Capítulo 4

Erva-mate, férias e leitinho

— Ele tá bem mesmo?

— Amor, os médicos falaram que a cirurgia foi um sucesso, mas que o pós é assim mesmo…

Eduarda encarou o cunhado com certa estranheza e poderia jurar que ele estava igual ao falecido gato Bóris pós-castração. Definitivamente estava mais tranquilo, só tinha estressado Lorena duas vezes hoje, falando bem menos que o costumeiro, já tinha tomado banho novamente e o resto de cabelo estava milimetricamente penteado, no estilo boi lambeu, não tinha feito confusão por nada ainda... Seguia repousando e parecia mais apegado à irmã.

— Vocês sabem que eu consigo ouvir vocês cochichando sobre mim, né? — Leonardo falou do sofá.

— É que você está estranho, Leo — Eduarda falou com cautela, não estava reclamando que ele estava calmo e quieto, mas era… estranho.

— Tô só pensando… muita coisa aqui. — Ele falou, dando dois toques com o indicador na própria têmpora.

— Pode ficar tranquila, meu amor! — Lorena falou encarando a esposa. Em seguida, caminhou em direção ao irmão e envolveu o pescoço dele por trás num grande abraço de urso — Ele tá bem e vai melhorar! Não é como se no hospital, uma bactéria comedora de cérebros pudesse se infiltrar nessa cabecinha, ela morreria de fome em menos de dez minutos! — A morena falou rindo e o irmão se mexeu, tentando se desvencilhar do abraço.

— Vocês são engraçados… Bom, vou voltar para a minha missão, qualquer coisa, podem chamar! — Eduarda falou e deu um beijo leve no ombro da esposa ao passar.

A ruiva partiu direto para a rede da área externa e cuidou em continuar a crochetar a mantinha que estava fazendo para seu novo netinho ou netinha, já tinha feito um par de sapatos e agora estava na manta.

Lorena surgiu algum tempo depois, com a garrafa verde e familiar de Eduarda e com a cuia cheia de chimarrão, a ruiva amava aquela bebida! Deixou tudo a um braço de distância, pro meu amor não ter trabalho com nada e focar nas coisinhas dela.

— Aaaah, meu amor, obrigada! — Eduarda falou se organizando na rede, abriu as pernas e Lorena se deitou ali, com o nariz num local bem estratégico no pescoço sardento.

— Atrapalha se eu ficar aqui? — Lorena perguntou num dengo enorme e Eduarda apenas beijou a testa da esposa em resposta.

— Jamais! — Eduarda falou e seguiram ali, com o vento do domingo ensolarado embalando as duas.

Lorena pegou no sono em poucos minutos e Eduarda seguiu empenhada em seu trabalho. XXX

A semana se iniciou de forma tranquila em casa. Leonardo seguia em sua versão zen e Eduarda deixou os dois na frente do hospital, para que ele pudesse passar por uma revisão da cirurgia e dali foi para a delegacia.

Depois de um plantão cheio de trabalho e de muitas coisas resolvidas, do jeitinho que ela gostava, partiu para casa.

— Meu amor? Cheguei! — Eduarda falou assim que pisou na sala de casa e franziu a testa no mesmo instante com a cena diante de seus olhos:

Leonardo Ferette sentado com as pernas cruzadas e os olhos fechados em frente a televisão, que exibia clipes psicodélicos estilo Windows Media Player 2007, ao passo que uma música de meditação tocava.

— Eu tô terminando nosso jantar! — Lorena falou da cozinha e Eduarda seguiu a passos lentos, encarando o cunhado estático ali.

— Você viu?

— Eu vi e não me pergunte… — Lorena falou sorrindo fraco e se virando para um selinho rápido — Acho que ao invés de uma vasectomia, fizeram uma lobotomia.

— Quer ajuda? — Eduarda perguntou e Lorena negou com a cabeça — Meu amor, será que não é legal ir num psicólogo? Os médicos disseram alguma coisa?

— Tá tudo certo, a cirurgia está ótima e ele tá bem, só tá reflexivo… demais! — Lorena falou — Vou recomendar o psicólogo, mas você sabe que desde o fim do casamento dele com a Vivi e todos aqueles meses de terapia de casal… Não sei se vai rolar!

— Entendi… Mas quem sabe, né? Como foi o dia? — A ruiva perguntou envolvendo a esposa pela cintura e permanecendo ali atrás, enquanto ela cozinhava.

— Foi tranquilo, acho que finalmente acabei de escrever a primeira historinha pro nosso netinho ou netinha ouvir quando for dormir! — Lorena falou orgulhosa e Eduarda depositou um beijo terno no ombro da mais alta — Também fomos na BoulosTorteria perto daquela feirinha do centro, trouxe seu bolo de café e mais alguns docinhos, tá tudo na geladeira!

— Aaaah, meu amor! Eu tava sonhando com um docinho! — Eduarda falou e apertou ainda mais a esposa, que fez questão de virar o rosto para receber um beijinho na bochecha.

— Brigadeiro, tem na geladeira e um beijinho, será que rola? — Lorena perguntou e Eduarda fez a maior cara de safada, em seguida, beijou a esposa — Depois do jantar você pode atacar tudo!

— Vai emocionar quando eu comer a sobremesa e jantar minha esposa linda e perfeita depois! — Eduarda sussurrou num tom safado que fez Lorena estremecer.

XXX

O jantar seguiu mil maravilhas… Só uma partezinha estranha…

Lorena realmente era uma exímia cozinheira de receitas veganas e Eduarda precisava admitir que às vezes, nem sentia falta de carne.

— Hum… Isso daqui tá divino, meu amor! — Eduarda falou entre as garfadas, mastigando com o olho fechado de tão gostoso.

— Dessa vez, acrescentei um pouquinho de pimenta do reino na hora de saltear o brócolis

— Lorena falou sorrindo — Mas foi pouquinho mesmo, viu, Leo? — Ela logo se corrigiu rápido, sabia que o irmão odiava pimenta.

— Ele não parece ter sentido… — Eduarda comentou divertida, depois de ver o cunhado entrando no terceiro prato.

— Eu realmente não notei, irmãzinha linda do meu coração! — Leo respondeu com um sorriso letárgico nos lábios — Mas está muito gostoso mesmo e essa arvorezinha é tão fofa, olha! — Ele falou levantando um brócolis com o garfo e sorrindo radiante.

Lorena e Eduarda apenas se entreolharam com estranheza e seguiram comendo.

— Meu amor, vi que saíram novos episódios daquela série policial que você gosta, podemos assistir um pouquinho? — Lorena falou ajeitando as almofadas do sofá da sala, Leonardo seguia sentado na poltrona, agarrado com um pote de biscoitos de polvilho.

— Sério? Pode ir botando, paixão! Vou só pegar meu bolinho aqui e já chego! — Eduarda falou salivando só de pensar no bolo — Vocês querem alguma coisa? Quer que eu faça pipoca? — Eduarda perguntou sorrindo, a esposa era a pessoa que mais amava pipoca em linha reta da américa latina, acho que na outra vida ela foi uma pipoqueira Philips Walita!

— SIM! — Lorena berrou animada.

