Capítulo 2

De gracinha em gracinha... vai que você tira a calcinha!

— Bom dia, meu amor lindo. — Eduarda falou com a voz de sono mais gostosa do mundo e foi logo passando o braço pela cintura fina de Lorena.

— Bom dia. — Lorena respondeu seca.

Aquela resposta fez a ruiva arregalar os olhos… Fiz alguma coisa? Trouxe o que ela pediu do mercado… Não esqueci a toalha molhada em cima da cama… Guardei os pratos do escorredor… Nosso aniversário de casamento ainda é daqui um tempo e o presente já está encaminhado…

Alguns minutos mais tarde, o alarme cruelmente tocou e bom, era hora de iniciar o dia. Lorena levantou num pulo e correu pro banheiro…

— Isso só pode significar uma coisa! — Eduarda murmurou para si e segundos depois, a confirmação veio.

— Nossa, eu ODEIO menstruar! Argh! Que raiva! Está porra não vai embora nunca? — Lorena falou com a voz abafada no banheiro e Eduarda sentiu um arrepio percorrer a espinha.

Definitivamente, Lorena era o amor de sua vida, Eduarda sabia e as duas se complementavam em tudo, uma era o Yin e a outra o Yang. Ao passo que Lorena sempre parava e esperava, Eduarda invadia. Enquanto uma calava, a outra falava, berrava, o arroz e o feijão, o queijo coalho com goiabada, a Shereka e a Fiona…

Tudo ia perfeitamente bem, um grande encontro de almas gêmeas, até chegar a tenebrosa semana em que Lorena menstruava e tudo isso vinha se potencializando com o passar dos anos, o disparate hormonal e a chegada da tão temida menopausa, que dava sinais que chegaria, mas sabe-se lá quando.

Nesses cinco dias de cada mês, Eduarda não sabia qual era seu papel no mundo… As vezes, precisava ser uma romântica incurável com flores e chocolate, o que era moleza, às vezes era a enfermeira que levantava de madrugada pra pegar a bolsa térmica e um remedinho e às vezes sentia vontade de ser a médica do hospital psiquiátrico que chega pra fazer uma intervenção com um casaquinho branco (nome poético para camisa de força), todo mês era uma caixinha de surpresas…

Mas sem sombra de dúvidas, o personagem mais difícil de lidar era aquele: o Epaminondas. Em alguns meses, durante aquele período específico, sua linda e querida esposa se transformava num velho rabugento e ranzinza que reclamava de tudo, que via defeito em tudo e a única missão da ruiva era sobreviver.

Eduarda sentou na cama e ouviu Lorena rasgar abruptamente o pacote de absorvente enquanto resmungava e murmurava que se viesse na próxima vida, queria vir homem e não ter que passar por aquele tipo de coisa e percebeu que o pavoroso estava ali.

— Meu bem — Eduarda falou baixo e num tom de voz amigável, como quem tenta conter um animal de grande porte usando só a voz — Vou adiantar nosso café da manhã.

A ruiva nem ficou para esperar a resposta, partiu desenfreada para a cozinha e no caminho, encarou toda e qualquer coisa que pudesse deixar Lorena minimamente irritada. Correu no sofá de linho e aprumou as almofadas que estavam tortas, deixou os controles na mesa de centro, limpou rapidamente a mesa e pendurou as chaves no canto certo.

Ligou a cafeteira e começou a organizar a louça para o café da manhã. Cortou as fatias de mamão, deixou a granola perto, seguiu no preparo dos ovos enquanto a cozinha era inundada por aquele cheiro delicioso de café e por alguns instantes, se distraiu tanto que esqueceu que estava vivendo com a Santa Inquisição em casa.

— Você não vai tomar banho pra gente ir? — Lorena perguntou arrancando a ruiva de seu devaneio.

— Ah… Eh… C-claro que vou, meu amor, tava só… adiantando nosso café. — A ruiva falou engolindo seco.

— Vou colocar nossos pães para assar-

— Ó-ótimo! É o tempo que eu tomo um banho! — Ela falou e se apressou em voltar para o quarto.

Tomou uma ducha rápida, vestiu a calça e achou melhor colocar a camisa quando estivessem saindo, pra não acontecer de sujar.

— Esse foi aquele conjunto que compramos no shopping? — Ela perguntou assim que voltou para a cozinha — Ficou lindo em você. — a ruiva falou e depositou um beijo terno no ombro da esposa, que estava sentada lendo o jornal.

— Foi sim… Obrigada. Você pode trazer o café?

Eduarda prontamente serviu as duas xícaras e sentou. Tudo ia maravilhosamente bem, nossa guerreira ruiva ia passando ilesa pelas garras malignas do velho rabugento sentado ao lado, até que a última gota de café pingou na saia lápis cinza.

— Mas isso aqui não é uma porra? — Ela bradou, a veia do pescoço saltando e tudo, enquanto Eduarda puxava automaticamente uma Ave-Maria na mente.

Epaminondas encarou a gota marrom, levantou em silêncio e deixou os pratos na pia, de uma forma tão delicada que Eduarda chegou a pensar que ela tinha derrubado a estrutura de mármore também.

— Vou só trocar de roupa e já volto pra gente ir — Lorena falou calmamente, que não condizia em nada com a atitude de dois segundos atrás e Eduarda apenas assentiu.

A ruiva voltou para o closet na ponta dos pés e tentou conter o sorriso ao encarar a esposa de pé, só de calcinha olhando com desgosto para as milhões de roupas ali.

— Eu não tenho nada para vestir! — Falou com uma voz chorosa.

— V-você quer tentar o meu lado? — a ruiva ofereceu e seguiu encarando pacientemente sua mulher e via os olhos indo de um lado para outro, avaliando as possibilidades.

Após alguns minutos observando apenas todas as cinco mil opções, Lorena se virou devagar e encarou a esposa novamente.

— Sabe o que é, amor? — Lorena falou manhosa, de um jeito irresistível, o olhar pidão e a boca num biquinho. Deu dois passos pra frente e segurou a ruiva firme pelos dois pulsos, encostando o corpo quase nu no dela, evitando qualquer chance de escapatória. — É que eu gostei tanto dessa calça preta que você está vestindo…

Eduarda encarou a esposa por três segundos, foi o tempo até receber um beijo, de tirar as calças, literalmente e foi cuidar em procurar outra roupa para vestir.

XXX

— Não esquece, hein?

— Pode deixar, meu amor! Vou fazer igual você faz todos os dias. — A ruiva respondeu abrindo a porta de trás do carro e colocando a mala da esposa ali.

— Naquelas dali é só uma borrifadinha tá? — Lorena falou apontando e Eduarda balançou a cabeça afirmativamente.

Lorena estava partindo para Brasília, numa missão até mesmo meio ingrata e ela se sentia péssima por pensar daquela forma, iria acompanhar Leonardo, seu irmão mais velho em um procedimento, já que ele não tinha mais ninguém para ir com ele.

O clima entre os dois não era muito bom, por causa do envolvimento do mais velho com o pai, mas os dois tentavam se manter unidos e manter contato após a morte do pai e principalmente da mãe, há alguns anos atrás.

— Essas aqui vão precisar de sol, mas depois tem que devolver elas para a sombra… – Lorena falou sem encarar a ruiva, que ouvia as instruções com as duas mãos na cintura, como se ouvisse um planejamento de guerra e precisasse estar atenta a cada detalhe, mas já sabia que tudo aquilo na esposa eram traços de ansiedade e nervosismo, como se só a menstruação não fosse o suficiente, o Leonardo ainda tinha que piorar tudo!

— Meu amor, vem aqui — Eduarda chamou num tom tão doce que Lorena sentiu os olhos marejando no mesmo instante — Ei, tá tudo bem… as suas samambaias, trepadeiras, espadas de São Jorge, as orquídeas e as comigo-ninguém-pode vão ficar bem, prometo. — A ruiva falou envolvendo Lorena em um abraço protetor — A única coisa que está me preocupando é você desse jeito… Sei que o Léo te deixa nervosa, sei que hospitais também não são os seus lugares favoritos do mundo…

Lorena se permitiu enterrar o rosto no pescoço cheiroso da esposa e chorava baixinho, enquanto Eduarda deslizava as mãos suavemente pelas costas de sua mulher.

— Se você quiser eu tiro a semana de férias…

— M-mas aí quem iria cuidar das trepadeiras? — Lorena perguntou fungando.

Eduarda queria bufar e por ela, a casa nem teria tantas plantas, mas aquele jardim era um dos amores de Lorena, especialmente depois que Bóris morreu e ela deixou de ser mãe de gato, não quis outro bichinho de jeito nenhum, não ia aguentar ver outra partida, mesmo sabendo que o gato teve uma vida incrivelmente feliz e que morreu de velhinho, Eduarda até o apelidou secretamente de Matusalém.

Claro que a ruiva já tinha pensado na possibilidade de pedir ajuda a Paulinho ou a um dos amigos e até mesmo a própria filha, mas sabia que aquela missão era importante demais para ser passada a qualquer um, ainda mais na atual conjuntura…

— É verdade, meu amor… — Eduarda falou baixinho — Bom, nós precisamos partir agora por causa do seu voo e eu prometo que largo tudo aqui se você precisar de mim e volto no mesmo dia…

— Eu amo você, Eduarda Fragoso, você sabe disso, não sabe? — Lorena falou limpando as próprias lágrimas.

— Claro que sei, meu amor — A ruiva respondeu dando um beijo terno na testa da esposa

— E eu te amo também, muito! Agora, vamos!

As duas entraram no carro e Eduarda usou o controle para abrir o portão automático, na rampa de saída, encontraram o vizinho e os filhos sentados na calçada da casa delas.

— Bom dia, bom dia! — Eduarda falou do banco do motorista acenando simpática e viu na hora que Epaminondas assumiu o corpo da esposa.

— Bom dia, Eduarda! — Gabriel falou animado. Era um homem de seus trinta e poucos anos, esses pais jovens de hoje em dia. Estava sempre sorridente e parecia não ter problema algum. — Tô aproveitando a manhã de férias pra gastar a energia das crianças! Bom dia, Lorena. — O homem falou simpático e Lorena apenas sorriu sem mostrar os dentes, o sorriso nem sequer chegou aos olhos.

