando demais na ruiva e Eduarda evitava contato visual com Lorena, temendo ficar petrificada igual quem olhava para Medusa.
— Estamos comemorando nosso aniversário de casamento! — Eduarda falou sorrindo realmente orgulhosa — Vinte e seis anos de muito amor!
— Ah, Duda! Você sempre uma romântica incurável! — Isa falou sorrindo de canto — Aposto que pensou em todos os mínimos detalhes dessa viagem!
“Juquinha”, “Little Jucs”, “Duda”, quantos apelidos essa calanga velha tem para A MINHA ESPOSA? E COMO ESSA RATAZANA SABE QUE A MINHA MULHER É ROMÂNTICA? Naquele instante, Eduarda recebeu um rabo de olho tão grande da esposa, que sentiu vontade de chorar, mas como tudo que é ruim pode piorar… Isa virou os olhos para Lorena e deu uma olhada escancarada no colo e nas pernas da morena. A delegada quase entrou em parafuso!
NA MINHA FRENTE, ISA?
— De onde vocês se conhecem? — Lorena perguntou com a voz mais aveludada do mundo e Eduarda viu a metamorfose ali: a loba vestindo a pele de cordeiro.
NÃO, Isa, NÃO ABRA A BOCA!
— Nós nos conhecemos na delegacia há bastante tempo! É que eu sou atriz e precisei interpretar uma policial, a Duda me ajudou muito… no processo, sabe? — Isa respondeu, piscando e dando um sorriso sacana para Eduarda, que já estava comprando as passagens só de ida para o além — Falando em delegacia, como é que o Paulinho está, hein? E o delegado?
— Ajudou no processo… Por isso que essa cidade fede tanto, as ratazanas estão em todo lugar! — Lorena murmurou entredentes, num tom tão baixo que só Eduarda ouviu. A ruiva quase engasgou com o próprio ar.
— O-o Paulinho tá bem sim, tá ótimo! E o delegado faleceu há um tempo atrás… — Eduarda se apressou em dizer — Isa, foi um prazer, m-mas nós temos mesmo que ir, estamos com um grupo de turistas!
— Ah, sim, claro! — Isa falou colocando uma mecha dos fios perfeitamente castanhos para trás da orelha, Eduarda sabia que aquilo era tintura — É uma pena! Já que estamos na França, pensei que talvez nós pudéssemos fazer algo a trois!
Eduarda segurou o pulso da esposa antes mesmo que ela pudesse avançar. Sabia que se existia uma coisa que Lorena não tolerava era a não-monogamia, aquela fala de Isa Alencar foi uma tentativa de homicídio!
— Fazer o que? — Lorena perguntou baixo.
— É que vocês são lindas… A Eduardinha sempre teve bom gosto mesmo e bom, em épocas passadas-
EDUARDINHA? QUANDO EU AGARRAR NESSES CABELOS TINGIDOS DESSA FINGIDA, ELA VAI VER SÓ UMA COISA! e NÓS SOMOS LINDAS? CANTANDO EU E A MINHA ESPOSA NA MINHA FRENTE?
— Hoje n-não vai rolar, Isa! — Eduarda se apressou em cortar a fala da mulher no meio.
— Bom, foi um prazer! — Isa falou abraçando primeiro Lorena e se demorando demais para o gosto de Eduarda e depois, abraçou a ruiva, que deu apenas dois tapinhas nas costas dela.
Lorena segurou firme na mão de Eduarda e saiu rebocando a ruiva por entre a multidão, até chegarem em um banheiro que estava milagrosamente vazio. Lorena abriu a porta e com o dedo indicador, apontou e a ruiva entrou obediente.
Deus me ajuda, sou só uma mulher com passado tenebroso e um coração cheio de amor demais, mas só pela minha esposa!
— Você vai me explicar ou eu vou ter que arrancar os seus cabelos na pinça? — Lorena falou completamente emputecida, tanto, que só faltava sair a fumaça pelas orelhas!
— M-meu amor, o o-que você quer saber, hum? — A ruiva falou sorrindo amarelo.
— Vocês tiveram alguma coisa? E POR QUE VOCÊ ESTÁ COM ESSE SORRISINHO DE CANTO? — Lorena falou entredentes, com vontade de avançar na esposa e em seguida ir esganar a outra sonsa.
Eduarda encarou a cena inteira e claro que não ia conseguir conter a risada, não quando Lorena era a esposa mais enciumada e linda bravinha do mundo.
— A Isa é atriz, c-como ela mesma falou — Eduarda falava encarando os olhos verdes e eles eram mais poderosos que o laço da verdade da Mulher Maravilha: contra eles, não tinha como mentir — E-eu e o Paulinho apostamos uma caixa de cervejas na época quem ficaria com ela primeiro — Eduarda falou e viu em primeira mão a fumaça de ódio saindo pelas orelhas e as labaredas de fogo se formando nos olhos verdes — Eu… g-ganhei a aposta, m-mas ele q-quem teve um rolo com ela no final… — Eduarda falou e não conseguia parar de sorrir.
Lorena seguia completamente clone do Raiva, do Divertidamente.
— É impressionante… É simplesmente IMPRESSIONANTE! — A morena esbravejou com os dedos entre os fios agrisalhados e o pé batendo no chão, gestos nervosos que Eduarda conhecia de cor. — Não existe uma mulher! UMA! Que você não tenha colocado as mãos!