— Eu vou querer um pouco também! — Leo falou.

A ruiva pegou a panela que geralmente faziam e enquanto o milho não estourava, aproveitou para ir tirando suas gostosuras da geladeira e tremeu de animação ao abrir o isopor com o bolo de café cheiroso e alguns brigadeiros meu Deus, ela trouxe o de sucrilhos e o de capuccino também!

— E isso aqui… — Eduarda murmurou alcançando o brownie suculento na porta da geladeira e se deliciando ao morder — Todo dia eu fico querendo casar com ela de novo e de novo!

Após alguns minutos, a ruiva partiu para a sala, com uma panela de pipoca e seus doces. Os olhos de Eduarda nem sequer piscavam e Lorena achava uma graça quando acontecia alguma coisa puramente artística e fictícia e a esposa fazia questão de puxar o Vade Mecum de debaixo do braço para explicar tim-tim por tim-tim de como aquilo funcionaria numa situação legal real.

— Tá gostando, Leo? — Lorena perguntou assim que o primeiro episódio acabou — Os episódios geralmente são nessa média de tempo mesmo: uma hora, uma hora e um pouquinho…

— Muito, principalmente do cachorrinho fofo que apareceu! — Leo falou com uma voz lentificada — Será que ele é do elenco da Patrulha Canina? O Tunico quem me apresentou a Patrulha! Gostei muito, rá!

— “Cachorrinho fofo”? — Eduarda falou incrédula e chacoalhando um dos pés sem parar — Aquilo é um Pastor Belga e eles recebem um treinamento rigoroso!

— Tem como pausar? Quero ir buscar um docinho também! — Leo pediu e Eduarda e Lorena se entreolharam.

Ele só pode ter engolido um crente… que fome absurda!

A morena pausou e o irmão levantou, caminhando de uma forma esquisita.

— Meu amor, você coçou o olho com a mão suja, foi? — Lorena perguntou encarando a esposa, que estava com os olhos avermelhados — E o que houve com o seu pé?

— Não sei se cocei, amor… Meu pé tá meio dormente, formigando… — A ruiva respondeu piscando devagar.

— Ei, alguém viu um brownie que estava aqui na porta da geladeira? — Leo falou mais alto da cozinha.

— Eu comi — Eduarda falou meio espantada, só para Lorena ouvir — Não sabia que era dele!

— Besteira, amor! — Lorena falou, dando um risinho e afagando os cabelos ruivos da esposa — Eu nem vi quando ele comprou esse brownie!

—Leo, foi mal… Eu acabei comendo! — Eduarda falou do sofá e começou a perceber um peso na língua.

Leonardo voltou da cozinha com os olhos arregalados e um sorriso psicopata nos lábios.

— Você comeu? — Ele perguntou alarmado.

— Comi, desculpa, não resisto a um docinho e ainda mais de erva mate! — Eduarda falou com a voz macia.

O Ferette mais velho começou a rir e a risada logo virou uma gargalhada. Ele ria tanto que começou a balançar o corpo para frente e para trás, com a mão no peito e a cabeça foi ficando cada vez mais vermelha. Riu tanto, tanto, tanto que começou a tossir e a lacrimejar.

— Leo? — Lorena chamou sorrindo com estranheza — O que foi? — Ela perguntou encarando o irmão com atenção.

— É, Leo, o que foi? Qual a graça? — Eduarda perguntou.

Ele seguia gargalhando, tanto que já estava todo vermelho.

—Erva-mate?! — Ele quase berrou, sem fôlego. — BATIZADO! — Foi tudo o que conseguiu responder antes de ter outro ataque de riso e se encostar na parede para não cair.

— Ah, meu Deus… — Lorena falou baixo cobrindo os olhos com uma mão, entendendo tudo — Leo…

E então, ela encarou o irmão com atenção redobrada e estava ali, escancarado: os olhos vermelhos, os comentários, a risadaria, a fome de dois cachorros da raça nada pa cumê nessa casa…

— Meu amor… — Lorena chamou baixinho e sentiu vontade de rir ao encarar as pupilas completamente dilatadas — Esse brownie que você comeu… ele tá batizado…

— Então ele é católico? — Eduarda perguntou com uma cara de pensativa e Lorena riu negando com a cabeça.

XXX

— Mas meu amor… — Eduarda começou a frase com um urgência até meio dramática e parou, simplesmente ficou estática por uns três segundos — Como era que eu ia saber?

— Tinha escrito “da erva” na embalagem! — Leonardo falou enquanto caçava com as pontas dos dedos os restos de pipoca estourada e naquelas alturas, até os caroços de milho ele já tinha comido, nível supremo de larica.

— Eu pensei que era por causa do chá-mate! — A ruiva seguiu falando desesperada, totalmente em pânico — Por que você comprou isso?

— Chá-mate? — Leo perguntou, genuinamente incrédulo e rindo com a voz arrastada. — Tu é delegada mesmo? Eu só comprei porque tava com a cabeça cheia, tô operado e não posso beber álcool! Eu precisava relaxar a mente!

— Tá tudo bem, meu amor… Vai passar! — Lorena falou tentando apaziguar a situação e segurando com todas as forças uma crise de riso que temia dar as caras sempre que encarava a esposa.

— Eu vou morrer? — Eduarda perguntou abruptamente com os olhos arregalados — Lorena, eu NUNCA, nunca usei nada disso na minha vida inteira! — Ela falou como se fosse uma metralhadora — Meu organismo! — Ela foi se afobando — Ele não sabe lidar… Lorena, meu amor, vamos para o hospital! Agora! Eu estou morrendo! MORRENDO!— Ela falou de uma vez e simplesmente deitou a cabeça no encosto do sofá de uma vez, encarando o teto e ficou daquele jeito por bons segundos.

— Amor, ei, ei… Respira comigo… — Lorena pediu tentando contornar a situação — Vida, não vão ter muito o que fazer, lá… só precisamos manter a calma e esperar passar.

— É verdade, cunhadinha… Agora é só curtir a vibe! — Leonardo falou sorrindo largo e fazendo o símbolo de paz e amor com os dedos trêmulos — Vou lá para fora meditar de novo, me chamem qualquer coisa!

— Quem diria que eu iria virar maconheira aos sessenta? — Eduarda murmurou passando as mãos pelos fios ruivo-agrisalhados, de uma forma nada delicada, parecendo mais o Pica-Pau arrancando os cabelos.

Lorena assentiu e não conseguia não rir da esposa.

Eduarda parecia um lêmure ruivo. Os olhos vermelhos pareciam menores e ela estava com as mãozinhas juntinhas no colo.

— Amor, você não virou uma maconheira, foi só um acidente… — Lorena falou num tom doce — A gente vai passar por isso juntas, tá bem?

Acho que vai ser mais fácil se eu conseguir evitar que ela surte.

— Você ainda me ama mesmo assim? — A ruiva perguntou e Lorena afirmou positivamente com a cabeça — Mesmo eu sendo uma senhora drogada e disruptiva?

— Você não existe! — Lorena falou e entrelaçou os dedos das duas — Eu vou só dar uma olhada no Leo e esconder todas as chaves de casa e a gente vai tomar um banho morninho, pode ser? Lavar as ideias.