Eduarda soube, sem que nenhuma palavra precisasse ser dita, que a esposa estava encarando o objeto mortífero nas mãos de um dos meninos: uma bola de futebol.

A bola em si, não era o problema. O problema era a associação da imagem da bola BATENDO em uma das caqueiras ou no jardim da frente da casa…

— B-bom, tenham um bom dia e se divirtam! — A ruiva falou apressada.

XXX

O caminho até o aeroporto foi… intenso.

Primeiro, a ruiva teve que lidar com o mau humor de Epaminondas.

— Eu acho isso incrível! Incrível mesmo! — A morena falava possessa enquanto gesticulava com as mãos, Eduarda viu os dedos tentando esganar o ar, mas achou melhor ignorar — Por que ele não leva os filhos para brincar na frente da própria casa? A rua tão larga, tanta área verde no condomínio e eles acham de brincar com aquela bola logo na frente da nossa casa? Um chute e vão quebrar todas as galhas das minhas plantas! Você tá me ouvindo, Eduarda?

— Claro que estou, meu amor — a ruiva respondeu mansa, era a personificação do próprio Buda — Eu concordo com por cento com você, inclusive, vou sugerir na próxima reunião de condomínio, alguma atividade de recreação para as crianças na quadra, durante o período das férias escolares. — A ruiva respondeu e Lorena se virou para encará-la com um olhar avaliador.

— Viu? É por isso que eu te amo!

Depois, as duas seguiram no modo pombinhas apaixonadas, onde a ruiva pôde segurar a mão da esposa enquanto elas cantavam aos berros dentro do carro.

Paradas num sinal vermelho, Eduarda quase perdeu o fio da meada.

— Amor, me dá um beijo? — Lorena pediu sorrindo fofo e Eduarda inclinou o tronco e o rosto por cima do câmbio pronta para um selinho rápido, mantendo os olhos na estrada, mas foi duramente atacada.

A morena agarrou a nuca ruiva, enterrou os dedos ali segurando e beijava com a fome e o tesão de três Anittas, duas Luísas Sonza no auge do período fértil e uma crente que escolheu esperar.

— M-meu amor… — Eduarda falou ofegante enquanto as buzinas rolavam soltas — O t-trânsito!

— Encosta esse carro, Eduarda!

— Numa rodovia pública? — A ruiva perguntou incrédula e sabia que não tinha como encostar, ambas sabiam.

— Droga… acelera pro aeroporto, então! — Lorena ordenou e Eduarda pisou no acelerador, tentando ingenuamente respeitar os limites de velocidade, ao passo que Lorena deslizava as unhas curtas por toda a extensão de sua coxa, provocando arrepios por todo o corpo.

— Estaciona ali — Lorena instruiu e é claro que a ruiva obedeceu, apesar de a vaga ser um terror de apertada, colada com uma pilastra de concreto e longe da entrada…

— Aqui tá bom? — A ruiva perguntou e se sentia uma criança prestes a ser presa pelas garras do lobo mau.

— Acho que sim! — Lorena respondeu desatacando o cinto de segurança e saltando no colo da esposa.

— M-meu amor…

Eduarda até tentou balbuciar alguma coisa, mas Lorena foi muito mais rápida e a ruiva só conseguia sorrir no meio do beijo. A ruiva seguia se sentindo a filha favorita de Deus pai todo poderoso ao ouvir Lorena gemendo ali, naquele carro enquanto a beijava com fome, feito se estivesse partindo para uma guerra.

— Anda, fala que me ama! — Lorena pediu com a voz cortante e cheia de autoridade.

— Eu te amo! — Eduarda praticamente gemeu aquilo contra o pescoço dela e falaria qualquer coisa, seria qualquer coisa se recebesse aquele tipo de beijo como pagamento.

— Fala de novo… enquanto tá me beijando! — Lorena ordenou manhosa e deu um tapa leve na bochecha de Eduarda, que estava ofegante como quem acaba uma prova de triatlo.

— Eu… te… amo… puta que pariu! — A ruiva balbuciou apertando a cintura fina e quando foi se organizar com a esposa no colo, Lorena acabou se desequilibrando, batendo as costas na buzina.

FONNNNNNNNNNNNNNNNN!

O barulho alto parece ter feito os neurônios das duas acordarem.

— Eita porra — A morena falou com o coração acelerado, se dando conta de que estavam num local completamente público.

— Pelo amor de Deus, vamos sair desse carro! — Eduarda falou rindo envergonhada e sentia o coração espancando a caixa torácica, o rosto e o corpo quente…

As duas saíram do carro e Lorena teve uma crise de riso ao teimar em descer pela porta do motorista também. Eduarda assistia a cena pacientemente enquanto a morena fazia uma manobra para passar a perna para fora do carro.

Seguiram de mãos dadas pelo saguão do aeroporto e claro que Eduarda fez questão de carregar a mala da esposa com a mão livre. Chegaram faltando quinze minutos para o horário do embarque e Lorena teve uma leve crise de choro encarando os familiares olhos castanhos.

— Você não vai esquecer de mim, vai? — Ela perguntou com a voz manhosa.

Eduarda passava a mão pelo próprio rosto, tentando acompanhar todas as cento e noventa personalidades da esposa completamente fragmentada.

— Não, meu amor… Jamais esqueço de você. — A ruiva falou tentando asfixiar a risada e soar séria — Você tá aqui — a ruiva falou apontando para as alianças de noivado e casamento reluzindo no dedo— Aqui — apontando para o coração — E aqui — apontando para a cabeça.

— E você vai ficar fazendo o que esses dias? Hum? — Perguntou dengosa, fungando baixinho, antes de mudar a feição pra um olhar psicopata num estalar de dedos — Se eu sonhar que arrumou outra, eu volto correndo e te mato! — Falou na mesma hora e Eduarda se segurou muito, muito mesmo para não gargalhar e morrer depois. Sapatona louca, senhor!

Misericórdia, Deus, eu sou teu filho! A mente da ruiva seguia cantando em looping.

— Ah, meu amor, além de sentir sua falta eu vou treinar, trabalhar, o de sempre! Na sexta, estarei aqui te esperando e vou mandar mensagem todos os dias querendo saber como estão as coisas com o amor da minha vida e o brucutú do seu irmão! Vou mandar uma mensagem pra KitCat, perguntando se posso pegar as crianças também…

— Eu já tô morrendo de saudade de você! — Lorena falou e se jogou nos braços dela, manhosa de novo, apertando sua cintura.

— E eu de você! Boa viagem e liga quando chegar lá e sempre que der também. Vou sentir muito sua falta, viu? Te amo!

XXX

A rotina sem Lorena em casa era realmente estranha.

O primeiro desafio foi o resto daquele dia em casa sozinha. Geralmente, em suas folgas, ela ia buscar a esposa no trabalho e as duas sempre arrumavam alguma coisa para fazer: feira, caminhada no parque, shopping, barzinho no fim da tarde ou só ficavam juntas no sofá ou na cama conversando e vez ou outra, checando se as leis da biologia ainda funcionam e uma mulher realmente não pode engravidar a outra usando apenas os dedos…

Assim que recebeu uma ligação da esposa falando que havia chegado lá e que já estava com Leo, a ruiva relaxou. Seguiram conversando sobre o clima seco de Brasília, o preço exorbitante da comida do aeroporto e infinitos detalhes da viagem, mas quando desligou, Eduarda ficou se sentindo solitária.

Sempre que ficava na ausência de Lorena, percebia o quanto amava chegar em casa e escutar sua mulher falando pelos cotovelos sobre o que quer fosse.

Decidiu calçar os tênis e ir fazer uma caminhada noturna, partiu depois de mandar uma mensagem para Lorena avisando.

Seguia tentando sobreviver às crateras nas calçadas e quando estava no terceiro quilômetro, se deparou com uma cena que chamou sua atenção: quatro idosos, uma tábua e o barulho familiar das pedras de dominó, tudo isso e aquele falatório de jogo. A ruiva seguiu caminhando pelos arredores, soltou um “boa noite” e sorriu quando foi respondida e lá pela terceira volta, um deles levantou indignado.

— Romero, você é muito burro, Romero! — O senhor de cabelos brancos berrava vermelho de raiva, com as mãos arrancando as bochechas fora — Eu toco na quina e tu joga uma porra duma quina?

— Eu só tinha essa pedra, homem! — Outro homem respondeu, Eduarda julgou ser o tal Romero.

— Vocês precisam aprender a perder! — Um senhor com a camisa de botão aberta até o umbigo exibindo uma moita de pelos brancos no peito, debochou, dando uma tragada no cigarro.

— Eu vou embora, quero nem saber desse arrombado mais não!

Aquele clima de confusão, os homens berrando uns com os outros, as pancadas na mesa… Aquele clima maravilhoso, os berros, as pancadas secas de osso contra madeira que pareciam tiros... Aquilo atiçou uma besta adormecida no peito de Eduarda.

Esse traço da personalidade dela, que ela tentava manter enjaulado na presença de Lorena, que achava que ela não tinha espírito competidor, só tinha o vencedor, mas não havia amarras! Ela poderia competir, liberar a fera!

— Licença — Ela falou educada, mas os olhos castanhos faiscavam — O-o senhor está de saída? P-posso jogar uma partida pra completar a mesa?

A ruiva voltou para casa mais aliviada, tinha vencido todas as partidas e não obstante, organizou um campeonato de dominó, estava animadíssima para ir na rua comprar um troféu e tudo, mas sabia que tinha dado uma grandiosíssima bola fora: saiu de casa por volta das sete da noite e voltou eram quase onze… Claro que Lorena percebeu e sua última mensagem foi “que caminhada da bestafera é essa? Vai vir me ver aqui em Brasília?”

XXX

— Oi, meu amor — Eduarda falou apertando o microfone na tela do celular — Tô passando só pra dizer que te amo demais e que as plantas estão bem cuidadas, viu? Te amo! Como estão as coisas por aí? — A ruiva enviou e alguns minutos depois, recebeu uma chamada de vídeo.