— A morena falava emputecida esganando o próprio ar com os dedos.
— M-meu amor… — Eduarda chamou baixinho, sabia que estava muito perto de brincar com fogo — Sabe qual a parte mais legal disso tudo?
O coração de Lorena errou uma batida. Ela encarou Eduarda do mesmo jeito que um gato encara um passarinho quando está prestes a dar o bote, ela só pode estar brincando com a minha cara, não é possível que tenha algo “mais legal”.
— Eu cancelei um compromisso com ela exatamente no dia em que a Maggye organizou aquele jantar em que a gente se conheceu! — Eduarda falou sorrindo de canto a canto — E também cancelei de novo quando a gente saiu a primeira vez, por isso que ela ficou com o Paulinho depois…
— Isso que você está falando é para me deixar menos brava? Que você remanejou uma mulher na sua semana… Não está funcionando!
— Não, claro que não é pra te deixar menos brava! — Eduarda falou de uma forma amorosa segurando os pulsos da esposa — É só pra ver se você consegue colocar nessa sua cabecinha linda, que desde que você chegou na minha vida, não existe ninguém. Todo mundo perdeu completamente a graça e eu sou só sua desde aquela fatídica noite! — Eduarda falou sorrindo largo.
Aquele jantar realmente foi um divisor de águas na vida da, na época, Detetive Eduarda Fragoso.
Lorena parou de bater o pé no chão e seguia encarando os olhos castanhos familiares.
— Eu sou completamente sua, sua boba! — Eduarda falou baixinho e aproximando o rosto devagarzinho — E sim, eu era uma grande canalha, mas só até você chegar na minha vida. De lá para cá, tudo meu é seu e só busca você.
— Como assim? — Lorena perguntou fingindo não se importar e Eduarda sorriu.
— Os meus olhos, por exemplo. São meus. Mas eles não saem de você quando você está por perto e quando está longe, minha cabeça é sua e eu não paro de pensar em você. O mesmo serve para a minha boca, que até funciona quando você não tá por perto, mas que funciona ainda melhor quando é pra dizer que eu te amo ou pra te encher de beijo. — Eduarda seguia falando e com cuidado, prendeu uma mecha de cabelos da esposa atrás da orelha — É tudo seu. Eu sou toda sua e não trocaria isso por nada nem por ninguém.
Lorena até tentou ficar brava, mas era impossível, pelo menos enquanto Eduarda lhe dizia aquelas coisas e lhe encarava com aqueles olhos que pareciam refletores.
— Eu te amo, Eduarda Fragoso! — Lorena falou finalmente cedendo aos encantos da ruiva e a beijou.
— E eu amo você demais, meu amor! — Eduarda falou na boca de Lorena, já com os dedos na nuca da morena e inclinando a cabeça, para aprofundar o beijo.
XXX
A hora de ir para casa foi uma novela, principalmente, no aeroporto. Eduarda tentava despachar as malas com um rapaz que era espanhol e Lorena observava a cena toda com um único pensamento: o inglês abre portas e ela falando espanhol, com toda certeza, abre minhas pernas!
O excesso de bagagem era uma realidade e estavam levando uma mala extra, só de presentes para todo mundo.
Desembarcaram no Brasil de madrugada e Lorena prontamente pediu dois carros de aplicativo, foi necessário para caber todas as malas, mas Eduarda ODIOU a ideia com todas as suas forças e só aceitou ir quando Lorena atendeu a chamada de vídeo.
— Eu sou jogadora profissional de dominó! — Eduarda falava com o motorista, enquanto estava com Lorena nos fones de ouvido, que ria de se acabar das atrocidades que a ruiva inventava na madrugada — Acabei de disputar um torneio importante na Itália!
— Rapaz, que mundo pequeno, né? Nem sabia que isso existia!
— Mas existe, sou medalhista olímpica na modalidade dominó na pracinha! Pressão psicológica absurda lá! — A ruiva falava e tentava soar séria, mas era difícil com Lorena gargalhando na tela do celular.
Viajar definitivamente era ótimo, mas chegar em casa era delicioso.
Tanto Lorena quanto Eduarda acordaram com a mesma sensação: a cama de casa é a mais confortável do mundo! As duas decidiram tirar o dia para descansarem mesmo, depois do café da manhã, Eduarda foi arrancada de seus devaneios quando ouviu a esposa falar espantada do jardim:
— MEU DEUS!
Com a correria, Eduarda tinha até se esquecido de que o genro ficou responsável por ser o cuidador da mãe natureza e levantou num pulo. Disparou para a área externa e encontrou a esposa de pé com as mãos cobrindo a boca, em completo estado de choque.
Eu estou completamente pronta para te oferecer meu ombro amigo, meu amor! Seremos eu e você contra o Breno e vai ser lindo quando-
— O Breno fez um MILAGRE aqui! — Lorena soltou, virando-se com o sorriso mais radiante do mundo. — Amor, olha para isso! Tá tudo tão incrivelmente verdinho e viçoso! Meu Deus, ele vai ter que me ensinar tim-tim por tim-tim do que fez aqui! Estou absolutamente maravilhada! Amor, olha essa samambaia, as folhas estão até brilhando! Parece que foram enceradas!
Argh! Ele só tinha UMA missão, UMA… e cumpriu!
— Lindas amor — Eduarda respondeu sem nenhuma emoção na voz.
— Anda, meu bem, liga pra Cat, vamos agradecer e chamar eles para um almoço sábado!
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