— Você tem uma mão muito macia, meu amor! — A ruiva falou e num instante, ela já estava deslizando a mão da esposa por seu próprio rosto.

Lorena seguiu rindo daquilo e após alguns segundos:

— Me espera aqui, tá bem? Já venho. — Lorena falou e colocou uma almofada no colo da esposa, que deslizava a mão no tecido como se estivesse passando a mão por uma bola de cristal.

Lorena permaneceu rindo na varanda ao dar de cara com o irmão deitado em pose de Patrick Estrela no meio do gramado, encarando o céu com um sorriso dopado.

— Leo, tá tudo bem aí?

— Eita porra… Uma estrela falando comigo! — Ele falou deslumbrado e Lorena gargalhou atrás da pilastra — Oi, estrelinha! — Ele falou sorrindo bobo — Sua risadinha é igual a da minha irmã mais nova!

— Fiquei sabendo que você foi castrado... — Lorena falou e viu a testa dele se franzindo.

— Caralho! As notícias voam mesmo, já chegou até no céu! — Ele falou impressionado.

— Ei, sua irmã vai cuidar da sua cunhada agora, nada de aprontar, hein? — Lorena falou e ele assentiu com a cabeça.

— E você acha que eu vou sair daqui? Papo bom desses!

Lorena entrou em casa gargalhando e quase se engasgou ao ver Eduarda esfregando a almofada no próprio rosto.

— Meu amor?

— Amor essa almofada é muito boa! — Ela falou apontando para a almofada como se fosse um objeto sagrado — Cem por cento algodão, você acredita? É como se eu estivesse no meio de um algodoal!

— Anda, vem, vamos tomar banho! — Lorena chamou rindo, estendendo a mão.

As duas partiram pelo corredor e Eduarda seguiu deslizando a mão por toda a extensão da parede e Lorena queria muito poder filmar aquele banho.

— Passa essa esponja pra cá! — Eduarda pediu e a esposa prontamente entregou — Agora, vira de costas, por favor.

— Você não vai comer, vai? — Lorena perguntou e recebeu um olhar vermelho tentando soar sério.

— Acabou o respeito aqui? — Eduarda perguntou rindo e Lorena riu junto, mas deixando a esposa deslizar a esponja com sabonete por suas costas.

— Você não tá usando a esponja…

— Amor, você não tem ideia de como a textura da sua pele é deliciosa, juro! — Eduarda falou — Olha isso aqui! — Eduarda falou deslizando a mão pelos quadris de Lorena, que riu incrédula.

— Você virou sommelier de texturas agora, é? — Lorena perguntou enquanto deslizava as mãos ensaboadas pelas clavículas molhadas da esposa.

Em toda a sua vida, Eduarda nunca tinha sentido nada parecido.

Claro que já tinha passado as mãos pelo corpo da esposa, conhecia aquele corpo tão bem quanto o seu! Mas havia algo de novo em suas mãos ou no seu sistema!

Que pensamento fascinante! Nunca tinha pensado nisso!

Lembrou imediatamente de uma das poucas aulas de anatomia que teve, num curso de aprofundamento e do bonequinho Homúnculo: que é basicamente um mapa topográfico distorcido do corpo humano desenhado sobre o córtex cerebral para mostrar quanta área cortical é dedicada a “enxergar” cada parte do corpo, e possui mãos, lábios, língua e face enormes porque exigem muita precisão motora e alta sensibilidade.

Eu virei o Homúnculo!

— Meu amor? — Lorena chamou, mas Eduarda parecia estar no mundo da lua.

Uma curiosidade desmedida se apossou de seus sentidos ruivos, assim como um desejo avassalador para saber se as outras partes estavam tão sensíveis quanto e num ímpeto, enquanto Lorena secava seus cabelos, perguntou:

— Meu amor… eu posso te beijar?

Lorena parou de secar os fios, abaixando a toalha lentamente da cabeça da esposa e a encarou curiosa.

— Pode! — Lorena respondeu pausadamente e tentando conter um sorriso, o que será que está se passando na mente da minha duende maconheira?

Eduarda nem sequer hesitou, empurrou Lorena delicadamente contra a pia, ficou na ponta dos pés e selou os lábios de ambas.

Lorena não conteve a risada quando encarou a esposa de cima e ela estava uma cópia exata de Aline do Borel, encarando de volta com a boca aberta, maravilhada.

— MEU AMOR, MEU DEUS QUE BOCA TÃO GOSTOSA! — Eduarda falou empolgada — MEU DEUS EU DEVO ESTAR NO CÉU!

— Pelo jeito, vou precisar acionar o PROERD! — Lorena falou rindo.

As duas foram vestir os pijamas e Lorena decidiu aceitar que a esposa dormiria pelada depois que ela passou uns quinze minutos sentada na cadeira do closet, rindo sozinha encarando as roupas penduradas, mas achou mais seguro se poupar de perguntar qual era a graça ali.

— Meu bem, vou dar só mais uma checada no Leo e já venho, tá? — Lorena falou enrolando a esposa no edredom — Não vai aprontar nada, hein?

— Eu não vou sair daqui até você voltar! — Eduarda falou e deslizou o pé na cama, sentindo a manta de crochê que tinha bordado ali.

De repente, estava dentro do oceano, sentia as ondas batendo em seu corpo e usava aquela manta como rede de pesca, como os peixes conseguem entrar por esses buraquinhos tão estreitos? Que mecanismo!

— Amor? — Lorena chamou pela terceira vez tentando não gargalhar ao ver Eduarda estática deslizando os pés pela manta de crochê.

Eduarda encarou a esposa por alguns minutos e soube naquele exato momento que não tinha droga no mundo que a fizesse amar menos aquela mulher, que parada ali, em meio ao seu mar, era uma cópia grisalha da Vênus de Botticelli!

— Meu amor, você é a mulher mais linda que eu já vi mesmo! — Eduarda falou sorrindo e Lorena riu — Sério!

— São os seus olhos, meu amor — Lorena falou divertida — O Leo já tá dormindo, vamos fazer o mesmo?

Lorena não esperou por nenhuma resposta, saiu desligando as luzes do cômodo e deixou apenas a luminária ao lado da cama acesa, projetando uma luz amarela confortável em ambas, torcendo para que a esposa aceitasse sua sugestão ao invés de querer fazer qualquer outra coisa.

A ruiva se virou, passando o braço pela cintura da mulher e enfiou o nariz no pescoço da maior, respirando lentamente ali. Com cuidado, iniciou um carinho na lateral da barriga de Lorena, que sentia os arrepios percorrendo o próprio corpo, a sensação aumentou quando a ruiva levantou a blusa de algodão e deslizou os dedos direto na pele.

— Engraçado falarem que a maconha deixa as pessoas agressivas, né?

De repente, Lorena começou a sentir também a respiração da esposa em seu pescoço. Os dedos seguiam deslizando de forma lenta por baixo da blusa e a respiração quente e constante estavam… estavam deixando ela cheia de tesão!

— D-duda, meu amor… A-acho melhor a gente ir dormir! — Lorena sugeriu rápido, será que é errado começar uma sapecagem com ela assim?