Eduarda estava sentada na mesa da cozinha, terminando de tomar café da manhã e apoiou o celular na garrafa antes de atender.

— Bom dia, minha vida. — A ruiva falou sorrindo boba apaixonada assim que atendeu.

— Bom dia? — Lorena indagou — Eu estou a ponto de cometer um crime de ódio, Eduarda. Eduarda?

A ruiva sentiu vontade de se ajoelhar diante da tela do celular naquele exato instante e pedir perdão por todos os seus pecados cometidos nesta encarnação e na próxima. Maria, se não der para passar na frente, passe pelo menos aqui do meu lado!

— O que houve? — A ruiva perguntou já temendo a própria vida.

— O Leonardo! Nossa, mas s-se ele não estivesse todo lascado eu mesma quebraria um cabo de vassoura nas costas dele! — Lorena falou com ódio no olhar e Eduarda suspirou aliviada ao descobrir que o motivo do ódio era outra pessoa — Hoje de manhã, a campainha tocando, fui lá ver quem era… Amor, uma mulher, acho que ela deve ter uns vinte anos… — a morena falou em choque — Abri a porta, a fulana veio cheia de dedo pro meu lado, “VOCÊ QUE É A CACHORRA DA MULHER DELE?” e eu congelada, ai respondi que era a irmã mais nova, mandei se acalmar e baixar a bola, bem tranquilinha!

Eduarda sentiu frio na espinha na mesma hora, sabia que sua esposa poderia ser bem… tranquilinha, quando queria, coitada dessa pobre mulher que foi perturbar o espírito obsessor do Epaminondas…

— Depois, que me deu o maior esculacho, veio dizer que ALÉM DELA, só aceitava A FABI! E eu já tava em completo estado de choque… Eles são um trisal! — Lorena falou com os olhos arregalados e Eduarda quis rir.

— Meu Deus, amor… Um trisal! — Eduarda falou apenas para agradar a mulher e engrossar o caldo do Leonardo— Mas no final, deu tudo certo?

— No fim, veio com um papo de que eu era bonita, me cantando na porta da casa do meu irmão, dizendo que se os meus olhos verdes já eram bonitos assim agora, imagina quando amadurecer… e ainda perguntou se eu era solteira

— Peraí, peraí… — Eduarda sentiu o sangue esquentar. Aceitar um trisal, ok. Não sendo comigo, arroche! Agora, aceitar que estão dando em cima da minha mulher? — Como é que é? Me fala o nome dessa mulher, Lorena!

— C-calma, meu amor-

— Calma? Lorena, você sabe que isso é o sonho de qualquer mulher nessa idade! — Eduarda falou indignada, o rosto vermelho de ciúmes — O sonho das Mucilon é pegar as Aveia Quaker, você sabe! Eu bato em Brasília, hein!

— Cunhadinha linda do meu coração! — Leonardo falou surgindo atrás de Lorena, ele estava uma cópia exata do falecido pai, só que com albinismo, cruzes!

— Oi, Leo, tudo certo?

— Mil maravilhas, cunhada! Só estou meio avariado, mas vou ficar bom rápido! Ei, feliz aniversário atrasado, inclusive! Sessentão? Cê tá bem conservada, viu? — Ele falou se aproximando ainda mais da tela e Lorena bufando atrás.

Um fato curioso sobre o relacionamento de Leonardo com a ruiva, era de que ele parecia não entender que Eduarda era completamente lésbica e casada com uma outra mulher, que por acaso, era a irmã mais nova dele… Todos os contatos deles tinham aquele ar dela se esquivando das investidas dele.

— B-brigada, Leo… — Eduarda respondeu alternando o olhar entre os irmãos Ferette. — Lorena, meu amor… V-você dormiu direitinho?

— Direitinho… Rum! Cólica, sem você e esse traste roncando alto e a noite toda, mal preguei os olhos!

— A Lorena exagera muito! As meninas sabem que eu nem ronco esse tanto.

— “As meninas”, você é ridículo! — Lorena falou se virando para ele — Por isso que teve que me ligar pra te acompanhar no hospital, onde já se viu criança acompanhando velho nos cantos?

— Cala a boca, chata! — Leonardo respondeu.

— Meu amor e você não sabe da maior — Lorena falou encarando a câmera novamente — Eu enchi todas as garrafas d'água, coloquei todas na geladeira! Você sabe que eu prefiro água gelada! Pois esse traste secou TODAS e guardou elas secas lá! — Lorena falou visivelmente indignada e Eduarda sentiu vontade de rir, ao encarar as crianças de cinquenta e cinco e sessenta e três anos de rinha na sua frente..

Às vezes, quando era mais nova, a ruiva ouvia as histórias dos outros sobre terem irmãos e sentia falta de uma coisa que ela nunca nem sequer teve, mas vendo aquela cena… só conseguiu sentir gratidão.

— Agrh! Você é um idiota! — Ela falou mostrando o dedo do meio para ele, enquanto ele dava uma sambadinha atrás dela.

— Eh, m-meu amor… — A ruiva falou tentando chamar atenção —Vou precisar desligar agora, p-preciso ir trabalhar…

— Vici i um idioti — Leonardo seguia provocando ao fundo, imitando a voz de Lorena.

— Claro, meu amor! Cuide nas suas coisas por aí! Te amo mais que tudo, tô morrendo de saudade!

— Me fala qualquer coisa, tá? Te amo demais, meu amor! Tô com saudade. Beijo! — A ruiva falou e desligou a chamada.

XXX

O dia seguiu sem maiores percalços.

Eduarda pegou o carro e foi direto para a delegacia e lá, ela mandava e desmandava. Adorava isso!

Passou as primeiras horas da manhã revisando laudos periciais que acabaram de chegar, despachou inquéritos, mandou prender um sujeito que achou que podia desacatar a polícia…

Na hora do almoço, foi tomada por uma sensação estranha, ela própria havia montado sua marmita e sentiu que faltava algo. A Lorena sempre coloca o guardanapo dobradinho e as frutas organizadinhas, sempre deixa algum bilhetinho… Meu Deus, estou definhando de saudade da minha mulher!

— Amor eu tô aqui na delegacia… Tô almoçando e queria saber se tá tudo bem por aí, se você já comeu, me fala depois? — A ruiva mandou num áudio dengoso.

Segundos depois, a porta de sua sala foi aberta abruptamente, sem nenhuma batida prévia. A ruiva sentiu a fúria subindo pelos pés, uma dormência e quando Macedo surgiu assobiando despreocupado, Eduarda foi tomada por uma vontade de pular com as duas mãos no pescoço dele.

O desgraçado fez questão de passar uns dez segundos assobiando animadinho na frente de Eduarda, que há essas alturas, já estava até com indigestão.

— Doutora, a senhora tem um minutinho? — Ele perguntou e Eduarda enfiou o garfo no melão com tanta força que a vasilha de vidro deslizou em sua mesa.

— Pode falar, Macedo! — Ela quase cuspiu as palavras.

— Tem um homem lá fora com um pacote para lhe entregar…

— Recebe pra mim por favor, Macedo? Tô almoçando — A ruiva falou sem paciência.

— Posso?

— Por favor. — Ela disse por fim e cravou as unhas nas palmas das mãos apertando com força, assim que ele saiu.

XXX

A delegada recebeu vários áudios da esposa, também alegando muita saudade e um pack de fotos dela na fila do hospital com o irmão e realmente, eles juntos eram insuportáveis. O coitado morrendo de medo de agulha e Lorena gravando, gargalhando quando a enfermeira colhia o sangue dele.

Eduarda avisou que que estava largado naquele horário e que tentou contato com a filha, mas Catarina estava na casa dos sogros com as crianças. Assim que entrou no carro, lembrou de uma coisa muito importante: buscaria Lorena na sexta e no sábado todos iriam pescar, a maior farofada dos últimos tempos estava na porta!

Mas faltava uma pessoa confirmar presença e ela se adiantou em ligar.

— Paulinho, se você não for esse sábado eu te mato, desgraçado! Não, nem quero saber das suas desculpas… Rancorosa? Eu? Agora, queria muito saber que tipo de consideração é essa que você diz ter por mim — Eduarda falou — Eu, sua dupla de trabalho, sua amiga, uma vida inteira juntos… Paulinho, eu vi o seu piupiu num momento de calamidade! Mas é isso, destá, dor de barriga não só dá uma vez! A gente pode conversar melhor no pilates! Terminou a chamada e partiu para casa.

Organizou a janta, colocou as roupas na máquina, passou o aspirador pelo meio da casa, tomou um banho, jantou… Mandou mais algumas mensagens para Lorena e ela disse que iria no shopping com o irmão. A casa sem a esposa era um saco! A vida sem Lorena Ferette Fragoso contando sobre sua rotina, suas aulas, seus alunos, era vazia demais… A ruiva estava completamente atormentada pela ideia de ir jogar dominó novamente, parecia uma viciada e estava tão empolgada com a ideia de disputar o troféu que comprou e chegou na delegacia mais cedo…

— Amor, tô indo dar outra caminhada… — Eduarda mandou mensagem entre uma calçada de meia e outra — Me avisa quando chegar em casa, por favor!

XXX

— Eu vou mandar a boa! — Enock falava repetidamente enquanto contava silenciosamente as peças.

— E eu quero que o senhor mande! — Eduarda berrou no meio do fuzuê.

— VOCÊ NÃO É DE NADA, ENOCK! — Juninho do Porco berrava batendo uma garrafa de plástico no pé de madeira do banco.

— Eita péda valente da foice! — Nino Testa de Ferro falou assim que o homem jogou uma carroça de quadra na tábua, quase varando.

— Fébe do rato! — Romero, sim, o mesmo homem que havia saído do jogo outro dia, falou. Fez-se um silêncio colossal.

Os quatro jogadores e os espectadores ansiavam pelo próximo passo, o coração de Eduarda batia tão forte contra as costelas que ela sentia a veia do pescoço pulsando.