— Humrum! — Eduarda murmurou lentamente, deslizando a ponta do nariz no pescoço de Lorena, que deu um leve solavanco com o corpo — Quero só um beijo de boa noite! — A ruiva pediu já subindo a mão para o rosto da esposa e Lorena quis berrar que ela não parasse com o carinho.

— Só um… — Eduarda implorou fazendo beicinho.

Lorena encarou a figura deitada a sua frente, com os olhos meio fechados e vermelhos e um sorriso canalha nos lábios. A ruiva se apoiou nos cotovelos e alternava o olhar entre os olhos verdes e a boca apetitosa da esposa, que não demorou muito para beijá-la.

— Meu amor… — Lorena falou ofegante, quando Eduarda finalmente deu um descanso dos lábios e tratou de beijar o pescoço e atrás da orelha.

— Hum… sabe no que eu estava pensando? — Eduarda falou abruptamente.

— Pensando? — Lorena falou surpresa, deslizando os dedos por entre os cabelos, como é que ela consegue pensar em alguma coisa fazendo essas coisas? — Em que?

— Hoje eu vou te ler em braile! — Eduarda falou balançando as duas mãos com um sorrisinho que era capaz de desmontar Lorena inteira, que não se conteve e sorriu.

— Você é uma palhaça, né? — Lorena falou fechando os olhos e deitando o pescoço, para dar mais acesso a Eduarda, que já estava montada em seus quadris.

— E eu vou fazer uma graça já, já! — Eduarda falou sorrindo e completamente incrédula com seu próprio corpo, que parecia hipersensível.

As duas foram querendo mais. Mais beijos, mais língua, mais toque e em meio a respirações aceleradas, Eduarda arrancou o pijama da esposa sem muita cerimônia, mas devagar, de um jeito que deixava Lorena louca!

Passaram sabe-se lá quanto tempo naquele emaranhado de línguas, dedos, pele e suor. Eduarda parecia insaciável e naquela noite descobriu algumas coisas muito interessantes: era a mais nova pessoa a ser a favor da maconha recreativa; deslizar a língua pelo corpo da esposa e sentir aquele gosto em específico na sua boca só que potencializado foi uma das melhores experiências de sua vida; sim, é possível gozar só em chupar alguém e é possível fazer uma viagem cósmica intergaláctica e conhecer o céu enquanto alguém lhe chupa.

XXX

Assim que o despertador tocou, Eduarda desligou o aparelho e se espreguiçou. Apesar de sentir um cansaço bom no corpo, por causa do chamado para o acasalamento de ontem, se sentia verdadeiramente revigorada e até mesmo relaxada.

A ruiva sorriu automaticamente ao perceber que estava sendo a conchinha maior e com muito cuidado e chamego, acordou Lorena, que já estava exibindo aquele sorriso lindo! Eduarda não se conteve e deixou vários beijos na parte de cima das costas da esposa.

— Então quer dizer que você sobreviveu? — Lorena perguntou virando o rosto para encarar melhor a ruiva.

— Meu amor… Que noite!

— Você lembra de tudo? — Lorena perguntou torcendo para que a resposta fosse sim!

— Claro que lembro, sua boba! — Eduarda falou e recebeu um beijo gostoso de bom dia.

— Eu fiquei com medo que você esquecesse e acabei gravando-

— Você gravou a gente transando? — A ruiva falou de forma urgente com a boca arreganhada em choque.

— O que? Não, meu amor! — Lorena falou rindo! — Que cara de tristeza é essa? Você queria que eu tivesse gravado? — A morena perguntou sorrindo incrédula.

— Ah, meu amor… acho que ontem eu estava muito bem! — A ruiva respondeu cínica e recebeu apenas um beijo rápido.

— Você é convencida, né? — Lorena perguntou sorrindo e Eduarda cobriu o rosto com vergonha — Vamos ver se você continua pensando assim depois que ver o que eu gravei! Lorena se virou de lado e alcançou o próprio celular, Eduarda se aconchegou ainda mais naquele peito belíssimo e seguiu olhando a tela do celular.

O primeiro vídeo era ela no sofá da sala, passando o rosto em movimentos circulares pela almofada com os olhos fechados e uma expressão totalmente contemplativa.

— Ok… Em minha defesa, eu estava completamente drogada-

— Espera, espera, espera!

Eduarda encarava a tela do celular em completo estado de choque ao se deparar com um vídeo dela com a língua para fora, lambendo uma gota d'água no box do banheiro. Lorena começou a rir e o celular foi tremendo na mão dela e Eduarda estourou de rir quando falou “chuvinha boa.”

— Amor, juro… Eu me diverti muito ontem! — Lorena falou rindo.

— Eu também! Mas gostei mais da outra parte da noite! — A ruiva falou e atacou o queixo da mulher, que a abraçou apertado por alguns segundos.

— Agora vem, vamos tomar banho e você pode lamber o box de novo!

Em resposta, Eduarda deu apenas uma travesseirada leve na esposa, que riu.

XXX

— Bom dia, Leo! — Eduarda falou com o cunhado, que estava sentado no sofá em pose de pensador com os poucos cabelos apontando para todos os lugares.

A ruiva chegou na cozinha primeiro que a esposa e estava morrendo de fome, meu Deus, acho que a maconha fez um buraco no meu estômago!

— Bom dia? Fale por você… Passei a noite numa bad trip absurda!

— Sério? — Lorena perguntou. — Quando vim te olhar a última vez, você estava dormindo na rede.

— Então, comecei a noite bem e depois ouvi uns gritos, uns gemidos, sei lá, coisa de filme de terror mesmo — Leonardo falou encarando o chão e Lorena e Eduarda trocaram um breve olhar, as duas sabiam bem o que tinha sido a gritaria — Aí despertei, mas não conseguia me mexer!

— Meu Deus… Leo… Eu caí dormindo já! — Eduarda mentiu na cara dura — Agora, preciso saber aonde você comprou aquele brownie! — Eduarda perguntou coçando a cabeça como quem não dá muita importância.

— Seríssimo! E eu não vou contar nada para a polícia sobre o brownie! — Ele falou sorrindo amarelo — Depois, você prende meu fornecedor e um monte de gente vai ficar triste!

— Espero que da próxima vez, você tenha uma noite mais divertida! — Lorena falou sorrindo e partindo para a cozinha.

— Nossa, fiquei pensando que deu alguma coisa errada na cirurgia e eu não conseguia mais ter uma ereção… Desculpa, meninas, desculpa mesmo! — Ele falou um pouco constrangido depois.

Se fosse em outro dia, Eduarda talvez se estressasse, mas não conseguia parar de sorrir. Enquanto meu cunhadinho chorava, eu estava gargalhando, que manhã maravilhosa!

O café da manhã seguiu tranquilo, cada um imerso em seus próprios pensamentos e vez ou outra, Lorena aproveitava para cuidar da esposa:

— Meu amor, você não tá comendo suas frutinhas de manhã!

— Mas é que eu já tô cheia… — Eduarda tentou argumentar, realmente, já tinha excedido a quantidade de comida que geralmente comia.

— Não, não, come tudo! — Lorena falou num tom mandão, que Eduarda achou a coisa mais linda do mundo e obedeceu, claro.

Alguns instantes mais tarde, Eduarda segurava a porta do passageiro para Lorena entrar e:

— Meu amor, me lembra de passar na Casa do Agricultor e comprar adubo para minhas plantinhas!

— Amor, acho que a gente pode comprar um vasinho novo também…

— Eita, é verdade! Tenho aquelas sementes de morango pra plantar-

— Eu vou arrumar sementes de maconha, amor! — Eduarda falou brincando e Lorena gargalhou.

XXX

Os dias seguiram tranquilos e a recuperação de Leonardo ia muito bem e aos poucos, ele foi recobrando sua personalidade irritante e inconveniente de sempre, mas que agora parecia menos irritante de aturar.

— O tio se apegou muito ao Tunico — Catarina falou enquanto ajudava a mãe Lorena no corte das verduras.

— Acho que ele seria um pai divertido — Lorena falou observando o irmão sentado no sofá com o neto nos braços, soltando uma sequência de beijos na barriga do pequeno, que gargalhava mole.

Leonardo era um homem que apesar de muito mulherengo, não teve filhos e agora, vasectomizado, definitivamente, não transmitirá a nenhuma criatura seu legado.

— Meu amor, me deixe fazer isso, para você não se cansar! — Eduarda surgiu atrás de Catarina, que trocou um olhar com Lorena e as duas riram, era a vigésima vez que Eduarda brotava do nada, oferecendo ajuda.

— Ela era ainda pior quando você estava na minha barriga! — Lorena falou rindo.

— Mãe, eu estou bem! — Catarina respondeu sorrindo e apoiando a cabeça no ombro da mãe ruiva.

A semana passou depressa e nessas alturas, todo mundo parecia saber que Eduarda tinha passado pela maior brisa da vida. No sábado, Catarina convidou os três e o bisavô para um almoço de despedida do tio, que já estava devidamente recuperado e apto a voltar à Brasília e para se despedir brevemente das mães, que partiriam em uma segunda lua de mel, ou vigésima sexta, já que todos os anos elas davam um jeito de ir namorar em outros lugares…

— Ô Vó, a senhora pode me ajudar numa coisinha? — Ana perguntou se aproximando com os braços para trás e uma cara de quem estava aprontando.

— Quando seu bisavô tá por perto você esquece mesmo de mim, não é? — Eduarda perguntou divertida.

— Eu estava arrumando o cabelo dele, vó! — Aninha falou sorrindo e Eduarda sorriu ao ver o pai com duas atacas rosa nos poucos cabelos.

— Mas claro que posso ajudar, meu amor! — Eduarda falou sorrindo de volta, doida para aprontar também!

Lorena observou as duas se afastando e sorriu.

— Acho uma graça que a Ana vai aprontar e chama a avó pra participar!

Eduarda seguiu descalça pelo corredor da casa da filha, que mais parecia O Beco do Batman, só que com pinturas imagéticas e as duas foram até o quarto vago, que atualmente estava empestado por brinquedos de todos os tamanhos e cores.

— Vó, a minha mãe falou que vai tirar esses brinquedos daqui e vai fazer o quarto do bebê e que eu preciso separar alguns desses brinquedos para doar — A menina falava num tom bem explicado — Eu dei a ideia de jogar tudo do Antônio no lixo, mas a minha mãe não ficou muito feliz…

Eduarda encarava a neta tentando não rir, ela é muito do humor!

— Certo… E onde é que eu entro nisso tudo? — Eduarda perguntou — Essa atitude de doar os brinquedos que estão em bom estado é maravilhosa, meu amor! Muitas crianças vão poder brincar e alguém vai ficar feliz em receber um brinquedo novo! Se você quiser, a gente ainda pode embrulhar todos!

— Nossa, vó! Que ideia boa! Vamos embrulhar sim, mas… então, ela me deu essa sacola aqui — A menina falou estendendo o saco — Eu vou ficar sentada aqui e vou te falando o que eu não quero mais e a senhora vai colocando na sacola! — A menina falou sorrindo animada e Eduarda riu junto.

— Nada feito, tampinha! — Eduarda respondeu e o sorriso da neta murchou.

XXX

— Mãe, sai dessa bagunça com a Aninha! — Catarina chamou.

Alguns minutos depois, Eduarda voltou vitoriosa com uma sacola cheia de brinquedos nas mãos.

— Eu estava trabalhando!

— Ah, só assim para a Ana me obedecer, né! — Catarina falou piscando para a mãe e depositando um beijo na testa da filha, que passava completamente exausta por ali.

— Filha, quando é que vocês vão começar a organizar as coisas do bebê? — Lorena perguntou tentando soar despretensiosa e não transparecer o quanto estava empolgada com o terceiro neto ou neta.

— Tô com tudo parcialmente organizado, mãe… Esperando só o Breno, ele falou que ia chamar alguém para pintar e dar uma organizada geral na fiação, quero colocar mais uma tomada por causa da babá eletrônica…

Catarina seguia falando, mas o foco de atenção de Eduarda era outro. A ruiva virou a cabeça de lado e se deparou com ele sentado no tapete da sala, conversando despreocupado hora ou outra com Leonardo e Antônio.

Ele estava mais magro, Eduarda notou, já que ele estava sem camisa e além de tudo, a tatuagem estava recoberta por uma camada generosa de pelos, parece uma família de Chewbacca! Que nojo! Os cabelos da cabeça agora caiam até um pouco abaixo do queixo e a barba estava um pouco maior do que se lembrava… Como foi que a minha princesinha se apaixonou por isso?

— Hã, filha, eu vou resolver isso! — Eduarda falou cortando a frase de Catarina sobre algum bibelô pela metade.

— Mãe…

— Filhota, estou com a sua mãe nessa… Precisamos correr contra o tempo agora. Aproveitar que você ainda está ativa, os meninos estão em aula. — Lorena falou num tom adoravelmente calmo — Você não vai querer deixar para organizar tudo isso aos nove meses, né?

— É isso! Quando a gente voltar de viagem, vou pintar o quarto com as crianças e depois a gente chama alguém pra fazer alguma pintura temática, se você quiser.

— Meninas, eu já ia esquecendo! — Henrique falou vindo da varanda, ele amava a vista da casa da neta — Trouxe isso para o meu futuro ou futura bisneta! — Ele falou esticando uma sacola pomposa.

Catarina abraçou o avô e, automaticamente, os olhos de Eduarda marejaram. Lorena percebeu logo e se posicionou ao lado da esposa, com uma das mãos gentilmente afagando seu braço.

— Muito obrigada, vô! — Catarina falou sorrindo.

— Não me agradeça ainda, abra primeiro! — Ele respondeu animado.

Catarina obedeceu e puxou de dentro da sacola um conjuntinho branco, com body, mijão e macacão.

— Essa foi uma das primeiras roupinhas que eu e a sua avó compramos para a Eduarda, quando ela ainda morava no conforto da barriga de Violeta. — Henrique falou sorrindo alegre.

— Que coisa linda! — Lorena falou.