— O senhor mandou a boa, seu Enock… — A ruiva começou baixinho, num tom pausado e demoníaco, encarando o velho — Mas eu queria que o senhor tivesse mandado a MELHOR! — A ruiva berrou estourando uma quadra de terno na tábua, tão forte que as outras pedras levantaram: a batida foi lá e lô.

— Rapaz, cabelinho de fogo não brinca em serviço! — Nino falou exasperado.

Foi uma comoção tão grande, um barulho enorme, um dos amigos tirou o boné da cabeça de Enock, um dos espectadores com uma mochila do Ifood chacoalhava os ombros de Eduarda… Comoção generalizada, enquanto a ruiva encarava posuda os três outros jogadores e o troféu que ela mesma tinha comprado que estava no canto da mesa.

Já era meu porque eu comprei, agora é meu por merecimento!

XXX

— Oi, meu amor, boa noite! — A ruiva falou manhosa sentada na sala de casa com dois dedinhos de vinho em uma taça e Gal Costa cantarolava Meu Bem, Meu Mal baixinho no som.

Você é meu caminho, meu vinho, meu vício, desde o início estava você…

Se sentia uma das mulheres mais felizes do mundo e sabia que só terminaria aquela noite de forma mais feliz se Lorena estivesse em casa, mas por hora, encarar o troféu de plástico preto com uma carroça de quina escrito “Primeiro Lugar” em dourado, servia.

— Boa noite? Eduarda, você sabe que horas são?

— Tá meio tarde, né? — Ela respondeu sorrindo amarelo.

— E o que você está fazendo acordada uma hora dessas? Hein?

— Meu amor… Acabei perdendo a hora na caminhada. — A ruiva falou, é parcialmente uma verdade! — Botei aquela playlist que você fez para mim, lembrei tanto de vo-

— Ah, que bom que lembrou de mim em algum momento, né? A sua sorte é que eu tô longe, se eu estivesse em casa, você ia apanhar, isso sim! Isso lá são horas de ficar andando na rua?

— Meu amor… — a ruiva falou rindo fraquinho.

— E eu espero que esteja saindo de aliança!

— Você sabe que eu só tiro ela do dedo em dia de operação — Eduarda falou mansa — E que ela só saí do dedo para ir para o pescoço, pro colar que você me deu. — A ruiva falou derretida, tocando a correntinha fina que descansava no peito.

— Sei…

Era verdade. Certa vez, quando era um pouco mais jovem, a ruiva foi para uma operação e acabou levando um tiro de raspão na mão, na época, sua preocupação maior não foi nem o tiro, foi que tiveram que cerrar a aliança. Desde esse dia, a delegada só entrava em operação com a aliança presinha num colar de ouro que Lorena havia lhe dado.

— Você tá bem? — A ruiva perguntou baixinho — A casa não tem graça nenhuma sem você! — A ruiva falou e foi tomada por uma emoção comum e cotidiana: amava a esposa. Amava ao ponto de querer chorar de saudade e sabia que aquilo poderia ser considerado completamente desmedido, eram só alguns dias longe, mas seu corpo estranhava toda aquela ausência.

— Eu estou bem, meu amor! Sei que você não sai sem sua aliança… Tô com saudade também e tô me sentindo meio estranha. — Lorena falou e suspirou — O Leo me lembra muito o meu pai e sei lá, estarmos juntos esses dias me fez relembrar as fases boas, sabe? A gente de implicância, a mamãe… — Lorena não conseguiu mais continuar falando e automaticamente Eduarda começou a chorar também.

A ausência das matriarcas nas famílias Ferette e Fragoso era um tópico doloroso demais. As quatro se amavam muito e se amaram muito, Violeta praticamente adotou Lorena quando ela casou com Eduarda e depois que Zenilda se foi, era como se ela tivesse duas filhas.

Passaram alguns minutos apenas chorando, uma de um lado da linha e a outra, do outro lado.

— Chega! Eu vou pegar um avião hoje de madrugada! — A ruiva falou e Lorena riu em meio às lágrimas.

— Eu te amo tanto, Duda! Mas é só hoje e amanhã, meu amor e eu meio que preciso desse tempo com ele, sabe? Prometo que vou aguentar por aqui, estou bem, de verdade.

— Tudo bem, eu entendo…

— Mas me conta, como foi o dia por aí?

XXX

Como duas adolescentes apaixonadas, passaram da hora na chamada na noite anterior. A ruiva ainda permanecia em completo estado de perplexidade com o tanto que a sua mulher era inteligente e sabia de tudo e todas as coisas, como era gostoso conversar com ela, mesmo que longe.

Encerraram a chamada quando Lorena começou a bocejar e combinaram que quem acordasse primeiro ligaria de vídeo acordando a outra.

— Bom dia, minha vida! — Eduarda falou com a cara amassada de sono.

— Bom dia, meu amor! — Lorena falou com a voz rouca — Aff, que saudade de acordar com você do lado e te encher de beijo… espera, você tá dormindo pelada, Eduarda? — Lorena perguntou praticamente salivando.

— Ah, meu amor… tava cansada, tomei banho e caí na cama — A ruiva falou toda se fazendo, CLARAMENTE já tinha arquitetado toda a maldade na mente antes de dormir e por isso, seguia de bruços, apoiada nos cotovelos, mostrando o colo e o contorno dos seios.

— Eduarda… amor… meu Deus, nossa… — Lorena falou sentindo o coração acelerar, já imaginando deslizar o nariz entre aquele par de seios, a pele macia, o cheiro gostoso e o caminho sardento dali até o pescoço…

— Hein? — A ruiva perguntou e havia um sorriso divertido em seus lábios.

— O-o que? — Lorena balbuciou, meu Deus, não entendi nada que ela falou, tava pensando só em safadeza e peripécias…

— Nada demais, só estava perguntando se você ia sair agora de manhã com o seu irmão e se os exames deram certo. — A ruiva falou e virou de barriga pra cima, segurando o celular com uma mão e apoiando a outra atrás da cabeça.

Com aquele movimento do braço, uma parte mínima do bico do peito rosinha apareceu na tela e Lorena quase uivou.

— EDUARDA!

— O que foi? — A ruiva perguntou fingindo uma inocência cega, mas sabendo exatamente os efeitos que estava causando.

— Amor para de fazer isso! — Lorena pediu deslizando a língua nos lábios.

— Fazer o que, amor? — Eduarda perguntou vitimizada — Você precisa desligar a chamada? — perguntou inocente, fazendo cara de cachorro que caiu da mudança.

— Você… você fica se fazendo! — Lorena falou e deslizou os dedos pelos fios grisalhos.

— Mas eu não estou fazendo nada, tô deitada aqui falando com você…

— Sexta quando eu chegar em casa… eu vou te comer com tanta vontade, tanta, mas tanta que você nem vai lembrar que eu passei esses dias fora!

— Prometa! — Eduarda falou fazendo um biquinho e revirando os olhos de alegria.

Duas batidas na porta do quarto de Lorena fizeram Eduarda se organizar na própria cama.

— Mana, vem tomar café! — Leonardo falou do outro lado da porta, com a voz de quem acabou de acordar.

— Já vou. — Lorena respondeu — Vou só trocar de roupa — A morena falou se levantando da cama, usava apenas um baby doll de cetim e Eduarda logo encarou as pernas e o shortinho, inho mesmo.

A morena apoiou o aparelho em um copo na cabeceira da cama e ficou de pé na frente do celular, encarando Eduarda enquanto amarrava os fios grisalhos. Lorena prendeu os cabelos num coque frouxo e arrancou a camisa, fazendo Eduarda sentar igual uma alavanca na cama.

— Ops, esqueci a câmera ligada. — A morena falou e imediatamente desligou a chamada de vídeo com um sorriso diabólico.

XXX

Depois de quase ter infartado, ter mais de cinco chamadas de vídeo recusadas em sequência e de ter recebido uma foto de Leonardo Ferette com uma caneca de café na mão, a ruiva avisou que pegaria os netos naquela manhã e foi tomar um banho, tentando esfriar as ideias.

Aproveitou para imprimir um boleto antes de sair e partiu para a casa de Catarina, que ainda estava incrédula com a disposição da própria mãe em sair carregando os dois pestinhas.

— Mãe, você pode liberar o colo da minha avó para eu sentar, por favor? — Ana pediu impaciente, parando no meio da sala de braços cruzados ao ver Eduarda e Catarina agarradas no sofá

— Mas ela é MINHA mãe — Catarina falou, encarando a própria filha e apertando mais o abraço no pescoço de Eduarda.

— Isso não é justo! — A menina falou cruzando os braços emburrada e batendo o pézinho nervoso no chão — Você tem duas mães e eu só tenho uma!

Como pode uma criança de apenas sete anos carregar tanta sabedoria ancestral? Nós torcemos pela mesma coisa, minha neta… Tomara que sua mãe perceba em algum momento da vida que o Jurandir do seu pai é um tonho e não presta para nada.

— E a gente faz o que com o seu pai? — Catarina perguntou apertando ainda mais a mãe, que sorria para a neta.

— Vem aqui, meu amor! — Eduarda chamou com a voz mais doce do mundo e num movimento habilidoso, pegou a menina com um dos braços e a aninhou por cima da filha, enchendo as duas com beijinhos — Tem eu para todas! — A ruiva falou e Aninha lançou um olhar inquisidor para a avó.

— Deixa só a vó Lore saber disso!

Eduarda e Catarina caíram na risada.

— Você não existe, meu amor! — A avó falou cheirando o pescoço da neta, que gargalhava com a cabecinha para trás — Mas ei, temos várias missões a cumprir… Cadê o seu irmão?

— A gente pode deixar ele em casa, vó? — Ana perguntou.

— Ana! — A mãe repreendeu na mesma hora.

— É brincadeira, mãe! — A menina respondeu com um sorriso angelical, que não enganava ninguém.

O dia com as crianças seguia na mais perfeita harmonia. A feira foi pequena para os três exploradores baterem perna e Eduarda se sentia a melhor pessoa do mundo quando dava algum dinheiro a Ana e mandava ela ir toda borboletinha social comprar alguma coisa.