Eduarda fungou e foi abraçar o pai, assim como Lorena e Catarina.

Depois do almoço, todos se reuniram na sala e Aninha fez questão de iniciar um Show de Talentos. Tunico fez questão de mostrar suas habilidades na arte do remelexo, balançando o corpinho ao som de uma musiquinha animada. Leonardo participou, na cabeça e no coração de Eduarda, ele foi a atração principal, de uma apresentação de Balé com a neta. Lorena fez uma flor com um guardanapo, Catarina tentou murchar a barriga Eduarda não assumiu, mas ficou aflita, vai que nasce com a cabeça amassada?

— Eu vou cantar uma música! — Henrique falou orgulhoso e nem ela nem Lorena conseguiram sair ilesas ao ouvirem o velho homem cantando Garota de Ipanema para Aninha, que dançava feliz da vida.

— Agora é a vez do papai! — Tunico falou apontando para Breno, que parecia estar tendo uma ideia genial.

Em alguns instantes, o homem desapareceu da sala e surgiu segurando um violão.

Naquele momento, Eduarda quis chorar e Lorena queria gargalhar só com a cara da esposa. O genro se sentou no chão, há apenas alguns centímetros de distância de Eduarda.

— Bom, eu vou cantar também! — Breno falou animado e deu os primeiros acordes no violão. Como se já não fosse ruim o suficiente, ele ainda escolheu aquela música! — Não tinha medo o tal João de Santo Cristo, era o que todos diziam quando ele se perdeu! Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda, só para sentir no sangue o ódio que Jesus lhe deu.. Leonardo aplaudiu e Eduarda encarou o pai que estava incrédulo.

De todas as músicas existentes no mundo, o desgraçado escolheu logo Faroeste Caboclo, que tem uns dez minutos!

Quando ele estava beirando a metade, Eduarda já estava tão cheia daquilo que começou a bater palmas, encerrando o show.

— Não é que o Santo Cristo estava certo? Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar, se embebedou e no meio da bebedeira…

SOCORRO MEU DEUS ME AJUDA JESUS! Músicas para morrer antes de ouvir!

— Vamos encerrar por aqui ou o bebê vai nascer e você não vai parar de cantar! — Eduarda falou brincando e todos riram.

XXX

— Muito obrigado mesmo por terem me recebido, meninas! — Leonardo falou abraçando as duas ao mesmo tempo no aeroporto — Sério, nem sei o que seria de mim sem vocês e sem você, principalmente, irmã! — Ele falou levemente emocionado e deu um beijo no topo da cabeça da morena.

— Eu espero que você passe algum tempo sem vir nos visitar — Lorena falou sorrindo encapetada e todos riram — Mas sério, as nossas portas estão sempre abertas-

— Exceto as do quarto! — Eduarda falou com o dedo apontado para cima e Leonardo assentiu sério.

— Eu amo vocês, tá? — Ele falou com as mãos delicadamente nos ombros das duas — De verdade… Sei que nós dois temos nossas diferenças e que eu sou um babaca na maioria do tempo… Mas eu realmente te amo e vou sentir saudade de passar as manhãs te ajudando a cuidar das suas plantas! — Leo falou e puxou a irmã para um abraço de urso.

— Também te amo, seu cabeça oca! — Lorena falou.

Nenhum dos dois irmãos Ferette conteve as lágrimas e claro que Eduarda Emocionada Ferette Fragoso não ficou de fora. Trocaram mais alguns abraços e ao ouvir o anúncio do voo, se separaram.

— Quando quiserem um pouco de clima seco, vão me visitar lá em Brasília! — Leo falou sorrindo.

— A gente vai, assim que voltarmos da nossa lua de mel! — Eduarda falou e abraçou de leve o cunhado, que segurou sua mala e partiu.

As duas seguiram de mãos dadas pelo aeroporto e foram conversando amenidades pelo estacionamento: Lorena dava detalhes de um dos debates que fez com a turma de universitários, Eduarda explicou sobre um caso levemente complicado que precisou intermediar uma discussão dentro da delegacia…

— Por incrível que pareça, acho que vou sentir falta do Leo! — Lorena falou e Eduarda apertou de leve a mão da esposa.

— A gente pode ir visitá-lo quando voltarmos e claro que ele está convidado para vir pra cá mais vezes! — Eduarda falou encarando a estrada.

— Mesmo você não gostando muito de visitas e casa cheia por muito tempo? — Lorena perguntou com o peito cheio de um amor enorme pela esposa.

— Ah, meu amor… eu não tenho problemas com a casa cheia e o Leo é sua família — Eduarda encarou brevemente a esposa e voltou a atenção para a pista — Por mais que ele seja um chato inconveniente às vezes — Ela falou e as duas riram — Ele faz parte da sua vida, da nossa vida, e eu sei que você fica toda preocupada com ele.

Lorena seguiu encarando o perfil da esposa e as luzes dos faróis projetavam sombras em seu rosto, a morena sempre sorria ao ver o olhar castanho aceso ali.

— Mas da próxima vez, vou ficar mais atenta! — Lorena falou. A morena ainda não tinha se perdoado por ter estragado os planos da semana de surpresas que a esposa estava fazendo.

— Eu espero muito que não tenha uma próxima vez! — Eduarda falou e enrolou o volante do carro rindo — Não quero ninguém atrapalhando os meus planos de agradar você! — A ruiva disse por fim.

— Você sabe que deveria ter conversado isso comigo naquele dia, não sabe? — Lorena disse — Não quero você se prejudicando para me poupar de algo! — Lorena disse por fim e as duas estavam paradas num sinal vermelho.

Eduarda encarou o rosto da esposa e sorriu tímida. Lorena sempre entendia tudo, lia a ruiva bem demais. Com cuidado, se aproximou e roçou os narizes das duas.

— Você é uma das coisas mais preciosas que tenho nessa vida, Duda! — Lorena falou baixinho — E a gente já passou por tanta coisa… Quero que saiba que eu estou aqui para ouvir você sempre e para sempre, não só quando você salva o mundo ou quando fica dizendo que me ama. Quero saber de você. Sempre! Mesmo que eu seja o motivo da chateação! — Lorena falou e depositou um beijo rápido na ponta do nariz da ruiva.

— Você nunca é motivo da minha chateação, amor! — Eduarda falou com um olhar sério — Mas tudo bem, da próxima vez que algo me incomodar, não hesitarei em falar! — Ela falou voltando ao tom divertido de sempre.

O sinal abriu e as duas seguiram com o carro.

— O filho de uma das minhas alunas, a Flávia, na verdade, ela tem dois e o mais velho tá nessa fase da adolescência, acho que ele tem uns onze ou doze anos… — Lorena seguia conversando e vez ou outra, a ruiva perguntava alguma coisa, compartilhava outra e seguiram assim até em casa, mas em momento algum, desgrudaram as mãos.

XXX

— Meu amor, qualquer coisa você me avisa, tá? — Lorena falou depositando um beijo rápido na bochecha da esposa.

— Aviso sim, meu amor!

As duas estavam passando pela terrível época do ano em que a Delegada Eduarda Fragoso tirava suas merecidas férias. Primeiro: a ruiva tinha um banco de horas extra tão robusto que quase dava para aposentar outra pessoa, segundo: ela era extremamente inquieta e inimiga oficial do descanso prolongado.

Lorena só entraria de férias a partir da próxima semana, então, precisava confiar que a esposa conseguiria sobreviver sem ter muito o que fazer. Todos os dias era uma aventura chegar em casa e descobrir o que a ruiva aprontou.

No primeiro dia, Eduarda achou que entraria em colapso. Acordou cedo, foi para o pilates com a esposa, aperreou o juízo de Paulinho, as duas voltaram, a ruiva preparou o café da manhã das duas, depois fez questão de deixar Lorena no trabalho e voltou para casa.

— Duda? — Lorena chamou assim que entrou em casa, tinha conseguido uma carona com um outro professor e acabou aceitando.

— Oi, meu amor! — Eduarda berrou de algum lugar da casa — Estou aqui no escritório! Quer tomar banho primeiro ou jantar? — A ruiva perguntou alto e Lorena foi seguindo o volume da música e quase caiu para trás.

— Meu amor? — A morena perguntou ao ver o cômodo todo revirado, os livros fora da estante, as poltronas afastadas e os tapetes enrolados de todo jeito — O Katrina passou por aqui?

— Amanhã eu termino! — Eduarda falou sorrindo amarelo.

— Hoje não era o dia da Rosa vir pra cá? — Lorena perguntou se referindo a moça que ajudava as duas na limpeza da casa. — Amor, ela até veio! Mas pedi pra ela ir embora mais cedo!

— Vamos tomar banho então, né? — Lorena perguntou sorrindo ao ver a esposa com os cabelos para cima.

Todos os dias a ruiva arrumava alguma atividade para fazer e depois de treinar, meditar, jogar dominó na praça, aparar a grama, limpar a piscina, levar o neto para cortar o cabelo, fazer a feira da filha, cozinhar todos os pratos e sobremesas veganas e não veganas existentes, verificar como estavam as telhas no telhado, sem que Lorena nem sequer sonhasse com aquilo… Ela estava ficando sem opções!

A esposa e a filha ligavam constantemente, parecia até que ela estava doente!

Depois de uma tarde de impaciência, decidiu pegar as agulhas de crochê para finalizar a vigésima peça da semana e sentou na frente da televisão. Quando deu por si, já estava quase na hora de Lorena voltar do trabalho!

Havia passado a tarde inteira bordando suas coisinhas e assistindo Chocolate Com Pimenta e todas as novelas que passavam no Viva! Era uma das pessoas mais felizes do mundo e aquilo meio que virou rotina!

— Meu amor, falta pouco para as minhas férias! — Lorena falou quase que se desculpando.

— Tudo bem, meu amor… Acho que vou sobreviver! — Eduarda falou como se estivesse passando por maus bocados, mas mal podia esperar para chegar em casa, tomar um banho, vestir uma roupinha folgadinha e passar boas horas assistindo novela!

Naquela tarde, Lorena decidiu que faria uma surpresa para a esposa. Aproveitou que era dia de reunião pedagógica e largou mais cedo, passou na livraria e pegou um exemplar de Cacos Para Um Vitral, de Adélia Prado, tinha visto que estava na lista da Amazon de Eduarda, depois de escrever uma dedicatória, partiu para uma padaria que as duas costumavam ir sempre aos sábados, antes de arrumar uma outra favorita mais perto de casa. Seguiu para casa depois de passar numa floricultura e comprar um buquê de margaridas.

Abriu a porta devagar, imaginando qual astúcia a esposa estaria aprontando, mas não conteve um sorriso bobo ao se deparar com Eduarda cochilando despreocupada no sofá enquanto O Cravo e a Rosa passava na tela, com Petrúcio sofrendo nas garras de Catarina. A ruiva respirava devagar e Lorena foi tomada por um amor tão grande que fez questão de se ajoelhar perto, mas sem fazer nenhum barulho, para não acordá-la.

Com cuidado, baixou um pouco mais o volume da televisão, recolheu as agulhas e as linhas de crochê e quando estava saíndo de fininho, ouviu:

— Meu amor, você chegou! Deita aqui comigo!

Claro que Lorena não resistiu, tirou os saltos, desabotoou a calça, tirou a blusa e deitou aconchegada na esposa, passando uma das pernas por cima das de Eduarda, que a puxou ainda mais para perto. Lorena segurou gentilmente a mão de Eduarda e depositou um beijo terno na palma, Eduarda deslizava o nariz lentamente pelos fios de cabelo da morena.

Passaram bons minutos daquele jeito e Lorena se sentia completamente mole com Eduarda deslizando as pontas dos dedos suavemente por seu rosto e sentia a pele formigando de um jeito bom. Pareciam duas gatinhas cheias de manha, a ruiva então traçou uma trilha de beijos lentos por todo o rosto de Lorena: entre as sobrancelhas, na testa, na têmpora, nas pálpebras depois deu um cheirinho em cada olho, nas bochechas, na ponta do nariz, no queixo e por fim, nos lábios, onde deixou três beijinhos lentos e demorados.

— Eu tava morrendo de saudade de você — Eduarda falou apertando um pouco mais Lorena ali — Você nem me ligou pra ir te buscar!

— Sério? Dormindo em paz daquele jeito? — Lorena brincou e Eduarda riu.

— É que eu precisava sonhar com a sua chegada, meu amor! — Eduarda falou e Lorena riu.

— Trouxe algumas pequenas surpresas para você, por isso não liguei! — Lorena falou e encarou os olhos castanhos curiosos da esposa.

— Ah, é? E o que foi?

— Você tem que levantar pra poder ver!

— Levantar? — Eduarda perguntou como se Lorena tivesse cometido um crime — Sair daqui? Ir embora desse dengo todo? — A ruiva falou apertando ainda mais Lorena, que sorria boba.

Continuaram ali deitadas e de chamego até a barriga de Lorena roncar.

— Bem que dizem que amor não enche barriga mesmo! — A morena falou e Eduarda gargalhou.

Lorena fez questão de entregar todos os presentes e Eduarda ficou completamente besta!

— Amor, você quer se casar comigo de novo? — A ruiva perguntou sorrindo segurando seu buquê — Juro! Flores, pão de queijo, um sonho bem delícia com bilhetinho “um sonho para o meu sonho” e o livro que eu estava querendo! Amor e essa dedicatória! Você não existe!

— Eduarda falou envolvendo a esposa pela cintura.

— Eu quero casar com você toda hora! Te amo! — Lorena falou deixando vários beijinhos no pescoço da menor.

XXX

Como de costume, Eduarda iria buscar a esposa naquela tarde, aproveitou que tinha tempo extra e fez o que sempre fazia no começo do namoro delas: chegou bem mais cedo que o esperado, sem chamar atenção e sentou em uma das últimas cadeiras do auditório, com as luzes apagadas e os slides passando, acho que ela não vai me ver!

Era completamente hipnotizante assistir Lorena daquele jeito. Normalmente ela era de tirar o fôlego, a ruiva achava até repetitivo dizer que ela era a mulher mais linda que já tinha visto na vida, mas quando ela estava concentrada e falando daquele jeito, toda professora, sabichona… UAU!