— Vó, quem é que usa uma calcinha daquele tamanho? — Aninha perguntou completamente chocada ao ver uma calcinha vestida num bambolê no meio da feira e Eduarda gargalhou tão alto da cara da menina que quase engasgou com o vento.

O saldo foi imensamente positivo e claro que a Vó Lorena recebeu uma enxurrada de fotos dos três: Antônio no auge de seus quatro anos usando um boné de macho alfa do Relâmpago Marquinhos e um óculos de sol, Aninha vivendo sua melhor fase Charlie Brown com camisa larguinha de basquete, calça larga xadrez e óculos da Hello Kitty e Eduarda, vó babona, com um sorriso enorme.

Os três bebendo caldo de cana e comendo pastel com a vó Duda, depois os três na frente de uma Estátua Viva e Antônio assustado quando o homem se mexeu, os três provando doce japonês, Aninha do lado de um manequim cabeçudo fazendo joinha e Tunico segurando um saco de cenouras com as duas mãozinhas, já que a meta para mais tarde era fazer um delicioso bolo de cenoura e claro que jantariam pizza!

O sabor de ser a avó liberal e inconsequente sem a presença da avó poder controlador é maravilhoso!

A mais perfeita paz e harmonia foi posta à prova na lotérica.

Eduarda era uma grande fã da tecnologia e achou de uma cafonice medonha o plano de saúde ter enviado um boleto único que só poderia ser pago numa casa lotérica. Bom que pelo menos as crianças conhecem esse tipo de ambiente, né? Os três seguiam na fila numa conversa boba, até:

— Licença… — Uma mulher de uns vinte e poucos anos falou tocando no ombro de Eduarda — Você não tem vergonha de ficar na fila preferencial, não? Tomando o lugar de quem precisa! — A mulher falou brava.

As crianças pararam de falar com os olhos arregalados e se aproximaram ainda mais da avó, que de repente, parecia ter crescido uns cinquenta centímetros, ela crescia em brigas… Não era mais Eduarda a avó babona e sorridente, era a Delegada Eduarda Fragoso. Num movimento habilidoso, a ruiva enfiou a mão na bolsa carteiro que usava, pegou sua carteirinha de couro de Delegada e arrancou a CNH de dentro, quase enfiando dentro da cara da mulher.

— Bom dia, fiz sessenta anos semana passada — A ruiva falou num tom firme — E por estar com os meus dois netos, achei que seria mais rápido e menos estressante para as crianças-

— M-me desculpa — A mulher falou apressada, dando dois passos para trás — É que a senhora n-não parece ter sessenta ano de j-jeito nenhum!

— Ah, é? — Eduarda perguntou como quem não liga — E quantos anos eu pareço ter?

— Eh… A senhora é muito bonita, digo, está b-bem demais! Eu chutaria uns quarenta e cinco — A mulher falou colocando uma mecha dos cabelos atrás da orelha e dando um sorriso bobo.

— A minha vó Lore também acha a vó Duda muito bonita! — Aninha falou se roendo de ciúmes, dando um passo à frente e um basta na conversa, Eduarda sorria tão largo que temeu ter uma câimbra nas bochechas.

Ao chegar em casa, a ruiva fez questão de ligar o som baixinho e novamente, lembrou de Lorena ao ouvir Eu Vou Fazer Você Voar de Alceu Valença. Minha mulher tá em tudo mesmo, te amo tanto, minha Lorena! Claro que a ruiva mandou uma mensagem na mesma hora.

— Bom, vamos começar nosso bolo, mas antes, vamos lavar as mãos! — A avó falou e os dois pequenos foram animados para a pia.

A bancada de mármore parecia realmente uma zona de guerra com restos de trigo, açúcar, um ovo estourado fora do lugar, cascas e pedacinhos de cenoura ralada… Mas o bolo estava no forno! Entre trancos e barrancos dos dois querendo mexer a massa, mas foi!

— Agora, vamos para a cobertura de chocolate! — A ruiva falou e viu os olhinhos brilhando ao ouvirem a junção de palavras que encantam “cobertura” e “chocolate.”

— Posso mexer, vovó? — Tunico perguntou se aproximando.

— Ah, mas eu queria mexer também! — Aninha falou cruzando os braços.

A ruiva ergueu os dois braços em sinal de rendição, já tinha previsto aquilo e o plano de contenção de danos já estava na ponta da língua!

— O Tunico vai misturar o leite condensado e o chocolate agora e a Aninha divide comigo quando for para o fogão! — A ruiva falou e deu uma piscadela para a neta, que sorriu ao descobrir que ficaria com a maior responsabilidade.

Passada a turbulência e com o recheio devidamente pronto, com alguns groladinhos queimados, mas isso é detalhe! A ruiva checou o celular e Lorena ainda não tinha dado sinal de vida.

— O que vocês acham de a gente ir cuidar das plantas da vovó Lorena? — Eduarda sugeriu e se sentiu o próprio Silvio Santos em seu programa de auditório, toda hora era uma gritaria alegre com tudo o que ela sugeria.

Partiram para as plantas e Eduarda seguiu fielmente todas as mil e novecentas indicações da esposa, depois ligou a mangueira e todos três tomaram banho junto, com roupa e tudo, o som ligado, gritaria sem fim! Farra completamente legalizada e liberada na casa da avó.

— A vovó vai lá dentro só olhar o bolo, já volto!

— O nosso bolo, vó! — Aninha falou acompanhando o passo da mais velha.

— Cuidado para não escorregar, amor… O cheiro tá delicioso! — Eduarda falou sentindo o cheirinho de bolo da vovó, literalmente! — Ainda precisa de mais um tempinho de forno, para ficar mais douradinho, mas tá lindo! — A ruiva falou assim que fechou o forno.

— A gente já pode comer ele, vó?

— Ainda nem tá pronto ainda, espertinha! — Eduarda falou rindo, a menina com a fome de três estudantes universitários — Agora vem, vamos voltar pra junto do seu irmão!

Voltaram para o jardim e Eduarda riu tanto que chorou ao encontrar o menino com a mangueira na boca, as bochechas cheias d'água, enormes, parecendo o Alvin e Os Esquilos. Se a mãe dele souber que ele colocou a mangueira que tava no chão na boca… Me mata!

Eduarda supervisionou o banho dos dois pestinhas no chuveirão perto da piscina, que não paravam de dançar um tal Passinho do Jamal e de fazer o six seven, depois colocou o almoço dos dois e não foi nada inocente ao dar um copo de suco de maracujá a cada um. Algum tempo depois, Ana e Antônio estavam apagados no sofá, o bolo esfriava já com a cobertura e ela partiu para uma ducha rápida.

Assim que terminou de se organizar, pegou o celular e sorriu, na mesma hora, ligou.

— Amor eu não sei se vou conseguir te perdoar por ter vivido o dia perfeito com eles sem mim! — Foi a primeira coisa que Lorena falou quando atendeu e Eduarda sorriu com a manha.

— Meu amor, foi um dia ótimo, mas não foi perfeito justamente por você não estar aqui! — Eduarda falou e Lorena sorriu boba do outro lado da linha.

— Quase morri de amores com as fotos que você me mandou hoje, uma mais perfeita que a outra! A Aninha tá a cara da Cat nessa idade! E o Tunico é a Cat de cabelo enroladinho!

— Lorena falou e Eduarda afirmou com a cabeça.

— Graças a Deus que apesar do pai, herdaram a fisionomia linda da mãe! — Eduarda falou e Lorena gargalhou — Ei, é sério! Mas amor, ela tem tanta personalidade! Me lembrou tanto você! Hoje na fila da lotérica uma moça veio querer arrumar confusão por eu estar na fila preferencial com eles, falando que eu era jovem demais pra estar lá…

— Sério?

— Sério… Aí depois a moça ficou sem graça, falou que eu era muito bonita e jovem, que não aparentava ter sessenta anos e a Aninha encarando tudo com as mãos na cintura e o pé nervoso batendo no chão, IGUAL VOCÊ! Falou “minha avó Lore também acha” — Eduarda falou com a lembrança na mente da esposa fazendo exatamente aquilo e após alguns segundos de silêncio:

— Meu amor?...Caiu a ligação?... Ué…

— Tõ aqui… Mas eu tô com tanto ÓDIO! JURO!

— Ué? Ó-ódio? De que?

— Essa… — Lorena falou fechando a mão em punho na frente da boca puro ódio — Essa sem noção querendo dar em cima de uma mulher na fila da lotérica com duas crianças do lado, juro, se eu caio na mão com umazinha dessas eu esculacho tanto!

— Meu amor? — Eduarda falou completamente desacreditada, mas rindo boba, como de costume.

— Ainda bem que a Aninha tava lá, de agora em diante eu vou treinar minha pequena! Ela vai ser meus olhos e meus ouvidos quando eu não estiver por perto!

— Você tá certa, meu amor! Quanto mais de você nela e pelo mundo, melhor! — a ruiva falou e Lorena revirou os olhos! — Mas mudando de assunto só um pouquinho, e o Leo, hein?

— Amor, o Leonardo me fez uma raiva hoje… Você não tá entendendo! Sorte dele que ele tá mal… — Lorena falou com tanto ódio na voz, que Eduarda achou melhor nem interromper — Porque a minha vontade foi enfiar o dedo no rabo dele e arrancar a próstata dele com tudo-

— AMOR?

— Te juro! O resultado do hemograma… As taxas altas, tudo desregulado, essa predisposição genética da família pra câncer, eu tava uma pilha de nervos, já. O médico falou do aumento lá da próstata e da necessidade de realizar o procedimento da biópsia e tal. Na hora de ir embora, o CACHORRO do Leonardo ficava acelerando o carro e dando arrancada toda vez que eu ia abrir a porta! UM SOL, amor, senti vontade de esfolar ele!

Eduarda não conseguiu segurar o riso e gaitou.

— Pode rir… Vai rindo, mas não vem chorar quando eu morrer de ódio e estresse!

— Que é isso, minha linda? A sua história de sofrimento hoje foi até considerável, mas nunca se igualará a da Juliette do BBB! — Eduarda falou e as duas riram — Tô morrendo de saudade de você, ainda bem que você volta amanhã!

— Você vai me buscar? Vai dar tempo?