Lorena seguia caminhando de um lado para o outro, os cabelos presos num coque, os óculos de leitura, uma calça de alfaiataria e uma camisa social azul claro que Eduarda reconhecia bem, é minha! Ela seguia falando e era lindo de ver ela toda inteligente, com perguntas sagazes, a turma participando envolvida…

Um movimento abrupto na porta lateral chamou a atenção de Eduarda, que foi arrancada do transe e virou a cabeça imediatamente.

Uma outra aluna que acabou chegando atrasada, completamente esbaforida, entrou às pressas e num descuido, tropeçou na cadeira bem na frente de Eduarda.

— Me desculpa! — A jovem falou apressada e envergonhada.

— Sem problemas, tá tudo bem? — Eduarda respondeu baixinho, tentando tranquilizá-la — Você se machucou?

A jovem foi colocando suas duas bolsas em cima da banca ao lado da que Eduarda estava sentada e foi logo se organizando, puxando um caderno da bolsa e um estojo enorme.

— Tá, tá tudo bem sim… só a porcaria do ônibus que quebrou e eu acabei chegando atrasada! Droga! Eu amo essa aula… Você é nova aqui?

— Mais ou menos — Eduarda respondeu sorrindo — Você gosta da aula, é?

— Nossa, eu amo! Essa professora me faz ter vontade de aprender sobre as coisas, sabe?

— Sei… — Eduarda respondeu balançando a cabeça afirmativamente e encarando Lorena novamente.

Engraçado ela ter o mesmo efeito sobre todos, né?

— Ela parece saber falar sobre tudo! Conhece vários idiomas, já viajou pra tudo que é canto… Sem contar que é super simpática e atenciosa.

Minha mulher é tudo isso mesmo e muito, MAS MUITO MAIS!

— O único defeito é ser casada! — A menina disse por fim, com um suspiro sôfrego e Eduarda quase caiu da cadeira — Nunca vi ela chegar aqui sem aquelas alianças — A jovem apontou.

— Às vezes, isso também é qualidade, né? — Eduarda falou após se recompor — Eu faço a maior questão de dizer ao mundo inteiro que sou casada com essa mulher. — A ruiva disse e a jovem pareceu não se atentar às palavras.

— Pessoal fala que a esposa dela é igual cão de guarda… não tira o olho de cima.

Eduarda sorriu tanto e tão largo que pensou que rasgaria as bochechas. Que bom que sabem!

Quando o sinal tocou, alguns alunos ficaram para tirar dúvidas e Eduarda logo deu corpo e cara ao aluno que Lorena tinha dito que era bafudo. A menina que estava sentada ao seu lado saiu saltitante pelo auditório e parou bem ao lado de Lorena, conversavam sobre alguma coisa e Eduarda viu a esposa sendo gentil.

Aos poucos, os alunos foram se despedindo e se direcionando a saída, inclusive a menina que sentou ao lado de Eduarda.

— Professora, eu tenho algumas dúvidas! — A ruiva falou e Lorena se virou abruptamente, sorrindo largo ao se dar conta de quem era — Você tem noção do quão linda fica enquanto dá aula? E você dá aulas particulares?

XXX

— Amor, você quer ajuda aí?

— Amor, até quero, mas para outra coisa!

As duas estavam tentando organizar as malas para a tão sonhada Lua de Mel. Enquanto Lorena saia coletando os ítens conforme sua cabecinha ia lembrando, Eduarda tinha uma lista milimetricamente calculada e aos poucos, a mala ia ficando preenchida.

— Queria saber o que nós vamos levar daqui! — Eduarda falou apontando para uma série de brinquedos sexuais espalhados em cima da cama, organizados de forma bem semelhante aos itens apreendidos pela polícia em grandes operações.

Lorena encarou o aparato erótico em cima da cama e riu cobrindo a boca, nem lembrava que as duas tinham tantos ítens, artilharia pesada mesmo… Algemas, vibradores, dildos, sugadores, straps, lubrificantes… Em seguida, encarou a esposa, que seguia avaliando tudo como se estivesse inspecionando um carro para comprar.

— Faz tempo que a gente usou aquele — Eduarda falou apontando para um vibrador com formato que lembrava um golfinho — Bem que dizem que o casamento vai esfriando conforme os anos vão passando! — Ela falou e Lorena a encarou séria por dois segundos, em seguida gargalhou.

— Amor, pelo amor de Deus! — Lorena falou sorrindo incrédula — Se esquentar mais, a gente vai ter que chamar os bombeiros! — Lorena falou rindo — Mas você pretende levar isso na bolsa mesmo? — A morena perguntou incrédula — Você sabe que isso ai aparece no raio-X do aeroporto, né?

— Amor… — Eduarda falou envolvendo Lorena pela cintura — Nós estamos indo para uma lua de mel — a ruiva falou entre beijos.

— Meu bem, mas com tudo isso, vão pensar que a gente está indo gravar conteúdo lá fora!

— Lorena falou, e Eduarda deu uma gargalhada gostosa no pescoço dela — E imagina a vergonha disso no aeroporto…

— Tudo bem, minha princesa, pode ficar tranquila! — A ruiva rendeu-se por fim, dando selinhos carinhosos no queixo da esposa — Irei munida apenas da minha língua turbo e meus dez dedos que vibram em cinco velocidades! — A ruiva disse por fim e Lorena gargalhou empurrando-a pelos ombros.

— Anda, vamos terminar de arrumar essas malas! — Lorena falou sorrindo.

Por volta das onze e tantas da noite, as duas finalmente encerraram todo o processo e as malas estavam devidamente organizadas e estrategicamente colocadas perto da porta na sala, bem como os passaportes e os documentos, esperando só a hora de Catarina ir buscá-las para viajarem.

— Você está sem sono? — Lorena perguntou ao perceber Eduarda inquieta na cama.

— Acho que foi o nosso cochilinho hoje a tarde que me deixou sem sono para agora…

Lorena se virou encarando a esposa, as duas formando um coração perfeito na cama.

— Eu sei o que fazer pra melhorar isso! — Lorena falou calma e tranquila, ao passo que Eduarda sorriu largamente — Um copo de leite morno! — Lorena disse por fim e Eduarda quase caiu da cama.

Depois de relutar por alguns minutos, as duas partiram para a cozinha e Eduarda sentou no banco enquanto a esposa tomava a frente da receita.

— Pronto, amor. Tá aqui o seu leitinho — Lorena falou entregando o copo de leite com camomila à Eduarda, que a encarou com uma sobrancelha levantada.

— Você está me dando um copo de leite para me fazer dormir? — A ruiva perguntou e Lorena afirmou com a cabeça — Lorena Fragoso, quais são seus planos para mais tarde? Eu assisti Caminho das Índias esses dias e conheço a história da Norminha, hein?

— Você não vale nada mais eu gosto de você, você não vale nada mas eu gosto de você!

— Lorena começou a cantar e Eduarda gargalhou.

— Pronto — A ruiva falou ao tomar o líquido — Obrigada, Norminha, agora vem, vamos dormir!

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