— Claro que vou! A delegacia pode viver sem mim por um dia, mas eu não posso mais viver sem a presença física da minha mulher — A ruiva falou sentindo o coração acelerar só em pensar no reencontro, Lorena sentiu a mesma coisa e a verdade naquelas palavras — Agora, meu amor, tô com um problema sério, acho que tem algo errado com o meu peito… — Com o seu peito? — Lorena perguntou alarmada.

— É, se der agora, me manda por favor um vídeo do seu, com o mamilo bem durinho, apertando o biquinho bem devagar, fazendo aquela carinha que só você faz e gemendo meu nome baixinho e manhosinho, só pra eu poder comparar a anatomia — A ruiva falou baixinho e já entrando no closet sorrindo passando a língua entre os lábios.

— Eduarda… Você é ridícula! — Lorena falou e gargalhou.

XXX

Por volta das seis da tarde, Catarina chegou com Breno e as pizzas. O jantar seguiu sem maiores percalços e a conversa leve, o bolo de cenoura com toda certeza foi uma das pautas da noite, os dois repetiram a receita umas cem vezes e em dado momento o bolo tinha cem quilos de farinha de trigo e noventa ovos, mas isso mostra que eles estavam atentos a receita!

— Bom, agora que enchemos a barriga, nada mais justo do que a gente ajudar a vovó a organizar essa cozinha, né? — Catarina falou já se munindo de um pano de prato — Breno, assume aqui a pia, Tunico vem ajudar o seu pai e Aninha, cata o que tiver sujo por cima da mesa.

Eduarda viu a cara de bunda do genro ao ouvir o pedido da esposa e quis berrar.

— Eu não quelo ajudar, quelo brincar! — O menino falou.

— Você sabe lavar prato, pai? — Aninha perguntou e a ruiva viu o olhar mortificado do homem.

Eduarda pegou o celular na mesma hora e abriu a conversa com Lorena e digitou:

“Meu amor, vamos rifar o Tunico… Infelizmente, puxou a raça ruim do pai dele! Nós vamos assumir a Aninha como neta favorita! Depois ele não venha se reclamar falando que a gente nunca entregou dinheiro dobradinho pra ele como se fosse droga ou propina!”

XXX

As manhãs de sexta sempre eram boas, mas aquela em específico tinha algo a mais: o retorno de Lorena e o encontro com Paulinho!

Faltando apenas cinco minutos para as oito horas, Paulo Reitz estacionou seu CR-V na frente do estúdio de pilates, atrás do carro de Eduarda, que já estava desconfiando da presença do amigo.

— Ah, finalmente apareceu a margarida! Bom dia, Paulo Reitz! — A ruiva falou assim que o amigo entrou na recepção.

— Bom dia, Juquinha! Ou eu vinha ou você morria de saudades de mim, né? Impressionante!

— Saudade? Você sente falta de ter dor de cabeça, Paulinho? Se toca! A gente só sente falta do que é bom e presta!

— Vai me engolir assim — Ele falou debochado, esticando os dois braços para cima e fazendo a ruiva rir ao ver a barriguinha saliente dele aparecendo — ou assim? — Ele mudou a postura e fez a pose clássica do Cristo Redentor — Mas ei, você tá bem, hein… Vai ficar com essa roupinha mesmo, só de top e legging? A Lorena sabe que você anda nua pelo meio da rua? Vou mandar uma foto no grupo!

— “A Lorena sabe que você…” — Eduarda falou imitando ele — Larga a mão de ser besta, Paulinho! Até parece que ela fica mandando nas coisas que eu visto e que eu fico dando satisfação… — Eduarda falou posuda — Mas claro que sabe, ela quem me deu essa roupa, inclusive e a gente vem junto pra cá!

— Ihhh, tá bem! Não pode nem brincar aqui…

Os dois trocaram um abraço apertado, seguiram se encarando e riram ao mesmo tempo. Se acrescentassem duas canecas de café e um pacote de biscoitos Maisena, a cena seria como uma manhã na delegacia antes de sair pra rua.

— Mas ei, se eu gostar, vou ficar vindo mesmo, pô! Tô sentindo um desconforto horrível nas costas, Juca… Bem nessa região aqui — Ele falou se virando, apontando para o final das costas e o início da bunda.

— Engraçado que essa sua região aí é toda cheia de malassombro, né! — Eduarda falou gesticulando para os quadris do amigo.

— Bom dia, Eduarda — A instrutora de pilates apareceu falando e os dois a encararam — Bom dia, senhor…

— Reitz. Paulo Reitz! — Paulinho falou estendendo a mão e trocando um leve aperto de mãos com a mulher.

— É um prazer! Meu nome é Sara e geralmente sou a instrutora do turno da manhã, a Eduarda avisou que traria um amigo para a aula experimental. Vamos começar?

Paulinho lançou um breve olhar para a ruiva, que fez um movimento breve com a cabeça e eles partiram atrás da mulher.

A sala estava com um cheiro agradável e uma música instrumental tocava baixinho, a mulher demonstrou alguns movimentos de pré-pilates para Eduarda e mais três alunos e seguiu do lado de Paulinho, fez algumas perguntas e checou a mobilidade, todos perceberam que um cabo de vassoura conseguia ser mais maleável que ele.

— Vamos respirar e tentar tocar lá nos pés, tá? Ou o mais perto que cada um conseguir, a mulher falava calma — Sem dobrar os joelhos, hein!

— Putaquepariu — Paulinho falou entredentes, passando um pouco do joelho — Vou me torar aqui…

Eduarda rachava de rir todas as vezes que ele tentava fazer qualquer coisa e tudo parecia matar ele.

— Isso, se mantenham concentrados. Lembrem de puxar o ar pelo nariz e soltar pela boca sempre que se abaixarem. Força no abdômen, força nas pernas, isso! Muito bom, dona Jucinete!

— Ei… — Eduarda sussurrou do lado do amigo — E o seu perseguido? — a ruiva perguntou completamente sem jeito.

— Ah, o mesmo de sempre, Juca — Paulinho sussurrou de volta com a cara fechada e Eduarda ficou alarmada.

— Muito bom, pessoal, ótima amplitude, Eduarda! — A professora elogiou enquanto passava por perto — Paulinho, lembre de respirar e ir no seu limite, tá?

— Ei e vai ficar por isso mesmo? — Ela sussurrou com urgência.

— Você sabe como eu sou… por mim, decepava! — Paulinho sussurrou de volta e Eduarda arregalou os olhos.

— O QUE? — Eduarda falou alto e fingiu uma tosse para camuflar, todos da sala a encararam.

— Sigam controlando os movimentos, pessoal… Suave, contrai bem o abdômen, puxa bem o ar e solta bem — A professora tentou retoma, desconfiada

— Tá doida? — Paulinho sussurrou de volta indignado com o escândalo.

— Quem tá doido é você! — Ela sussurrou de volta.

— Muda a pauta, vamos parar de falar do Alceu! — Paulinho sussurrou irritado.

— Paulinho? — Eduarda chamou com a paciência indo com Deus — Quem porra é Alceu?

— Quem quiser ir na água, pode ir! — A professora falou lançando um olhar matador na direção dos dois e Eduarda agarrou o pulso do amigo e o rebocou.

— Desembucha! — Eduarda falou impaciente, cruzando os braços.

— O Alceu, o do caso lá com a menor vulnerável… pra mim o certo é decepar a cabeça de um cara daqueles!

— Certo, mas por que diabos você meteu esse cara no meio da aula?Do nada?

— Oxe, você quem perguntou! — Paulinho respondeu já meio zangado, ajeitando a camisa num gesto impaciente — Você olhou pra mim e mandou: "Alceu tá perseguido?"

— Eu não falei em Alceu! Eu perguntei: E O SEU PERSEGUIDO?

— E o que porra é “perseguido”? — Ele perguntou PUTO gesticulando com as mãos.

— As meninas tem perseguida, perereca… Os meninos tem…? Achei que vocês chamavam de perseguido!

— AAAAAAAHHHHHH — Ele falou finalmente compreendendo tudo.

— Aaaaaah — Eduarda imitou o amigo com uma careta com a língua pra fora.

— Na parte da frente tá bem melhor… Só tá ruim perto da Ponte Rio-Niteroi — Ele falou em tom didático e Eduarda seguiu encarando ele em silêncio por bons segundos, com uma grande interrogação na testa — É a ponte que liga dois pontos turísticos famosos, né!

A ruiva soltou um gargalhada tão escandalosa, tão alta e tão descontrolada que precisou se apoiar na parede do corredor para não cair no chão.

— Pontos turísticos? — Ela perguntou sem ar — Com uma coisa horrorosa daquelas? Deve ser excursão pra ver o inferno mesmo.

— Cala a boca, Eduarda! — Paulinho pediu, olhando para os lados enquanto a ruiva quase tinha um síncope de tanto rir — A mulher do pilates vai expulsar a gente daqui! Cala a boca! XXX

Eduarda acabou indo tomar café numa padaria deliciosa com Paulinho perto do estúdio mesmo, a ruiva riu que chorou com o estado em que o amigo terminou a aula, parece que ele engoliu uma estaca! Acabaram estendendo o encontro até o almoço, o que rendeu diversas fotos dos dois no grupo em que tinham com os amigos chamado Semi-Novos Rumo ao Cemitério e por volta do meio dia, a ruiva estava estacionando o carro na garagem.

Checou o relógio e ainda tinha algumas horas antes de ir buscar a esposa no aeroporto, mas queria sair mais cedo para fazer uma surpresa, outra, na verdade! Já tinha deixado as flores pagas com alguns balões de gás hélio e também já tinha feito a reserva para um jantar mais tarde.

Decidiu dar uma organizada breve na casa: trocou a roupa de cama, as toalhas, passou o aspirador de pó pela sala, borrifou o cheirinho que Lorena amava em tudo e foi para a área externa.

— Ah, não, não não, não…

A ruiva soube naquela mesma hora que tinha o coração muito forte mesmo.

Vasculhou na mente o momento em que aquela tragédia tinha acontecido e não precisava ser detetive para descobrir: ontem, na algazarra do banho de mangueira, em algum momento em que ela deixou as crianças sozinhas lá fora perto das plantas, alguém, muito provavelmente o Antônio, tipo muito mesmo, o tamanho das marquinhas de mãos sujas de terra no jarro branco era a prova cabal… AFOGOU e arrancou uma parte da Costela de Adão, a gente deveria batizar ela de Paula Fernandes, agora!

Todo o cuidado da esposa, todos os mil e quinhentos avisos, todo o trabalho que ela teve em botar as plantas para tomar sol, tomar banho, depois devolver tudo…

— Eu vou inscrever aquele empesteado nos jogos vorazes, não é possível. — Eduarda murmurou sozinha, era pura indignação.

Nem teve tempo de pensar muito, entrou em casa correndo, caçou a chave do carro e o celular e partiu no meio do mundo.

XXX

Pontualmente às duas horas da tarde, Eduarda estava no aeroporto, mais precisamente no portão de desembarque, usando um vestido que a esposa amava, que ressalta suas curvas, e munida de um buquê de astromélias e orquídeas.

Sentia uma empolgação quase adolescente, realmente, amar sua mulher a deixava rejuvenescida.

Quando Lorena surgiu usando uma camisa listrada de mangas compridas e um sorriso com as duas covinhas marcadas, Eduarda quis soltar um rojão ali mesmo. A morena caminhou sem pressa e quando os corpos se chocaram num abraço caloroso, ambas finalmente se sentiram em casa.

Tudo era tão familiar que, de repente, era como se as duas tivessem vinte e poucos anos de novo e Eduarda tinha saído do plantão e ido encontrar a namorada na casa de Maggye ou buscando ela no primeiro emprego como garçonete de um barzinho que elas costumavam frequentar. O cheiro, o toque, a urgência do afeto... nada tinha mudado. O amor delas continuava com o mesmo.

— Meu amor… Que saudade! — Lorena falou deslizando as mãos quentes por toda a extensão das costas de Eduarda, a puxando para perto — Você tá uma delícia com esse vestido!

Eduarda nem esperou para responder: selou os lábios da morena num selinho demorado e logo afundou a cabeça na curva do pescoço da esposa. Respirava fundo aquele aroma tão dela, e era como se estivesse diante de um grande borrifador de lavanda e calmante, onde o mal não me atinge. Uma de suas mãos apertava a cintura de Lorena enquanto a outra segurava o buquê com firmeza.

— Ei — Lorena falou suavemente puxando o rosto da esposa pelo queixo com as pontas dos dedos — Você tá chorando?

— Não! — Eduarda respondeu fraco e fungando.

— Ô, meu Deus — Lorena falou rindo baixinho e fazendo uma cara fofa — Eu te amo tanto, meu amor.

Assim que Eduarda conseguiu parar de chorar, entregou o buquê para sua amada, que amou as flores e foram atrás da mala. Só então, as duas seguiram para o estacionamento.

— Você sempre compra esses balões de gás hélio! — Lorena falou rindo ao ver o balão no teto do carro.

— É que eu amo quando a gente vai falando com voz fininha! — A ruiva se justificou.

E era verdade, ela realmente amava rir daquela bobagem com a esposa, mas mais do que isso: ela tinha dois crimes para confessar, queria deixar a esposa o mais alegre e feliz possível.

Seguiram cantando, conversando e ocasionalmente, rindo, principalmente quando Lorena falava com a voz de taquara. Entraram no condomínio e assim que Eduarda estacionou o carro na garagem…

— Ótimo que chegamos em casa, agora, pode ir desembuchando o que você tá me escondendo! — Lorena falou e o queixo da ruiva caiu.

— C-como é que é? Como você...?

— Eu te conheço, Eduarda! São anos e anos de história, né — Lorena falou sorrindo desconfiada e Eduarda riu.

— Anda, vem comer bolo de cenoura que os seus netos fizeram que eu vou contar todos os meus pecados.

— Você guardou? — Lorena falou sorrindo largo.

— São dois crimes para confessar, preciso amansar a fera! — A ruiva falou sorrindo e as duas entraram em casa com Eduarda guiando Lorena pela cintura.

A ruiva serviu dois pedaços de bolo e fez questão de fotografar, a Aninha vai amar saber que a vó Lore dela experimentou o bolo! Depois, permaneceu comendo de pé, bem atrás da esposa, com uma das mãos envolvendo a cintura fina da morena e o queixo apoiado no ombro dela.

— Amor, você pode sentar, voltei pra casa mesmo e não pretendo sair — Lorena falou divertida e se virou para trazer o banco alto mais para perto, quase se fundindo ao dela.

— Tô com saudade demais! — Eduarda falou e Lorena entrelaçou os dedos da mão livre nos da esposa.

— Agora anda, desembucha… — Lorena pediu divertida — O que foi que você aprontou?

— Amor, me desculpa… Mas é o seguinte: participei de um campeonato de dominó.

Lorena seguiu mastigando o pedaço de bolo de cenoura e encarando os olhos castanhos familiares e após alguns bons segundos em silêncio, a morena gargalhou.

— Você é muito aleatória! Como assim? Quando foi que você foi para um campeonato de dominó? — Lorena perguntou, sem acreditar.

— Naquele dia que fui caminhar a primeira vez, encontrei um grupo de idosos jogando na pracinha e joguei, no outro dia comprei um troféu pelo Mercado Livre e organizei um campeonato… — Eduarda falou meio culpada — Aqui está o belo registro que fiz para te mostrar — A ruiva falou virando a tela do celular e exibindo a foto dela segurando o troféu com os amiguinhos octogenários na pracinha.

Lorena seguia rindo completamente descrente de tudo aquilo, a Eduarda sendo a caçula do grupo… O mais velho deve ter ajudado a enxugar o dilúvio…

— Juro, eu nem sei o que te dizer… — A morena falou rindo — Amor, porque você não me contou?

— Ah, amor… Você não gosta quando eu entro em nenhuma competição, fica brava…

— Mas meu bem, as coisas que você quer competir: tiro esportivo com o pessoal da delegacia e jiu-jitsu… Pelo amor de Deus, né? Se você se machucar eu vou ficar como? Dominó é só uma brincadeirinha inofensiva de aposentado-

— É o que? Peraí… Meu amor, você não está entendendo… Isso foi sério, tá? — Eduarda falou indignada se ajeitando no banco. Como ela pode achar isso uma brincadeira?

— Tá bem, meu amor, tá bem… Tá cem por cento autorizada a ir brincar com os amiguinhos na pracinha! — Lorena falou ignorando completamente a cara de desgosto da esposa — Agora, me fala o segundo crime.

— O segundo crime é um pouco mais grave, mas também já tenho soluções… O nosso neto, o Antônio… Ele meio que quebrou uma das suas plantas e eu só vi hoje de manhã…

— Eduarda falou com as duas mãos para cima e viu o semblante da esposa mudar, ela não parecia enfurecida, mas Eduarda sabia que aquilo tinha deixado ela pra baixo — Mas, eu mesma vou me certificar em inscrever ele nos Jogos Vorazes! E também comprei uma plantinha nova para você, aquela orquídea que você tava querendo. — Eduarda falou por fim e Lorena tentou conter o sorriso.

— Uau… Depois eu vou avaliar a situação da plantinha, quem sabe tem jeito, né? — Ela falou para si — Tem mais alguma coisa que você queira confessar?

— Sim! Vamos jantar fora hoje, reservei o japonês que você ama e que tava cheio naquele dia.

— Pensava que minha única janta hoje seria uma mulher bonita em específico! — Lorena falou safada e Eduarda fingiu choque.

— Bom, se eu for essa mulher em específico, você pode jantar, lanchar, comer no chá das quatro, guardar pra comer mais tarde, embalar pra viagem… — A ruiva seguiu falando e Lorena rindo.

— Vem aqui — A morena chamou com a mão livre e Eduarda prontamente estava ao lado da esposa, que distribuía uma sequência de beijinhos estalados no rosto da ruiva — Eu te amo muito, muito mesmo!

XXX

Após uma noite que começou e terminou com jantares deliciosos, com Eduarda implorando por uma massagem nas costas, alegando fortes dores e desconfortos, só para Lorena ficar passando as mãos ali até ela dormir… às quatro e meia o despertador tocou impiedoso. Lorena se remexeu na cama resmungando, tentando desligar o aparelho e já se aconchegando mais na esposa, na esperança de dormir só mais cinco minutinhos, mas Eduarda já estava de pé, pronta, preparada e querendo a tal pescaria.

Foram as segundas a chegarem na garagem náutica, perdendo apenas para Henrique Fragoso, que já estava lá de pé, na pose clássica de idoso barrigudinho com as mãos para trás, vez ou outra apontava para algumas cordas instruindo Sandro, o motorista da rodada.

— Ah, aí estão as minhas meninas! — Henrique falou com um sorriso largo assim que encarou Lorena e Eduarda surgindo na ponte de madeira, usando óculos de sol, chapéus e carregando o cooler.

— Bom dia, sogrinho! — Lorena foi a primeira a abraçá-lo.

— Bom dia, meu amor! — Ele falou sorridente e Eduarda quase desmanchou ali mesmo ao ver a cena toda.

A ruiva nunca conseguiu se acostumar com o tanto de amor que os pais tinham por Lorena e achava a coisa mais linda do mundo.

— Bom dia, pai! — Eduarda falou e lançou uma sequência de beijos pela cabeça branca do idoso, como fazia desde que era criança — Que saudade que eu estava!

— Minha menina! Você está linda como sempre! Trouxe seu presente, está lá dentro! — Ele falou afagando os fios ruivos — Nem me fale, essa semana foi tanta agonia que nem almoçamos!

— Vou ligar para o restante do pessoal! — Lorena falou se afastando alguns passos.

Eduarda fez questão de entrar a bordo do veleiro, carinhosamente batizado de Violeta, com o pai. Ele seguia falando sobre a rotina, as aulas e agora, sobre coisas técnicas da embarcação que sempre foi o seu xodó e a ruiva apenas encarava o idoso à sua frente.

Ele ainda era apaixonante, apesar de não ter mais a mesma cabeleira, os olhos ainda eram curiosos e bondosos, o sorriso ainda puxava mais do lado esquerdo e o tom polido e galante continuava ali… O vento açoitava os poucos fios de cabelo e ele parecia menor, sem a mesma vitalidade de antes. A percepção de que ele estava envelhecendo e que, um dia, não estaria mais ali com aquele abraço caloroso fez o coração de Eduarda apertar.

— Tome — Ele falou estendendo uma caixinha um pouco maior que a palma da mão e Eduarda segurou — Espero que goste.

A delegada abriu a caixinha delicadamente e sentiu os olhos encherem d'água no mesmo instante. Era um relicário de ouro, delicadamente trabalhado. Assim que abriu, viu duas fotografias cortadas: de um lado, uma foto antiga dela ainda criança, sorrindo entre o pai e a mãe e do outro lado, ela radiante ao lado de Lorena e Catarina. Toda a sua vida, seu amor e sua história guardados ali.

— Eu amei, pai — A ruiva falou com a voz já embargada pelo choro contido, encarando o presente nas mãos antes de puxar o pai para um abraço apertado e demorado, enterrando o rosto no pescoço dele como se quisesse congelar o tempo ali.

Claro que ele fez questão de saber sobre cada detalhe da festa de aniversário surpresa da filha e também contou que estava com um grupo de alunos em outra cidade no dia. Foram interrompidos diversas vezes, quando o resto do grupo foi chegando, mas aquilo não era ruim, pelo contrário.

— Engraçado que vocês duas seguem exatamente do mesmo jeito, né? — Ele falou assim que a nora se afastou, tinha vindo colocar protetor solar em Eduarda e nele.

— É, pai… A Lorena tem me salvado desde o dia em que nos conhecemos! — Eduarda falou com um sorriso orgulhoso.

— Isso é ótimo! Sua mãe fez a mesma coisa comigo e você nem imagina o quão feliz eu fico em ver o mesmo acontecendo com você!

— O senhor acha que eu não vejo isso acontecendo com a Cat? — Eduarda perguntou tentando conter um sorriso e gargalhou ao encarar a carranca séria do pai, que desgostava na mesma proporção do genro da ruiva.

Aquelas alturas, quando o barco finalmente zarpou, a pescaria era só uma lembrança vaga… Os peixes conseguiam ouvir o barulho que aquela trupe toda fazia há quilômetros de distância, o clima ficou… Interessante, quando Maggye chegou com Júnior.

Bem que a Lorena falou que os peitos da Mag ficaram lindos… Se o barco afundar, é só segurar nela e vamos boiar no silicone.

— Você está impecável como sempre! — Henrique falou abraçando Mag.

— O senhor é que está! Todo gatinho de óculos de chapéu! — Maggye falou e todos riram, já que Henrique estava usando o óculos rosa de Aninha.

— Bom dia, doutor Henrique!

— Opa, meu querido… — Henrique falou, virando-se com simpatia para encarar o homem que vinha logo atrás de Maggye — Você eu acho que ainda não conheço… É amigo das meninas?

— É o Júnior, pai! — Eduarda falou apressada, querendo imediatamente desaparecer do mapa, ser rebocada por Iemanjá e levada como oferenda pro fundo do mar.

A delegada encarou o conhecido de longa data e o homem havia feito alguma coisa no rosto, será que foi uma harmonização? Mas nesse caso, desarmonizou, né! A mandíbula parecia um quadrado cimentado e as bochechas nem mexiam mais. Ele tá a cara do Fred Nicácio com Lula Molusco Harmonizado!

— Liga não, Júnior, ele tá esquecidinho assim mesmo… Coisa da idade, já! — a ruiva falou empurrando o pai para longe e Lorena quis gargalhar.

O espetáculo estava completo: Catarina, Lorena e Henrique estavam numa conversa sobre a situação de Israel e da Palestina, Eduarda se sentia diante da Santíssima Trindade dos conhecimentos e não conseguia desviar os olhos da cena, principalmente da esposa, ainda mais quando ela ficava falando com aquele ar de professora universitária que sabe muito sobre o que está falando e pior ainda: falando tudo isso usando um biquíni e saída de praia. Perto da proa, Maggye, Gerluce, Joélly e Benício seguiam numa conversa paralela sobre algum ocorrido no hospital. Tudo isso ao passo que o som estava ligado, as carnes na grelha sob a supervisão de Paulinho, que estava com Breno e Júnior plastificado, numa conversa sobre a série A do brasileirão.

De novo, Eduarda passou a vista por todo mundo e se sentiu completamente rejuvenescida com o grupo de amigos ali.

Aninha e Antônio vestidos com roupas de banho e uma camada generosa de protetor solar, ao ponto de estarem primos legítimos do Gasparzinho, já tinham percorrido toda a trajetória do deck cerca de novecentas vezes, correndo e gritando. Vez ou outra apontavam para o mar enquanto chupavam picolé de uva e Eduarda ria das bocas roxas..

— Amor, você já mostrou a surpresa à minha mãe? — Catarina perguntou se aproximando do esposo, falou um pouco mais alto por causa do barulho do som e do vento e Eduarda, que quis bufar no mesmo instante.

— Puts, ainda não, amor! Tinha esquecido completamente! Acabei me distraindo com o caos do barco. — Ele falou passando a mão pelos cabelos desgrenhados por causa do vento forte.

Eduarda encarou a filha e, ao ver o genro se aproximando com aquele sorriso, o olhar de delegada seguiu alternando de um para o outro, desconfiado, até o rapaz parar exatamente na frente das duas.

— Acho bacana chamar sua outra mãe também, amor… Vem cá, sogra! — Breno falou tentando chamar a atenção de Lorena.

A delegada seguia observando a cena toda, até que a filha, deu um grito por Lorena e em poucos segundos ela estava parada com as mãos nos quadris de Eduarda e o queixo apoiado no ombro sardento.

Breno trocou um olhar cúmplice com Catarina e ela balançou a cabeça positivamente, com um sorriso largo.

— Bom… Vocês duas já sabem que eu sou completamente maluco de amores pela filha de vocês e por essa família, que me acolheu tão bem. — Ele começou a falar e foi ficando emocionado, o que deixava Eduarda ainda mais intrigada a cada palavra — Eu amo muito vocês, meninas! Sinto que sou o cara mais abençoado do mundo por ter tantas presenças femininas fortes… Vocês na minha vida e o Tunico, claro! — Ele falou fungando — A Cat me lembrou esses dias que o aniversário de casamento de vocês é daqui uns dias e eu decidi fazer uma surpresa. — Breno falou e segurou o copo descartável com os dentes e usou as duas mãos para levantar a camisa UV preta que vestia, exibindo o tronco nu.

— Ai, meu Deus… — Lorena falou encarando a cena, completamente paralisada.

Eduarda queria muito falar alguma coisa, mas estava completamente sem palavras e temendo estar entrando em choque cataléptico.

O genro havia tatuado a foto de natal da família, com Eduarda, Lorena, Catarina, Breno, Aninha e Antônio no peito. De mamilo a mamilo.

Os olhos da ruiva foram se enchendo d'água e em toda a sua vida, sessenta anos, muitas vivências, nunca, nunca, nunca tinha sentido uma vergonha tão grande quanto aquela. Meu Deus que coisa asquerosa horrenda horrorosa.

Eduarda prontamente cobriu os olhos e abaixou o rosto, sentindo a nuca quente de constrangimento puro e alguém gritou:

— Awn, ela está emocionada!

E fez-se uma grande comoção. O genro avançou em cima dela emocionado, com o peito coberto por um plástico filme e ela foi soterrada no peito masculino, vendo em Full HD a cara do neto estampada ali, há centímetros de seu nariz e a própria cara, inclusive! Depois, todos fizeram questão de ir lá, olhar e apontar as semelhanças e falar que estava lindo.

— Meu amor, fala alguma coisa! — Lorena pediu baixinho, tentando não rir muito alto enquanto encarava a cara de desgosto da esposa.

— Meu amor, que coisa horrível… — Ela sussurrou no pescoço da esposa — Como é que ele teve a capacidade? Meu Deus do céu…

Como é que esse desgraçado salafrário teve a coragem e a capacidade de tatuar minha cara na caixa dos peitos? E quando ele se divorciar da minha filha? Vai levar minha cara junto, meu Deus do céu.

— Tá vendo só, filhão? — Breno falava orgulhoso para o pequeno Antônio, com Catarina ao lado, já um pouco mais afastados no deck. — Aqui ó: você, as vovós, sua irmã, o papai... Eduarda enterrou a cabeça no pescoço de Lorena, que tremia de rir baixinho enquanto acariciava suas costas.

— Ninha, você gostou? — Breno perguntou erguendo a menina com o outro braço.

— Ah… Sei lá… Preferia antes, pai.

OPINIÃO DE CRIANÇA É SAGRADA! CRIANÇA NÃO MENTE NUNCA!

Foi o único comentário que Aninha falou e ali, Eduarda soube que o futuro ainda tinha esperança!

Olhou ao redor mais uma vez, encarou o pai, os amigos, a filha, o genro abençoado, os netos rindo com as bocas roxas… Levantou a vista e deu de cara com os olhos verdes mais lindos que já viu em toda sua vida. A ruiva ficou na ponta dos pés e depositou um beijo na ponta do nariz da esposa, que sorriu tímida.

— A vista daqui é bonita demais! — Eduarda falou encarando Lorena com a maior cara de apaixonada — Te amo demais!

— Você é toda cheia de graça, né?! — Lorena falou apertando mais o abraço na cintura da menor — Te amo!

— De gracinha em gracinha… vai que você tira a calcinha! — Eduarda mandou com uma piscadela cafajeste e levou um tapa estalado e leve na bunda na mesma hora.

— Você não existe!

— Ele acabou de me dar uma ótima ideia de presente!

— Ah, mas eu só vou achar legal se você tatuar meu nome dentro de uma pimenta! — Lorena falou e Eduarda arregalou os olhos.

— Eu tava falando sobre pagar para remover tatuagens! — Eduarda disse por fim e as duas gargalharam.

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